No ano de 1993 um importante passo para os quadrinhos adultos nas editoras mainstream (leia-se Marvel e DC) foi dado: a criação do selo Vertigo. Com histórias mais densas e com temas mais sérios os leitores foram pegos de surpresa com o novo selo.

A Vertigo se destacou no cenário norte americano de quadrinhos, graças é claro as boas histórias do selo e também pela crise que os quadrinhos enfrentavam nos anos 90, com o estilo Image totalmente em alta (quem não se lembra dos heróis com mais músculos do que o permitido, 200 dentes na boca, armas, jaquetas, e outras bizarrices). Com autores do quilate de Alan Moore (Monstro do Pântano), Grant Morrison (Patrulha do Destino), Peter Milligan (Shade, o Homem Mutável), Neil Gaiman (Sandman) e Jamie Delano (Hellblazer) a Vertigo era o que tinha mais de quente na indústria. A invasão britânica comandava e os leitores amavam.

Aliás, Alan Moore merece um parágrafo a parte. Foi graças ao rouxinol de Northampton, risos, que o selo Vertigo veio ganhar um lugar ao sol. Graças ao seu Monstro do Pântano com histórias que tratavam de ocultismo, meio ambiente, corporações tendenciosas e muitos mais que os leitores sacaram que havia algo a mais ali. E os editores da DC também, e Saga of Swamp Thing (o nome original da revista) foi o primeiro gibi a abandonar o Comics Code Authority para ser exclusivamente uma revista para adultos. É, agradeça ao barbudo.

Para ajudar ainda mais o selo eis que em 1996 chega Garth Ennis e o seu Preacher, que chegou a bater de frente com Sandman em vendas, inclusive vendendo mais em certos meses do que o título mais famoso do selo. Depois veio Invisíveis! Transmetropolitan! Kid Eterinidade! (não reparem na ordem) Tudo ia bem, autores prestigiados, histórias que desafiavam o leitor. Praticamente o que saia pelo selo era garantia de boas críticas, vendas e qualidade.

Todo leitor (que se preze) conhece esses títulos e suas qualidades.

Só que a fonte foi secando aos poucos.

Sandman e Shade acabaram em 1996, restando a Preacher que tinha começado em 1995 e Invisíveis (1994) a missão de manter o selo em destaque. Em 1997 ganhou o reforço de Transmetropolitan do genial Warren Ellis. Em 1999 Brian Azzarello se juntou a turma com 100 Balas.

Invisíveis e Preacher acabaram em 2000. A situação já não era tão boa. Apostando na força da marca Sandman, é lançada no ano de 2000 a mensal de Lucifer do competente Mike Carey, mas que tirando os fãs da série não teve lá grande destaque. Transmetropolitan também deu tchau aos leitores em 2002.

Uma esperança para os leitores foi quando também no ano de 2002, Y: O Último Homem de Brian K. Vaughan e Fábulas de Bill Willingham estrearam. As boas histórias voltaram! Mas faltava AQUELE título, o carro chefe do selo. Y, 100 Balas e Fábulas se revezavam muito bem na tarefa, sempre com críticas e vendas acima do esperado para o selo. Fábulas rapidamente se destacou e inclusive acabou gerando um spin off, Jack of Fables.

Aí na humilde opinião deste que vos escreve é que começou a queda do selo. Fábulas por mais que tivesse boas histórias sendo publicadas começou a virar franquia. Mini série da Cinderela, João das Lorotas (tradução by Panini), livro da série. O charme se foi, virou mais uma franquia no meio de tantas outras como Batman, X-Men, Vingadores.

Para piorar, Y e 100 Balas encerraram o ciclo, a primeira em 2008 e a segunda em 2009.

Ao longo do tempo outras séries foram aparecendo: DMZ de Brian Wood, Scalped de Jason Aaron, Sweet Tooth de Jeff Lemire, Air, Madame Xanadu, The Unwritten, e muito mais. Nenhuma com aquele UP pra ser O título.

Hoje o selo tem mensalmente a onipresente Fábulas, The Unwritten, iZombie, Sweet Tooth e American Vampire (essa vem ganhando muito destaque, mas não merece o hype). E agora em março estreou…Fairest, mais um spin off de Fábulas.

Mas afinal de contas, o que aconteceu com a Vertigo? Alguns possíveis motivos:

– Concentração de foco em Fábulas: É o carro chefe da editora, indiscutivelmente. Tem boas histórias? Sim! Tem qualidade? Sim! É clássico? NÃO. E mesmo assim espremem até o último bagaço com spin offs, mini séries, livros em prosa e tudo o que for possível.

– Image. Sim, a Image que meio que indiretamente ajudou a Vertigo a ter a fama nos anos 90 hoje atrapalha. Hoje a Image não se resume a heróis com colantes, conta com vários títulos com temáticas diferentes que chamam a atenção do público. Tem autores indies e até medalhões como Grant Morrison, Jonathan Hickman, Robert Kirkman entre outros para chamar a atenção.

– O descaso da DC: Sim, a DC é culpada, afinal é ela que toma conta da bagaça. A editora não se mexeu o suficiente para que o selo tivesse o brilho de outrora, não chamou grandes autores para levantar o selo. E as tentativas foram poucas, como a mal sucedida VERTIGO CRIME, uma série de encadernados em capa dura com história em preto e branco e com temática pulp.

– Corporações: Malditas corporações! Pra quem não sabe a DC Comics pertence ao grupo Time Warner e como disse Robert Kirkman o atual editor chefe da Image: os autores não querem que suas criações fiquem com corporações, eles querem controle sobre elas. E controle sobre elas significa vender ela para TV, estúdios e ganhar dinheiro no mole (Mark Millar que o diga). Trabalhando para a Vertigo automaticamente o autor trabalha para a Warner. Se ele sonha com voos mais altos depende da boa vontade do estúdio.

Para tentar reverter a situação em breve irá estrear duas séries: Saucer Country do roteirista Paul Cornell (Stormwatch, Capitão Britânia, Batman) com temática sobre ETs e política e Dominique Laveau: Voodoo Child escrito por um tal Selwyn Seyfu Hinds que nunca ouvi falar na vida que pelo título vocês já sacaram do que se trata.

Aqui no Brasil os leitores vem tendo uma pequena amostra da Vertigo atual com a revista mensal em bancas. Com Scalped, Hellblazer (nem tão atual assim), Casa dos Mistérios, Vampiro Americano e mais alguma minis.

A Vertigo precisa de novos Preachers, Sandmans, Ys e rápido. O leitor irá agradecer.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Eu comprei as primeiras 10 edições da Vertigo que sairam no Brasil. Acho que no início dos anos 2000.
    Ainda tenho até hoje, sendo que aquela série foi até o numero 12 (ainda procuro as faltantes para completar a coleção).

    O que mais se via nas revistas era John Constantine (da primeira até a quinta edição) e Sandman – Teatro do Mistério (também até lá pela quinta edição).
    Aí começou-se a publicar os “Livros da Magia”, “Vamp”, entre outros.

    Eu só fui saber que havia outra série Vertigo saindo regularmente no Brasil ha pouco tempo atrás, mas ainda não peguei nenhuma para ler.

    O que dava para perceber na época destas que eu lia, era que realmente eram revistas adultas, muito diferente do que estávamos acostumados até então. Talvez por isso tenha gostado tanto na época.

    Que coisa, esta postagem me deixou com saudade das revistas… lá vou eu tirar elas das caixas da estante para ler no fim-de-semana que vem. hehehe

    Valeu!

    Té.

  2. O motivo do declinio do selo Vertigo é a falta de apelo “popular” que o selo possui.

    Gente de internet e mais ainda mais, fanboys malucos, sempres vão falar: “vende pra caraio porque a gente vê os comentarios em blogs e foruns”, “vende porque é bom.”
    Hoje em dia um produto bom é aquele que, apesar da pirataria e da saturação do mercado consegue chamar a atenção e catalizar dividendos atraves de outras midias. A ideia do selo vertigo que era boas estorias e tematica adultas, era boa quando um titulo bancava o outro, hoje com o declinio da industria é burrice manter um selo onde não existe a possibilidade de um retorno financeiro maior do que seu investimento.

    A marvel percebeu isso no selo MAX, enquanto Garth Ennis arregaçava com seu Justiceiro longe do mainstream ela não capitalizava nada. O personagem que na epoca teve seu titulo “regular”cancelado, ficava retido em seu pequeno nincho “adulto”e atingia um numero limitado de leitores por não poder levar o comic-code, isso significa nada de desenho animado, nada de filme, nada de lancheira e nada de merchadesing.
    Dc-Time Warner é uma corporação multi-midia que nesse momento busca que seus projetos sejam intercambiaveis de um midia para outra. Há anos existe um roteiro de “Preacher” que obviamente nunca verá a luz do dia. Mesmo tendo dialogos brilhantes e personagens fascinates seu argumento propositalmente blasfemo e polemico não vai atrair investidores.

    Isso é explicitado em Fables. A possibilidade de contabilizar com produtos derivativos e assim maximizar uma marca é um dos mais antigos truques do mercado. Obvio que os executivos engravatados que cuidam do dinheiro levam isso em consideração mesmo sem ler uma linha do roteiro.

    Resumindo a equação é a industria precisa ganhar dinheiro para poder ter bons projetos. Bons projetos precisam render dinheiro, senão a Industria não vai investir e o projeto, mesmo sendo bom vai ser descontinuado porque a Industria precisa ganhar dinheiro. E como a Industria só sabe ganhar dinheiro em mega ações e acredita que o publico medio que é o realmente consome seus produtos quer a mesma “tematica” e “embalagem” ela vai continuar a produzir os mesmo filmes, mesma series, mesma musica e os mesmos livros e gibis da mesma maneira.

  3. O que aconteceu?

    Sites como esse divulgaram tanto a pirataria que levaram a vertigo pro buraco. As editoras grandes só investem no que vende muito, eles tem equipes grandes pra manter. Vocês que estão aqui reclamando acabaram com a Vertigo.

    Editoras pequenas estão absorvendo os talentos, mesmo assim, não se sabe até quando isso vai durar.

    Mas a Vertigo como selo não morreu, ela só vai se tornar mais Daytripper. Vai lançar gibis emo.

  4. Acho que poderíamos passar dias discutindo as razões de a Vertigo estar, como diriam antigamente, “meio barro, meio tijolo”.

    Mas acho que duas coisas podem ser consideradas:

    1) Queda na qualidade das histórias – É fato, isso não atingiu apenas as histórias de herói padrão, mas mesmo as de estilo Vertigo. Já não é mais tão empolgante assim ler determinadas séries (e olha que eu nem sofro daquela síndrome do “antigamente era melhor”); e

    2) Vertigo não é mais o canal para a descoberta de bons autores e enredos ousados. Para a nova geração, que não faz questão da mídia impressa, a rede é um manancial inesgotável de ótimos artistas, e que não estão limitados pelas várias normas que as grandes editoras têm que seguir.

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