[ARTE DA VITRINE]: Thiago Chaves (@chavespapel)

Michael Moore é aquele tipo de pessoa que “chega causando”. Desde sua estreia como o documentário Roger e Eu, obra em que denuncia o capitalismo predatório que joga na sarjeta uma cidade inteira, no caso, Flint, no estado do Michigan, cidade onde nasceu e cresceu, o cineasta vem colecionando prêmios, conquistando legiões de fãs e desafetos na mesma proporção.

Polêmico, tornou-se uma referencia estranhamente contraditória do que é ser – ou não ser – um patriota.

Foi com Tiros em Columbine, que lhe valeu o prêmio máximo do cinema norte-americano na categoria melhor documentário longa-metragem no ano de 2003, que Moore tocou o céu para logo em seguida descer ao inferno. E é justamente contando essa história que ele inicia seu mais recente livro: Adoro Problemas.

Agora pense na situação: É noite de 23 de março de 2003. Quatro dias antes os Estados Unidos invadira o Iraque atrás de supostas armas de destruição em massa. Em Los Angeles, no Kodak Theatre, uma platéia de astros e estrelas, a maioria aplaudindo com entusiasmo, observa o cineasta que acaba de subir ao palco para receber sua estatueta. E ele discursa:

“(…) Vivemos em um tempo em que temos resultados eleitorais fictícios que elegem um presidente fictício. Vivemos em um tempo em que temos um homem nos mandando para uma guerra por motivos fictícios. (…) somos contra esta guerra, senhor Bush. Tome vergonha, senhor Bush. Tome vergonha na cara. E quando o papa e as Dixie Chicks ficarem contra o senhor, seu tempo terá se esgotado.”

Esse é o tom do início do livro e que já dá mostras do que virá pela frente. É no epílogo que Moore narra toda a loucura em que se transformou sua vida após o discurso inflamado na entrega do Oscar. Do dia para a noite ele se viu como uma espécie de inimigo público número um. Em uma sociedade belicosa como a estadunidense, onde andar armado é garantido pela Constituição e o patriotismo beira ao fanatismo, seria estranho se suas palavras passassem em brancas nuvens.

Moore foi obrigado pelas circunstâncias a contratar a melhor agência de segurança do país. “Não há nenhuma pessoa nos Estados Unidos, exceto o presidente Bush, que está mais em perigo do que você”, disse-lhe um importante especialista da área de segurança ligado ao governo federal.

Devido ao assustador número de ameaças, chegou a ter nove seguranças ao seu redor, 24 horas por dia. Sua vida e por tabela a de sua família, viraram um verdadeiro inferno. E foi sob a pressão de toda essa insanidade que nasceu o mais polêmico de seus filmes: Fahrenheit 9/11.

“Após o tumulto do Oscar e do status resultante de persona non grata que alcancei como o homem mais odiado dos Estados Unidos, decidi fazer o que qualquer um na minha posição faria: um filme sugerindo que o presidente dos Estados Unidos é um criminoso de guerra. Ou seja, por que pegar o caminho mais fácil? De qualquer jeito já tinha me ferrado.”

Definitivamente Michael Moore adora problemas!

Com o subtítulo: “Meio século de história e política americanas passado a limpo”, o livro ‘Adoro Problemas’, é um delicioso apanhado de “causos” da vida do autor. Nele, Moore leva ao leitor a enxergar os Estados Unidos ora pelos olhos de uma criança, ora pelo olhar de adolescente e por fim os olhos de um homem maduro. Cada etapa de sua vida se torna pano de fundo para revelar pequenas e grandes histórias.

Na narrativa recheada de auto-trollagens, inteligentes e divertidíssimas – pode-se dizer que Moore é do tipo “ria comigo, mas não de mim” – vamos conhecendo um pouco mais dos motivos que forjaram o ativismo do autor.

Histórias como a do pequeno bebê Michael Moore que nasceu com um cabeção considerado desproporcional mesmo para os padrões dos nativos de Michigan, cabeçudos por natureza.

Nela, encontramos a primeira denúncia à estupidez humana. De forma divertida e carregada no deboche, Moore fala sobre a “onda de modernismo” que era a sensação na década de 1950. Os hospitais e maternidades convenciam as mulheres de que para ser moderna de verdade deveriam alimentar seus bebês com leite em pó. Peitos não eram bem vindos. A primeira mamada deveria vir de uma mamadeira.

“Passei toda uma semana na maternidade do St. Joseph Hospital, em Flint, em Michigan, e quero contar algo para vocês: a partir de algumas conversas que tive com os outros recém-nascidos, ninguém estava gostando do mamilo falso de borracha; e isso nos transformou num grupo cínico e infeliz, como a maioria de nós ansiando pelo dia em que poderíamos conflitar aquela geração, com nossos cabelos longos, quantidades estapafúrdias de sexo antes do casamento e Malcolm X. A mamadeira criou Woodstock, bandeiras em chamas e o PETA.”

A citação acima da uma amostra do que virá pela frente. As primeiras histórias contam as aventuras do bebê Michael Moore que além da cabeça desproporcional, conseguia, contrariando a lógica, só engatinhar de marcha ré e que foi alfabetizado em casa por sua mãe. Aqui se abre um parêntese. Se Michael Moore é o que é, pode-se dizer que foi graças a essa mulher incrível que nasceu e morreu republicana. Veronica Moore, a quem o livro é dedicado, foi uma mulher definitivamente peculiar.

O livro aborda a vida do autor desde seu nascimento em 1954 até a noite de estréia de “Roger e Eu” no Festival de Telluride, em 1989. A narrativa segue a lógica digna de Michael Moore, com a introdução de flashbacks das lembranças de seus familiares, isso sem perder o foco de suas próprias lembranças. Um exemplo é a belíssima história do nascimento de seu bisavô materno que serve de pano de fundo para contar como era a vida dos primeiros desbravadores do Meio-Oeste, as tradições irlandesas resguardadas pelos imigrantes e a forma como os nativos norte-americanos eram tratados pelos invasores brancos.

Ao longo dos 35 anos em que as histórias se sustentam, “vemos” Michael Moore primeiro tornar-se uma criança que já dava demonstrações da personalidade cativante, inquieta e questionadora. Seu primeiro movimento como formador de opinião foi aos nove anos logo após os assassinatos de John Kennedy e de seu suposto assassino, Lee Oswald. Decidido que queria escrever sobre aquilo, criou um jornalzinho escolar, produção própria feita à mão, com uma tiragem de 25 cópias rodadas em um mimeógrafo (para os mais novos, muito antes das modernas impressoras e fotocopiadoras, usava-se este aparelho que funcionava girando uma manivela). O projeto não passou do primeiro exemplar, sendo recolhido ainda durante o período da aula. Segundo a diretora, não havia espaço no colégio para aquele tipo de iniciativa.

Ainda criança, Moore conheceu os horrores do racismo ao se defrontar com a hipocrisia alheia. Coroinha na igreja local presenciou as mesmas pessoas que poucos minutos antes acompanhavam a missa em silêncio e respeito, agora a porta do templo, comemorarem o assassinato de Martin Luther King.

“Mas de uma quantidade considerável, um ruído de alegria espontâneo saiu das bocas que tinham acabado de comungar o corpo de Cristo na hóstia. Um oba, um berro e um hurra. Ainda estava processando a notícia atordoante e trágica a respeito do reverendo King que acabara de ouvir; ouvir de um homem que disse isso com tanta certeza que todos ficariam bem agora; esse negro, esse preto, esse terrorista não ia mais nos incomodar. Aleluia!”

No começo da adolescência descobriu que o sonho de se tornar padre – muito mais por ideologia do que por vocação – jamais se concretizaria. Suas idéias e questionamentos a cerca de tudo, em especial a Igreja Católica, foram cruciais para a desistência após um ano como seminarista. “Nós temos maneiras de fazer as coisas que remontam a dois mil anos”, disse-lhe o padre Duewicke, diretor do seminário, “e não temos de responder a ninguém a respeito de nada, certamente não a você”, concluiu.

Mas seriam alguns anos depois que Moore realmente começaria a dar o que falar. Aos dezoitos anos recém-completados, se candidatou a uma vaga no conselho escolar de Davison, em Flint. E ganhou. Para desespero dos outros conselheiros tão acomodados no statu quo.

“(…) os alunos da escola não conseguiam acreditar que um dos seus pares realmente pôde dizer “vocês estão demitidos!” para o diretor e o diretor assistente. Começamos a pensar: o que mais podemos fazer? Aquele era um pensamento perigoso.”

Como membro do conselho escolar, Moore começou a desenvolver de vez o senso crítico, assim como passou a influenciar alunos, professores e a comunidade em geral. Apesar das inúmeras conquistas e transformações que realizou enquanto agente público, após quatro anos, seus embates com os demais membros do conselho foram definitivos para não se reeleger.

E foi aos 22 anos que Michael Moore fundou seu primeiro jornal, o Flint Voice, que seguia uma linha editorial contrária ao único jornal da região, o Flint Journal.

A cidade de Flint girava em torno da fabrica da General Motors, e o jornal local jamais escrevia uma única linha contrária a empresa ou a administração pública. Isso foi o suficiente para que Moore e um grupo de amigos fundassem o Voice.

“Rapidamente o jornal tornou-se leitura obrigatória para aqueles que prestavam atenção à política de Flint. O Flint Voice era um jornal de escândalos reais, que não se importava com quem incomodava. Não trazíamos artigos sobre as “Dez Melhores Soverterias da Cidade” ou “Viagens de 20 Dias que Você Vai Querer Fazer”. Nosso jornalismo era intransigente e implacável.”

Com o Voice, Moore moldou definitivamente o espírito ativista que germinara desde criança. O jornal não poupava críticas ao prefeito local afundado em denúncias de corrupção. E foi devido ao abuso de poder do prefeito Ruthrford, que o Voice se tornaria a ponta de lança que levou o Pricacy Protection Act a aprovação no Congresso e posteriormente sancionada como lei pelo então presidente Jimmy Carter, em 1980. A lei protegeria das batidas policiais as redações de jornais em todo país.

Estes são alguns temas abordados por Michael Moore em Adoro Problemas. A cada história narrada vamos experimentando os mais diversos sentimentos, aumentando a expectativa do que terá pela frente ao virar a próxima página.  São histórias que nos fazem rir, emocionar, indignar e definitivamente nos levam a reflexão.

A crítica do The New York Times diz que de longe esse é o melhor livro do cineasta. Não tive oportunidade ainda de ler seus outros livros, mas já assisti alguns de seus filmes, entre eles Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11. E posso dizer que a montanha russa de sentimentos que tive ao assistir estas obras, foi à mesma ao ler este livro.

Michael Moore me fez rir as gargalhadas. Me fez chorar de tristeza e indignação. E por conta de todos estes sentimentos que ele me proporcionou, acabei me fazendo a mesma pergunta que ele se fez: Por que pegar o caminho mais fácil?

Michael Moore, o cara que adora problemas, me faz recordar uma frase que li há muito, muito tempo atrás:

“É necessário que o mundo depois de ti seja algo melhor porque tu viveste nele”. (Stanley)

 

Título: Adoro Problemas (Lua de Papel/2011)

Autor: Michael Moore

Nº. de Páginas: 344

Nota: 10

Comente pelo Facebook

8 COMENTÁRIOS

  1. Dolphin, já estava sentindo saudades dos seus textos. O que me fez adorar Michael Moore é a forma brilhante como ele nos faz refletir sobre tudo o que está acontecendo a nossa volta. O misto de escárnio, comédia atreladas a uma porrada de realidade é a marca de seu brilhantismo.

    Parabéns pelo texto, excelente!

  2. O mais engraçado nesse texto é o link pra wikipedia pra ajudar os leitores analfabetos a saber o que é “status quo” uhauhauhauhhahua

    Pensando bem, quem le textos esquerdistas é tão burro que precisa disso mesmo!

    • Rapaz, uma coisa é ser reacionário, outra coisa é ser imbecil e não respeitar a opinião dos outros. Adivinha em qual categoria você se enquadra?

  3. Excelente resenha a respeito de um ponto fora do senso comum: Michael Moore.
    Ao fazer seu relato de vida, reforça a sensação de que algo muito errado acontece naquela cultura WASP da gringolândia e faltam vozes como a dele.

    É verdade que existe um “esquerdismo permitido” pelo sistema e Michael Moore pode até ser um exemplar.
    Custo a aceitar é que tipos “revolucionários de xópim” tenham algo a acrescentar, tal como este imbecil destruidor que comenta acima.

    A melhor forma de combater um sistema é CONSTRUIR ALTERNATIVAS e o Michael deixa esta possibilidade aflorar.

    Parabéns, Dolphin.
    Seu texto ficou leve, claro e atinge um alvo: os leitores, que se interessarão pelo livro à partir da sua análise.

  4. Ótima resenha!

    Eu conheci Michael Moore com o documentário Tiros em Columbine. Tudo o que ele faz é um soco no estomago, nos fazendo pensar melhor sobre todos os assuntos.

    Outro documentário, Capitalismo um História de amor, é de chocar. Aquilo é um tapa na cara da sociedade capitalista de consumo rápido. Eu recomendo ver esse doc.

    Com relação ao livro, fiquei muito interessada em saber o restante das histórias que ele tem a contar.

    Sr. Tavares, se o blog não lhe agrada então caia fora, ninguém é obrigado a saber o que é status quo, beleza??

Deixe uma resposta