Em 1972, o autor Ira Levin publicou o romance The Stepford Wives (As Esposas de Stepford, em tradução livre), que logo se tornou um pequeno clássico da literatura de terror psicológico. Anos antes, em 1967, ele já havia escrito o clássico absoluto O Bebê de Rosemary, que foi imortalizado no cinema no filme homônimo de 1968, dirigido por Roman Polanski e protagonizado por Mia Farrow. Aqui no Brasil, o livro chegou ainda na década de 1970 pela editora Record, mas com o terrível nome de As Possuídas, contando ainda com uma capa que mais parecia de filme pornô. Já em 2004, ganhou uma republicação com o título Mulheres Perfeitas, pegando carona na nova adaptação em filme que saía. Na história, Joanna Eberhart deixa o barulho de Nova York e se muda com seu marido e filhos pra Stepford, um lugar mais suburbano. Fotógrafa amadora, começa a montar uma sala escura na nova casa, tenta fazer amizade com os outros vizinhos, conhecer a cidade, sua biblioteca e lojas, enquanto o marido Walter se une à Associação Masculina, um grupo que reúne todos os homens importantes de Stepford, não permitindo a entrada de mulheres.

As capas da primeira publicação no Brasil, com o nome As Possuídas. E da última republicação, já como Mulheres Perfeitas.

Apesar de aparentemente tranquila, sem violência ou crimes, há algo estranho acontecendo no lugar, algo que Joanna acha não estar certo. Ela percebe que todas as donas de casa são extremamente submissas aos maridos e viciadas em trabalhos domésticos, limpando a casa, passando roupa, fazendo comida o dia inteiro, não tendo tempo pra nada. Mas não de um jeito forçado, elas realmente parecem felizes com o estilo de vida que seguem, como é dito num trecho do livro: “Era isso que todas elas eram, todas as esposas de Stepford: atrizes de anúncios, felizes com detergentes, ceras, sabões, xampus e desodorantes. Atrizes belas, de busto grande e talento pequeno, desempenhando o papel de donas-de-casa burguesas de uma forma pouco convincente, boa demais pra ser real“. Porque, além das tarefas, todas são estranhamente belas, perfeitas: sempre maquiadas, cabelo no ponto, cinturas finas, seios fartos. É bem clara a crítica que Ira Levin faz às questões de gênero, principalmente ao machismo, sem contar que estamos no começo dos anos 1970, onde o feminismo já se estabilizava como movimento político e as mulheres ganhavam mais espaço na sociedade.

Ao leitor de hoje, que desconhece a realidade desses movimentos há 50 anos ou as “rainhas do lar”, Mulheres Perfeitas pode soar um tanto antiquado e caricato, mas a crítica que Ira Levin fez aos hábitos norte-americanos está lá, colocando o famoso american way of life em papel de ridículo. Tá, Fil… mas e o terror? Sim, Mulheres Perfeitas ainda é um romance de suspense, de terror psicológico. Joanna faz duas amizades, Bobbie e Charmaine, duas mulheres como ela: normais. Bobbie, que se mudou um mês antes e mantém uma casa bagunçada; e Charmaine, há dois meses, que tem empregada doméstica e gosta de jogar tênis. Elas também estranham as demais esposas da cidade, acham ridículas. Mas Joanna passa a suspeitar das coisas quando Charmaine dá sinais de que também está virando uma “esposa de Stepford” ao fazer quatro meses de mudança. Será que Bobbie e Joanna seriam as próximas?

Cena em que Joanna e Bobbie veem uma das esposas agindo um pouco… estranho, no filme de 1975.

A escrita de Ira Levin é bem simples e ágil, deixando a leitura de suas quase 150 páginas bem rápida. Também não há muita enrolação: tem parágrafos que resumem toda uma semana; não havendo muitos floreios e focando no que interessa, que é o suspense. E nisso, todos os elementos clássicos estão presentes: os vultos na janela, as pessoas com comportamento estranho, a sensação de que todo mundo sabe o que está acontecendo, menos a protagonista, e por aí vai. A situação fica pior quando Joanna descobre que, anos antes, havia uma Associação Feminina, com 50 membros. Ela não consegue acreditar que um grupo desse tamanho tenha deixado de existir assim tão rápido. Dando um ponta-pé inicial no grande mistério: o que terá acontecido à elas? Lavagem cerebral? Hipnose? Robôs? E qual a relação dos homens da Associação Masculina nessa história? Bobbie, por exemplo, acredita que é algo na água da cidade que deixa as pessoas assim.

Capas do primeiro filme (1975) e do segundo (2004).

Claro que há um clima caricato, de comercial de margarina, mas o autor mostra como consegue prender a atenção do leitor, principalmente, nas sequências finais, quando a paranoia de Joanna aumenta e ganha seu auge numa cena em que interage com Bobbie, simplesmente excelente. Já o final, propriamente dito, tem seus prós e contras, pois deixa muito na mão do leitor interpretar o mistério das esposas. Ao contrário da primeira adaptação para o cinema, de 1975, dirigida por Bryan Forbes e protagonizada por Katherine Ross, que ganhou a tradução Esposas em Conflito aqui no Brasil (o que acontece com esses títulos?), uma adaptação bastante fiel ao livro, conseguindo manter o suspense proposto, mas sem deixar o tom mais caricato de lado. Apesar do filme possuir uns cortes estranhos e ter ignorado alguns fatos, como a personagem Ruthane, a mulher da única família negra da cidade, que se mudou a pouco tempo, ele tem suas qualidades, como mergulhar na relação da Joanna com essa situação, tornando-a bem mais investigativa e ativa, fazendo coisas que não se tem no livro, como chegar até a Associação Masculina e, de fato, desvendar o que acontece por ali. Um ótimo final, diga-se, retomando a coisa de Casa de Bonecas.

E, claro, teve a adaptação de 2004, dirigida por Frank Oz e que ganhou a tradução Mulheres Perfeitas, com a republicação do livro usando o mesmo nome. Ainda não entendi a dificuldade de manter As Esposas de Stepford, até porque esse título ficou tão famoso nos EUA que virou até gíria, com as pessoas utilizando o termo pra designar as mulheres mais submissas ao marido e rotina doméstica, quase como o nosso Amélia. Essa última adaptação, apesar do elenco de ponta com Nicole Kidman, Glenn Close, Bette Midler e Christopher Walker, teve a péssima ideia de levar a história pro humor, sendo extremamente estereotipado, trash e, pior, mudando algo que é essencial no livro: a crítica ao machismo. Nesse filme, apesar da ideia de mulheres artificiais se manter, a origem do mal é diferente e o final não tem nada a ver com o livro. Ou seja, mesmo se você já assistiu a ele, pode ler o livro sem medo, porque é outra coisa. Mas ao contrário do de 1975, a Ruthane surge como outro personagem: um casal gay que se muda pra Stepford; mantendo a ideia de uma nova família fora dos padrões hétero-branco-normativo do lugar.

Cena em que Joanna se reúne com as demais esposas, no filme de 2004.

Ira Levin constrói toda uma cidade fictícia e vai dando pistas, como ter muitas industrias tecnológicas no lugar, o chefe da Associação Masculina ter sido um animador de bonecos da Disney, o desenhista Ike Mazzard criando retratos fieis das mulheres, um homem gago que faz pesquisa ao gravar as esposas soletrando palavras e por aí vai. E mesmo naquela época, exatos 45 anos atrás, quando foi publicado em 1972, Ira já tinha sua visão de white people problems, como nesse diálogo de Johanne com Ruthane: “Ruthane jamais ouvira falar dele [Ike Mazzard], o que fez com que Joanna se sentisse muito velha. Ou muito branca.“.

Mulheres Perfeitas, tanto o livro quanto a primeira adaptação pro cinema, abordam temas importantíssimos como a misoginia, o racismo, machismo, liberdade sexual e independência da mulher, que não tem necessariamente um final feliz ou politicamente correto, mas que levanta questões pro leitor pensar. Seu formato pode não ter envelhecido bem, mas os temas continuam atuais. Numa época em que a mulher lutava pela liberdade, mostrar um grupo de homens que pode estar por detrás de tudo isso, acaba sendo bem forte. Porém tem alguns problemas de percurso. Se você assistiu a versão de 2004, onde temos uma empresária e tudo é muito rosa e branco, sua leitura pode ficar um pouco estragada (a minha foi), porque a gente acaba associando uma coisa à outra. Um outro ponto é a introdução da edição de 2004, pela editora Bertrand Brasil, que entrega muito da história. Se você pegar essa edição, recomendo pular a introdução e só ler quando terminar, porque tem spoilers pesados lá, que atrapalham a leitura. Aliás, até mesmo o trailer dos filmes tem spoilers, perdendo um pouco da graça da descoberta. Aos fãs do Bebê de Rosemary, há muitas semelhanças entre os dois títulos, como o suspense no cotidiano, os vizinhos e marido que sabem mais do que mostram, além do final arrebatador. O Bebê é mais impactante, porém Mulheres Perfeitas possui o seu charme. No mais, uma ótima sugestão pra esse fim de ano!

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