Todos que tiveram o privilégio de estar em contato com a obra de Stieg Larsson terminaram suas leituras com uma única certeza: De que essa história seria adaptada para os cinemas. Em meu caso não foi apenas uma certeza, mas um desejo de poder presenciar a personificação de Lisbeth Salander e Mikael Bloomkvist nesse intrigante suspense. Os primeiros a correrem para torná-la um filme foram, é claro os suecos. Contudo, não merecem nem mesmo um parágrafo inteiro de minha parte pelo filme ter sido muito ruim. Vou me ater especificamente a versão Hollywoodiana.

Quando eu soube que David Fincher seria o diretor, aliás o maestro de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, confesso que dei um suspiro de alívio. Lembrando de filmes pretéritos como: A Rede Social, Clube da Luta, Quarto do Pânico me deram a certeza que Fincher daria conta do recado e nos traria uma obra prima tal qual foi o primeiro volume da obra de Larsson.

Os desafios surgiram logo na fase de pré-produção no que se refere a escolha do elenco. No papel de Lisbeth Salander várias atrizes foram cogitadas, dentre elas: Natalie Portman, Keira Knightlev, Anne Hathaway e até mesmo Kristen Stewart. Algumas delas desistiram, outras foram descartadas pela produção até que eles finalmente chegaram ao nome de Rooney Mara. Já no papel de Mikael Blookvist os nomes cogitados foram: Johnny Depp, Viggo Mortensen, Brad Pitt e George Clooney. Daniel Craig, mesmo após ter sido escolhido esteve na eminência de deixar o elenco do filme em virtude das gravações coincidirem com as do filme 007 – Skyfall, mas para o nosso alívio ele conseguiu conciliar as duas produções já que as filmagens atrasaram.

O cuidado de não diferenciar a obra do filme é logo notado nos primeiros minutos por quem assiste, começando com Mikael Bloonkvist sendo condenado por sua matéria supostamente caluniosa a Hans Erik Wennerstrom e Henrik Vanger recebendo mais uma flor emoldurada em seu aniversário.

Quem leu a obra consegue nitidamente lembrar cada palavra escrita no livro, é algo que surge quase que instantaneamente durante todo o filme, pois as semelhanças são imensas. Fincher conseguiu dar aquele ar de mistério que permeia a obra literária não deixando quem assiste desgrudar os olhos da tela.

A caracterização dos personagens também merece destaque. Confesso que fiquei meio apreensivo quando soube da escolha de Rooney Mara para o papel de Lisbeth Salander. Ela sempre teve aquele ar de mulher frágil meio “patricinha”, mas conseguiu realmente se superar dando vida a personagem de Lisbeth tal qual é descrita no livro. O seu corpo pequeno e magro, a forma de se vestir, sua personalidade forte e ao mesmo tempo frágil, a vespa no pescoço, o cabelo estilo moicano a tornaram irreconhecível, que a fizeram merecer a indicação ao oscar de melhor atriz.

Daniel Craig para mim é a versão, digamos “real” de Mikael Blooknvist. A personalidade meio sarcástica de Craig combina exatamente com a de Mikael, dando assim uma similitude quase transcendental ao personagem. A semelhança é realmente de impressionar.

No papel de Henrik Vanger (mais velho) o veterano Christopher Plummer também não decepciona. Ele não conseguiu mostrar o ar de extremamente debilitado como no livro, mas nada que atrapalhe seu desempenho como um todo.

O desenrolar da trama é tão intensa quanto a do livro. Fincher, no primeiro momento coloca Mikael e Henrik em frente a mansão dos Vanger, onde o patriarca da família explica cada ponto da ilha de Hedestad, montando assim quase um mapa na mente de quem assiste. A todo tempo o diretor usa Flash Backs para mostrar os acontecimentos que culminaram no sumiço de Hariet, mais uma vez demonstrando a preocupação do mesmo em explicar cada detalhe assim como na obra de Larsson.

No texto anterior eu havia dito que Larsson não mediu palavras, não procurou poupar as pessoas e Fincher também não. O drama vivido por Lisbeth e seu tutor foi retratado mais uma vez de forma fiel e chocante. Quando Bjurman estupra Lisbeth na cama de seu apartamento é de te fazer levantar da cadeira e porque não fechar os olhos. É uma cena que poucos conseguem assistir tamanha a sua veracidade. Os hematomas no corpo de Lisbeth, após o ato, o sangue escorrendo já no banho são de arrepiar. Também não posso esquecer, é claro da cena em que Lisbeth se vinga, esta que também irá te chocar sem dúvida.

Stellan Skarsgard, foi o perfeito psicopata da família Vanger. No papel de Martin Vanger ele consegue demonstrar toda a frieza, genialidade de um Serial Killer. Quando ele prende Mikael e o tortura em seu porão é genial. O saco plástico na cabeça, a música clássica tocando, ele sentado com a câmera ligada se preparando para abrir tórax de Mikael mostrou a perfeita feição de uma mente perturbada ao estilo Hannibal Lecter.

Quando assisti ao filme no cinema, eu realmente estava chegando a conclusão que esta seria a primeira adaptação cinematográfica de uma obra literária que tivesse sido realmente boa. De fato ela é, mas com algumas ressalvas. Como eu disse o filme vem a todo tempo muito bom, muito fiel, mas infelizmente Fincher escorregou muito feio no desfecho da história, eu explicarei por que logo abaixo.

———-SPOILERS A SEGUIR———-

Na obra de Larsson, Harriet na verdade não morre. No dia do acidente com a ajuda de Anita Vanger, Harriet foge na porta malas do carro e depois de idas e vindas ela se casa com um fazendeiro e vai morar na Austrália. Portanto, existem uma Anita Vanger (residente na Inglaterra), que ainda mantinha contato com Harriet, esta que havia adotado o nome também de Anita já que os cartórios da Inglaterra não se comunicavam com os da Austrália. Contudo, no filme David Fincher simplesmente bagunçou tudo. Ele matou Anita e seu marido em um acidente de carro e Harriet simplesmente assumiu sua identidade. Então quando Mikael está transando com Lisbeth ele descobre tudo, volta a Inglaterra e Harriet (ou Anita) confessa tudo o que aconteceu, ou seja, uma salada sem mais tamanho que me fez falar bem alto na sala de cinema: “Você tinha que cagar no final, não é David Fincher?”.

Os que leram a obra de Larsson vão gostar, apesar de amaldiçoarem David Fincher pela cagada no final, mas assim como eu vão gostar de ver os seus personagens que até então estavam apenas em sua imaginação na tela do cinema. Para os que ainda não leram a obra recomendo a leitura antes de assistir ao filme, pois embora o filme explique detalhadamente toda a trama o livro te dá uma visão indiscutivelmente mais ampla da história.

Millennium: Os Homens que não amavam as mulheres (EUA, 2012)

Direção: David Fincher

Duração: 158 min

Nota: 7,5

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3 COMENTÁRIOS

  1. Gostei bastante da resenha, excelente, falou tudo e não escondeu nada… sou fã da série Millenium E de Fincher mas concordo que, MAIS UMA VEZ, ele cagou no final…

    Falei MAIS UMA VEZ ali em cima pois me lembrei que ele também mudou o final de Clube da Luta… WHYYYYY???

  2. Cara, finalmente vi na net alguem que concorde comigo sobre o sueco ser uma merda. Na boa, se as pessoas que leram o livro já ficaram incomodadas com a mudaça do final do filme do Ficher, nao consigo entender COMO ELAS CONSEGUEM GOSTAR DO FILME SUECO QUE SIMPLEMENTE MUDA A HISTORIA TODA, fala serio! E sem falar as pessimas atuaçoes. Até hoje nao vejo o porque de terem errado tanto o personagem como o Mikael

  3. “O saco plástico na cabeça, a música clássica tocando, ele sentado com a câmera ligada…” alguem aí sabe qual seria o nome dessa música que toca nessa hora?

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