Escrever sobre Stieg Larsson é como tentar descrever a sensação de saltar de um avião a cinco mil pés de altura, você tenta explicar, mas para entender realmente a sensação o único jeito é subir lá e pular. Para compreender o brilhantismo de sua mente se faz necessário uma completa imersão em sua obra, que traz não só uma história qualquer, mas um pouco de sua vida e todas as suas influências.

Karl Stieg-Erland Larsson nasceu em 15 de Agosto de 1954 em uma cidade pequena de aproximadamente 3 mil habitantes, situada na província de Västerbotthen chamada Skelleftehamn. Ainda bebê, Stieg foi deixado com seus avós maternos já que seus pais se mudaram para Estocolmo a fim de encontrarem melhores condições de vida. Se mudando então para uma cidade menor ainda chamada Bjursele (na verdade nem era considerada uma cidade, mas sim uma vila de apenas 60 habitantes), Larsson passou a morar em uma cabana praticamente no meio da floresta. Sem televisão, sem escola (já que na época existia uma lei sueca onde as crianças não poderiam frequentar as escolas antes do sete anos de idade, pois existia o real perigo delas serem devoradas por lobos) e vivendo praticamente isolado, seu único divertimento eram os livros.

Foi então que lendo as histórias de Astrid Lindgren, uma autora sueca de livros infantis, Stieg se apaixonou pelas histórias investigativas, seu personagem predileto era um garoto detetive chamado Kalle Blomkvist (creio eu que tenha sido a fonte de inspiração para o nome do personagem Mikael Blomkvist na Trilogia Millennium). Não demorou muito tempo até que Larson criasse as suas próprias histórias. Todos os anos, no Natal, seus pais vinham visitá-lo já com seu irmão mais novo Joakim. Passavam o Natal entre brincadeiras e a narrativa de contos sobre um menino detetive intitulado de “O Mistério do Assassino na Casa ao Lado”.

Sendo criado por seus Avós, Larsson começou a criar suas convicções políticas influenciadas por seu avô Severin, comunista que se opôs aos nazistas durante a Segunda Guerra. Contudo, quando Larsson tinha oito anos seu avô veio a falecer, obrigando o garoto a se mudar pra Umea onde seus pais haviam se estabelecido. Seu pai trabalhava como ilustrador em um jornal local e a sua mãe trabalhava em uma loja de roupas. Aos 14 anos Larsson ganha de seu pai a primeira máquina de escrever comprada parcelada, que segundo ele acabara se tornando um pesadelo já que eles moravam em um cubículo de apenas um dormitório e o jovem rapaz não parava de escrever.

Mais tarde, ao ser rejeitado pela Stockholm School of Journalism, consequentemente não conseguindo trabalho como jornalista, Larsson resolveu chutar o balde. Já que ninguém daria uma história para ele cobrir, ele sairia à procura de uma, partindo então rumo à África. Passando pela Argélia, Marrocos e Quênia de ônibus escreveu diversos artigos sobre suas aventuras, mas os editores suecos não estavam nem aí para o que ele escrevia. Sem dinheiro, com malária retornou a Estocolmo e conseguiu um emprego de carregador nos correios. Posteriormente, por intermédio de um amigo, conseguiu um emprego de datilógrafo em uma agência de notícias.

Influenciado pelas convicções políticas de seu avô e o seu fascínio pela política, Larsson começou a colecionar tudo que se relacionava a extrema direita, desde recortes de jornais, panfletos e até parte de correspondências de extremistas. Até que finalmente conseguiu virar correspondente do jornal britânico, Searchligth que tratava sobre assuntos antirracistas. Em 1991 escrevendo um artigo intitulado de: “A Extrema Direita”, onde ele traçava a ascensão dos grupos de extrema direita, superou todas as expectativas nas vendas. Larsson não estava satisfeito. Já quase aos 40 anos de idade havia sido promovido na agência em que trabalhava, mas os editores ainda não davam matérias para que ele escrevesse. Mesmo não tendo oportunidades, Stieg, além de se orgulhar em trabalhar em uma agência de notícias, precisava do dinheiro.

Munido dessa necessidade em subir mais um patamar, de conseguir algo mais, tomou uma decisão: começar suas próprias publicações. Eram os anos 90, na época a população de Estocolmo estava apavorada por um Serial Killer à solta e os grupos neonazistas protestavam nas ruas. Movimentos extremistas de direita cresciam em um país que outrora era governado por esquerdistas alimentando cada vez mais o vício de Larsson pela política.

Em agosto de 1995 sai a primeira edição da revista Expo. A matéria falava sobre as tendências antidemocráticas, da extrema direita e os racistas na sociedade sueca. Mesmo com o baixo número de vendas, a revista acabou chamando a atenção dos grupos nazistas que não ficaram muito satisfeitos. Fazendo questão de exaurir toda essa insatisfação os mesmos resolveram simplesmente quebrar as janelas das bancas que vendiam as revistas, vandalizaram o escritório da gráfica e picharam nas paredes: “não imprimam a Expo”. O caso teve repercussão na grande mídia Sueca, jornais publicaram matérias em parceria com a Expo, mas mesmo assim a publicidade era pequena. Mesmo amargando prejuízos, Larsson realizou seu primeiro sonho: ser ouvido.

Antes do lançamento da Expo, Larsson já era ameaçado de morte constantemente. Tomava precauções necessárias, mas mesmo assim sabia que sua vida corria perigo. Com o passar do tempo ele literalmente estava cansado dessa vida em constante ameaça por uma revista que não dava lucro e dependendo sempre de sua namorada Eva Gabrielsson, que era arquiteta. Foi então que ele resolveu ouvir seu pai e escrever algo comercial.

Ninguém sabia mais de histórias policiais do que Larsson, sua vivência neste gênero desde a infância deu a ele um norte e, acima de tudo, bagagem para iniciar sua história. Em 2002, juntamente com Eva, sua companheira, Stieg resolveu tirar férias no arquipélago de Estocolmo e dar início à criação de sua obra prima. Seu brilhantismo começou logo na criação dos personagens. Em vez de usar um investigador ou um policial que era algo extremamente clichê, Larsson cria não exatamente um alter ego seu, mas alguém muito próximo de si mesmo, ou seja, um jornalista investigativo que também possui uma revista própria (A Revista Millennium, uma versão da Expo) que se chamava Mikael Blomkvist.

Mikael, mesmo assim seria o papel secundário dessa história. A inspiração para a sua personagem principal viria mais uma vez das suas histórias de criança. Nos livros de Astrid Lindgren havia uma personagem que sempre foi a preferida de Larsson: Pippi Longstocking. Pippi era uma menina de 9 anos de idade com uma força absurda e vivia sozinha, assim nasceu a idéia da protagonista Lisbeth Salander. Lisbeth surgiu como uma versão mais velha de Pippi, mas em vez de ter uma força descomunal ela seria uma Hacker daquelas de fazer inveja à Angelina Jolie em Hackers Piratas de Computador, além de um imenso complexo de exclusão.

Contudo, a completa composição da personagem de Lisbeth veio por intermédio da sobrinha de Larsson, Therese Larsson. Therese sempre viu seu tio como um herói, como um segundo pai, como alguém em que ela poderia confiar e Stieg sempre teve um grande carinho por ela. A tatuagem de dragão foi um desejo que ela tinha, a sua magreza excessiva remete aos problemas de anorexia que ela sofreu quando adolescente, o kickboxing, sua paixão, a forma de se vestir com a maquiagem preta, jaqueta de couro preto e as botas pretas que seu tio inclusive achava fascinante, todas essas características que eram de Therese, Larsson fez questão de incuti-las à personagem de Lisbeth Salander. Em uma oportunidade Larsson inclusive disse a ela: “Lisbeth Salander é como você. Delicada por fora, mas durona por dentro”.

Costumo dizer que os três volumes da obra de Larsson são como a composição de uma música: o primeiro volume é a letra, o segundo é a melodia e o terceiro é a obra musical completa e perfeita. Quando tocada, aquela música te envolve, te imerge em um mundo completamente fora do seu, te influencia, te toca. Você pode estar achando um exagero da minha parte, mas eu pergunto: quantos de vocês que durante a leitura da obra não dobraram o número de cigarros ou tomaram litros de café influenciados pelos personagens? Meu irmão, que nunca tomou café na vida, passou a tomar xícaras e xícaras de café diariamente por causa do livro. É algo inexplicável. A minha vida inteira li os livros no anseio de chegar ao final, mas lendo a trilogia Millennium eu não queria que ela chegasse ao fim, não queria terminar de viver as aventuras de Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. Larsson conseguiu incutir em sua obra todas as suas influências e não só isso: tudo pelo qual lutava e acreditava desde política, corrupção, maus tratos e a violência contra a mulher. Ele não mediu palavras, não escreveu de forma a não chocar as pessoas, mas mostrou a realidade tal qual ela se apresenta. Prova disso é parte do estupro de Lisbeth Salander por seu tutor ou a criação de subgrupos dentro da própria inteligência sueca.

Larsson não viveu o suficiente para ver a sua obra se tornar um Best Seller. Em 9 de Novembro de 2004 devido à falta de exercícios, uma dieta de fast-food, 60 cigarros e litros de café diários, teve um ataque cardíaco na sala de reuniões da Expo. Socorrido pelo editor de fotografia da revista e os paramédicos tendo chegado de forma rápida e eficiente ele não resistiu e morreu aos 50 anos de idade, exatamente um ano antes de sua obra ser publicada.

Após a sua morte e o sucesso de sua obra, Larsson deixou uma grande herança e também uma imensa batalha judicial que se arrasta entre sua família e sua companheira Eva. O direito sucessório sueco não permite que Eva tenha parte na herança de Stieg, pois o mesmo não deixou nenhum testamento tornado-a herdeira. Sendo assim, todos os louros percebidos pós mortem ficaram para os pais e o irmão de Stieg. Segundo Eva existe um quarto livro que Larsson havia deixado bem encaminhado. Contudo, as fontes divergem, dizendo que ela havia dito que poderia terminar, mas não o faria, pois não receberia nada por isso. Por outro lado, dizem que ela não conclui o mesmo, pois seria “tentar completar um quadro de Picasso”. Fato é que não existe (pelo menos agora) a possibilidade desse quarto livro ser lançado.

Em novembro deste ano faz oito anos que Stieg Larsson faleceu. Seu sonho se tornou realidade: virou um escritor conhecido e sua revista, a Expo, é um sucesso na Suécia. Seu legado até hoje é levado pelos novos gestores da revista, esta sempre com assuntos os quais seu antecessor abordava. Sua obra foi adaptada para o cinema (será esmiuçada na segunda parte desse texto) e todos, assim como eu que viveram cada palavra dita na Trilogia Millennium jamais esquecerão o quão brilhante ela era e sua imensa contribuição para a literatura do século XXI.

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Referências Bibliográficas:

RICH, Nathaniel. O Mistérios da Tatuagem de Dragão. Revista Rolling Stone, São Paulo, n. 73, p. 72-77, Fevereiro. 2011;

http://pt.wikipedia.org/wiki/Stieg_Larsson

http://www.stieglarsson.com/

http://stieglarsson.net/

http://www.stieglarsson.se/

http://expo.se/

http://www.nytimes.com/2010/05/23/magazine/23Larsson-t.html?_r=1&pagewanted=all

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3 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom ler o texto de um fã de Stieg Larsson. Só assim para ter sensibilidade e profundidade para tratar desse gênio sueco. Sem o perigo de exagerar nas qualidades do seu objeto de interesse, pois ele é realmente um escritor incrível, você conseguiu mostrar a vida ausente de glamour – na minha cabeça escritores são uma mistura de 007 e Keith Richards – capaz de desenvolver histórias tão intensas e marcantes.
    Pena que ele morreu tão cedo, nos deixando perguntas e um vazio na estante.

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