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Mal sentiu os joelhos quando eles bateram no chão frio: o seu crânio estava inundado de fogo e sangue, a agonia era insuportável, mas precisou suportá-la, já que o desfalecimento só veio um minuto depois. Quando a luz azulada se aproximou piscando, Barry estava deitado numa poça do próprio vômito, imóvel e sem qualquer reação.

Vivia dizendo a Barry que ele era um homem de sorte. Mas, pelo visto, nem tanto…

Pouco a pouco, os fatos foram perdendo forma e foco; em outros casos acabaram distorcidos. Em alguns lugares, o próprio Barry desapareceu por trás da natureza do seu fim, tornando-se apenas uma erupção de vômito e urina, numa pilha contorcida de catástrofe.

Quando se é um escritor ou um escritor de cinema famoso você é apenas tão bom quanto o seu último trabalho. Não importa quem seja. Steven Spielberg comeu o pão que o Diabo amassou quando lançou Cavalo de Guerra. Clint Eastwood foi chamado de velho caduco por muitos após J. Edgar e Anne Rice e Ridley Scott não tem nem um quarto do prestígio que gozavam em seus auges artísticos. Portanto, mesmo vendendo milhões de exemplares em todo o mundo, ganhado diversos prêmios e honrarias, afora se tornar a primeira escritora a se tornar bilionária na história, J. K. Rowling se arriscou incrivelmente quando publicou seu último romance, Morte Súbita. Ciente de que a base gigantesca de leitores que formou ao longo dos sete livros e oito filmes da série Harry Potter agora já está, em sua grande maioria, com mais de vinte anos de idade, deixou a literatura infanto-juvenil de lado e fez sua primeira obra adulta. Mais que isso, destituiu qualquer traço de fantasia do enredo. Criou uma história densa e recheada de humor negro, onde teve pela primeira vez a oportunidade de lidar com temas como hipocrisia, doença mental, drogas, estupro, pedofilia, sexo na adolescência, entre vários outros. Felizmente, Rowling provou mais uma vez ser uma escritora acima da média dos autores contemporâneos, entregando aqui um universo moralmente complexo e instigante, embora não livre de falhas.

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A Morte é um dos maiores (quiçá o maior) temas da arte. Poucos conseguem ser tão universais e atingir tão fundo nosso senso de humanidade. Ao contrário do que o título nacional possa sugerir aos mais desavisados, Rowling está menos interessada em discorrer sobre o fim da vida do que em seus efeitos na sociedade, nas pessoas ao redor. Ou seja, as consequências da morte sobre a vida.

“À medida que a notícia foi se espalhando, ocorreu uma estranha transmutação. A assinatura de Barry, que estava nos documentos do escritório e e-mails que enchiam a caixa de entrada da imensa quantidade de gente que ele conhecia, assumiu o caráter patético da trilha de migalhas de pão deixadas por um menino perdido na floresta. Aqueles rabiscos apressados, os pixels combinados por dedos que, de agora em diante, nunca mais voltariam a se mexer, adquiriam o aspecto macabro de cascas ocas.

Barry Fairbrother é um homem saudável e relativamente jovem e o cidadão mais respeitado do vilarejo inglês fictício de Pagford. No dia do seu aniversário de casamento, simplesmente cai morto no chão, vítima de um aneurisma. Essa morte súbita, aterradora, abala a vida de todos e de cada um, sem distinção de cor, sexo, idade ou posição social. O livro é como um grande e cada vez mais frágil jogo de dominó, onde cada personagm é uma peça posicionada em frente à outra. E Barry era justamente a primeira. A que jamais poderia cair. E que Rowling faz questão de derrubar quase imediatamente. Barry, o protagonista ausente, o condutor da história simplesmente por sair dela.

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Pagford é bem mais que apenas a ambientação da história. É um verdadeiro organismo vivo, com geografia e história próprias, heróis locais e figuras ilustres. Aos poucos, nos familiarizamos com seu ambiente, conhecemos suas lojas, esquinas, praças. Somos mergulhados tão fundo em seu cotidiano que em pouco tempo sentimos como se fôssemos seus moradores, com a vantagem de saber dos acontecimentos sempre em primeira mão. Além disso, Pagford é um daqueles raros e gratificantes casos em que quanto mais local é uma história mais universal ela se torna. Ela poderia ser qualquer lugar. Qualquer bairro, vilarejo ou pequena cidade do mundo, envolta em conflitos reconhecíveis em nosso dia-a-dia.

Os moradores do vilarejo, os personagens que integram o livro, poderiam perfeitamente ser vizinhos, amigos ou mesmo um de nós. Entre as dezenas que circulam pela história cada um é único e marcante. É impossível não se identificar com pelo menos um deles, por seus dilemas, defeitos e virtudes. Principalmente porque em Morte Súbita todas as barreiras de classificação de protagonista e coadjuvante foram demolidas. Todos eles tem atenção especial, permitindo que se conheça a fundo o íntimo, os pensamentos e sentimentos mais secretos de todos.

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Tessa sabia que Krystal estava muito mais familiarizada com mortes súbitas do que ela própria. Os seus parentes por parte de mãe morriam assim com tanta freqüência que parecia até que estavam envolvidos numa guerra que o resto do mundo ignorava por completo.

O maior erro de noventa por cento das pessoas é ter vergonha de serem quem são, é mentir a esse respeito, fingindo ser alguém diferente. A honestidade era a sua maior marca, a sua arma, a sua defesa. Quando somos honestos, as pessoas se assustam, chocadas.

Há momentos em que Rowling parece que vai conseguir repetir o feito que Machado de Assis era capaz de fazer com maestria em seus livros mais maduros, como Dom Casmurro e Quincas Borba: expurgar todo e qualquer traço de maniqueísmo, criando personagens repletos de camadas cinzentas, como qualquer ser humano. Ele dava a oportunidade para que o próprio leitor os julgasse como bem quisesse, conforme exigisse sua consciência. Rowling, em alguns casos, efetivamente consegue, como com Simon Price, que não se faz de rogado na hora de comprar mercadorias roubadas e fazer servicinhos sujos na gráfica em que trabalha como forma de tentar sustentar sua família com um pouco mais de dignidade. Já em outros, ela jamais consegue esconder de qual lado está como autora. É como se ela “manipulasse o jogo”, avisando ao inconsciente do leitor qual personagem ele não deve simpatizar. Para isso, ela não hesita nem mesmo em dar a eles características físicas pouco generosas, pra não dizer praticamente grotescas, como mãos tão magras que mais parecem garras ou uma barriga tão avantajada que mal permite que seu dono respire. E até mesmo defeitos imperdoáveis, como preconceito racial e religioso ou uma incipiente pedofilia. Desta forma, uma figura como Howard Mollison é um vilão tão óbvio quanto o próprio Voldemort. Chega a ser triste ver criações fascinantemente ambíguas como Krystal Weedon acabarem ofuscadas por outros em que a autora não conseguiu impedir que sua posição falasse mais alto.

É nos diálogos que Rowling demonstra onde talvez more seu maior talento. Em muitos livros sempre fico com a péssima sensação que todos os personagens falam da mesma forma. Aqui, muito pelo contrário, os diálogos são extensões dos próprios personagens, traduzindo quem são e de onde vieram. Por mais insignificante que pareça a conversa, ela diz tanto quanto a própria narração.

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Lembro da comoção gerada por um único Bitch de Harry Potter, presente no último volume da série, As Relíquias da Morte. Esse tipo de movimentação exagerada por uma coisa tão boba sempre me deixa meio exasperado, me perguntando se essas pessoas não sabem que termos de baixo calão já fazem parte do vocabulário da maioria das crianças e jovens que liam Harry Potter. (Pelo menos de minha parte, se me lembro bem, já contava com um excelente repertório pra insultar meus amigos aos dez ou onze anos de idade). Graças a liberdade de escrever para o público adulto, Rowling inclui em Morte Súbita todos os palavrões que teve de deixar de fora da sua famosa saga.

– Onde enfio esse fio aqui?

Enfia no cu, seu desgraçado.

Na sua opinião, as sepulturas eram apenas marcos para onde o cadáver estava se decompondo. Era uma idéia repulsiva, e, no entanto, as pessoas achavam que deviam ir visitá-las, levando flores, como se o morto pudesse se recuperar.

Graças ao curtíssimo tempo de lançamento e a história atual, Morte Súbita tem como grande qualidade a sua contemporaneidade. Seus personagens conversam sobre a crise econômica, checam as fotos dos amigos no Facebook, procuram pornografia na internet. Tudo isso aumenta ainda mais a sensação latente de proximidade que temos com aquelas pessoas e a sensação de realidade tangível do seu universo. E é justamente essa proximidade e a natureza rica da maioria dos personagens que fazem o livro impossível de ser reduzido a um único gênero ou tema. O livro é um miríade de emoções que se sucedem a cada capítulo, cada página, cada linha.

Morte Súbita é a prova da versatilidade e da coragem de não se prender somente ao tipo de obra que consagrou a carreira de Rowling. Se ela conseguir manter essa ousadia, esse forte desejo de surpreender, e se desenvolver ainda mais como escritora, vai ser difícil segurar a ansiedade pelos próximos livros.

0 Autor: J. K. Rowling

  Editora: Nova Fronteira

  Páginas: 501

  Nota: 7,5

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Atrapalhado, paranóico, assíduo falante, leitor e cinéfilo voraz, teve desde muito novo os livros e os filmes como grandes companheiros da sua vida. Graças a eles desbravou novos mundos e universos, venceu batalhas e guerras e conheceu pessoas e povos de diferentes tempos. Tem como seus maiores ídolos Louis Ferdinand Céline, Machado de Assis, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Um dia pretende concluir seu próprio livro. Enquanto isso não acontece, escreve críticas literárias na Mob Ground. @MuriloAndrade Facebook

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