Pela primeira vez depois de um bom tempo eu reparei no meu reflexo no espelho. Quer dizer, fazemos isso todos os dias. O ser humano é narcisista e não é segredo nenhum. Só que dessa vez eu não reparei se a roupa caía bem, se os sapatos combinavam com a camiseta ou se meu cabelo estava legal (tem dias que sim, mas não é muito frequente).

Eu reparei em mim.

Sabemos que os espelhos refletem o lado de fora porque nos delimitamos a essa visão superficial e vaidosa de nós mesmos, no entanto, é possível ver o que vai além do sangue, carne ou pedaços de roupa que valem mais do que deviam?

Se você prestar atenção sim, isso é possível.

Dizem que a verdade doi e, com o perdão do uso repetido da mesma palavra na frase, é verdade.

Eu reparei em mim depois de uma sucessão de eventos que não tiveram o efeito que seria o certo. As pessoas mudam e isso as vezes machuca. Eu tenho medo da solidão porque tenho medo do que ela possa me dizer. De uma vez. Com ponto final e tudo.

Isolada entre parágrafos como eu costumo fazer nos meus textos. Dizem que isso é efeito de narrativa, que é usado para impactar o leitor. Chocá-lo ou eventualmente levá-lo às lágrimas.

Dizem que pode ser usado para surpreender também.

Mas eu estou fugindo do assunto.

Devo admitir que, por mais que eu não esteja no meu melhor momento emocional, é bom voltar a escrever.

É uma das poucas coisas que tem me mantido em movimento. Não entenda mal. Os desejos suicidas já vieram me visitar e tomar um longo e demorado café. Uma vez quase terminei a garrafa, mas recuei o pó a tempo. No entanto, não significa que eu não tenha queimado os dedos ou sujado a pia.

Desculpe, estou fugindo do tema. A inspiração é uma coisa incompreensível pra muita gente. Espero que entenda e que perdoe minha ausência. Se você é novo por aqui te digo então minhas boas vindas. Oi, tudo bem? Sinto muito pela bagunça, não sabia que receberia visitas depois de tanto tempo. Espero que não se importe.

Ah, o espelho.

Eu sei que tem gente que vai achar bobagem ou que vai usar aquela famosa frase “Artistas são loucos, não dê ouvidos a eles. Vivem num mundo diferente do nosso.” Isso é verdade, porém, faça o experimento. Se olhe no espelho. Não repare, olhe. Esqueça o fato de o sapato não combinar com a camiseta (isso se você estiver vestido ou calçado) ou se o cabelo não está legal. Abra os olhos e repare em você.

Uma vez me disseram que eu sou uma pessoa, outras vezes rebateram dizendo que sou uma pessoa incrível. Procuro sempre manter a humildade e minha baixa auto estima e auto confiança ajudam bastante nesse caso. Mas é verdade.

Eu sou uma pessoa triste.

Sou escritora, isso fica implícito. Só que agora eu entendi, foi quando eu me olhei naquele espelho e comecei a analisar o reflexo. Minha barriga poderia diminuir mais, no entanto, esse é um pensamento ingrato visto que perdi bastante peso. Quer uma dica para emagrecer? Estresse emocional/físico/psicológico e pouca grana no bolso. É mais rápido e barato do que crack e pode realmente mexer com você.

Pode soar arrogante porém não tenho do que reclamar do meu rosto. Gosto dele. Ele é bonito. Puxei minha mãe é o que dizem.

Minhas mãos são legais mesmo com os calos e cicatrizes. Os uso com orgulho e você também deveria fazê-lo. Hannibal Lecter uma vez disse que as cicatrizes são as marcas de que o passado foi real e eu concordo com ele. Vista esses sinais e pense que o que quer que tenha os causado já passou ou morreu e você saiu vitorioso. Você foi o mais forte e sobreviveu ao que quer que tenha acontecido.

Use suas cicatrizes com orgulho. Você merece.

Eu tenho uma mutação que muitas pessoas invejam. Não tenho muita pigmentação nos olhos, mas gosto deles assim.

No entanto, eles são tristes.

Vai ver é por causa das olheiras.

Foi só depois de reparar na tão chamada “Janela da alma” que eu percebi o real significado dessa expressão. Eu me vi. Me vi e vi tudo o que aconteceu comigo. Vi tudo o que me deixou assim.

Cansada? Abatida? Exausta? É, são bons adjetivos. E mesmo com um sorriso complacente para mim mesma, eles ainda estão lá. Se prestar atenção dá pra ver.

E você consegue se ver também. Conviva com o medo repentino de descobrir quem é e abra os olhos. O espelho não vai te machucar. A única pessoa que pode fazer isso é você. E a sociedade também.

Parando para pensar, esse segundo fator ajuda muito. Principalmente no meu caso. Vai ver é melancolia de escritor ou observação de um artista maluco que só vive no mundo dele, paralelo à realidade, mas você já reparou em como as pessoas são tristes atualmente?

Tristes, cansadas, exauridas, abatidas, esgotadas? Acho que cada vez mais exigimos um comportamento robótico de nós mesmos e esquecemos que somos seres humanos. Bukowski comentou isso uma vez mas com palavras diferentes. A premissa é a mesma.

E a verdade disso também.

As vezes me pergunto qual seria a reação do mundo e da sociedade se postadas diante de um espelho. Me pergunto se trocariam os sapatos por não combinar com a camiseta ou se achariam que o cabelo delas está legal. Tento me convencer de que enxergaria além disso porém sei que é mentira. Se encarar diante de uma grande espelho consome tempo. E nesse breve momento de auto “admiração” alguém pode tomar o lugar delas ou poderiam ganhar mais dinheiro do que realmente precisam.

Ou poderiam continuar com suas respectivas autocracias de acelerar o crescimento dos jovens e abater de vez a infância e inocência com erotização precoce ou dispositivos eletrônicos que substituem pais que trabalham demais e não conseguem passar tempo com seus filhos.

Vai ver continuariam com a tortura de obrigar um jovem a definir sua profissão vitalícia quando na verdade deveria se preocupar com a prova de matemática uma vez que ele está na quinta série. Ou a obrigar mulheres e meninas de todas as idades a terem medo até da própria sombra uma vez que, se forem estupradas, a culpa é total e somente delas.

Posso até ter olhos tristes e mutantes mas gosto de pensar que eles enxergam tudo o que está acontecendo. As vezes acho que enxergam bem mais do que deveriam.

Vai ver o grande mal do mundo é a miopia.

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Jornalista. Fã de gore, terror e todas as bizarrices da internet. O pessoal daqui diz que eu sou um Shinigami.

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