My-Chemical-Romance

They said “All teenagers scare the living shit out of me,
They could care less
As long as someone’ll bleed!”
So darken your clothes,
Or strike a violent pose,
Maybe they’ll leave you alone, but not me.

Meados de 2005, eu estava na oitava série e uma das meninas bonitas da minha sala ia fazer 15 anos. Ela me chamou pra dançar em sua festa. Para minha infelicidade, eu ia ser um dos que seguram as velas e veste roupas idiotas. Eu não sabia dançar valsa. Não tinha terno, não tinha sapato.

Durante os preparativos, ela pediu pra todos os amiguinhos falarem suas músicas preferidas para serem tocadas na festa. Enquanto uns citavam Exaltasamba, outros Edu Ribeiro e Falamansa, eu pedi Lost In Hollywood do System of a Down.

É claro que não tocou. No dia, ganhamos cds com nossas músicas “preferidas” gravadas e a dedicada a mim era Shut Up, do Simple Plan.

Não sei se foi uma indireta (pensando agora, parece que sim), até porque ela nem entendia de inglês pra me mandar uma dessa.

O fato é que a minha vida estava bem precária se tratando de música. Claro, SOAD sempre foi muito bom. Suas letras politizadas e recheadas de ironia e sarcasmo agradavam até os roqueiros mais conservadores, mas eu tinha 14 anos e não me sentia bem. Foi aí que eu parei na frente da TV em uma tarde fria e paguei um pau pro clipe que ganhou o Disk MTV naquele dia. Um cara de olho pintado de vermelho gritava a plenos pulmões a falta que ele sentia de uma mulher muito importante em sua vida. O clipe se passava dentro de uma igreja, durante um funeral no qual, no momento em que todos faziam uma oração, uma moça muito pálida e bonita dançava balé no altar e abençoava os cabisbaixos.

E que coreografia de guarda-chuvas era aquela? Que expressão! Que fotografia! Que cores!

Combinavam perfeitamente com o drama dos acordes e da letra.

Claro que não pensei em nada disso com 14 anos, mas alguma coisa ali me deixou boquiaberto com o pão com manteiga e o café com leite na mão, na frente da tv.

Foi assim que conheci a banda que mudou minha vida, o My Chemical Romance.

Eu não tinha internet banda larga, então esperava esse clipe passar na tv para poder vê-lo, todo dia. Meu irmão foi mais longe: entrou na internet pelo provedor grátis na madrugada e deixou o vídeo de I’m Not Okay, segundo single da banda, carregando a noite inteira.

Este falava da galera que era espirrada dos grupinhos escolares,que se sentia excluído, rejeitado, confuso, perdido, errado, enfim, a escória da sociedade em ascensão, o que mais tarde veio a ser classificado (assim, como se fosse uma doença) de emos.

Eu fazia parte disso. Não adiantava negar. Agora eu tinha uma banda que falava tudo que eu queria falar para todos os que não me compreendiam. Assim, foi natural que eu começasse a me vestir como meus ídolos. Repito, eu tinha 14 anos, e achava que as minhas roupas definiam meu caráter. Mas, assim, usando preto e pintando os olhos, eu era emo? Demorou pouco tempo até que virasse uma febre e a mulecada que fica na sombra dos que se destacam querer se assumir diante de um novo disfarce. Todos eles se denominaram Emos, como a sociedade determinou, e se afirmaram como covardes, como chorões.

Pronto, conseguiram criar o protagonista e o antagonista, que invertem de papel à medida em que necessitam. Mas e eu?

Me mantive firme e não me abati. Ainda fazia parte da minoria que não se encaixava em padrões pré-estabelecidos. Nunca me cortei, nunca tentei o suicídio – como a menina que se jogou do vão da galeria do rock porque os pais não a deixaram ir no show do Linkin Park – e nunca deixei que me rebaixassem. E por que eu fiz isso? Por que eu mantive minha cabeça erguida? Porque havia uma banda que olhava por mim, lá do topo da sua fama, da longínqua terra de New Jersey. Eles nem sabiam, mas estavam me fazendo um bem danado.

Anos mais tarde, eles lançaram o The Black Parade. Um álbum inteiro falando sobre morte. Eu nunca tinha perdido nenhum ente querido, e não estava preparado psicologicamente para isso, mas mesmo assim, eles se superaram novamente com um clipe super produzido, em seu estilo dramático.

O My Chemical Romance ganhou um grande público no Brasil, já que aqui tudo que sai no Fantástico vira febre. Então, miguxês e emuxices à parte, eles anunciaram uma turnê por aqui.

Eu já estava trabalhando e pude comprar meu ingresso sem ajuda dos meus pais. Fiquei muito feliz de ter a oportunidade de vê-los de perto. Estava ansiosíssimo.

Porém, a vida real tem suas reviravoltas e não é diferente pra mim. Um dia antes do show, num domingo chuvoso, meu melhor amigo morreu. Kiko era o protetor da família e eu o ganhei com um ano de idade. O vira-lata se foi e deixou uma ferida enorme, e aí eu entendi como é perder um ente querido.

Fui para o show no dia seguinte sem ânimo nenhum, mas esperançoso de que minha banda preferida ia me trazer algum conforto. E eu estava certo. Cheguei no Via Funchal ainda cedo e consegui pegar um bom lugar na pista. Estava a alguns metros do palco, e cercado de menininhas histéricas.

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Quando os bonitões apareceram, a gritaria ecoou pelas paredes acusticamente isoladas da casa. Meu coração bateu bem forte. Lembrei de tudo que aqueles cinco caras tinham feito sem querer, através de suas músicas, em minha vida. Apesar de nem me conhecerem, eu sentia que eles eram meus amigos. E era assim que eu lembrava de Kiko, meu leal parceiro.

Quando eles tocaram Desert Songnão me contive. “Then we all fall down, well after all”. Naquele show, descarreguei todas as minhas energias, chorei pra caralho lembrando do meu amigo, mas enfim, deixei tudo lá. Enquanto as menininhas choravam de excitação com pôsteres da Atrevida do Gerard Way, eu lavava a alma.

Esse show é uma das melhores lembranças que eu tenho, e é graças a ele que eu tatuei o símbolo do My Chemical Romance na minha perna. É como se a banda fosse um dos pilares que me sustentam.

Hoje, com 21 anos e caráter formado, olho pra trás e vejo 7 anos bem vividos. Foram dificuldades que me ajudaram a caminhar pra frente, sempre evoluindo. Aprendi com uma garota muito importante que os septênios são etapas que nossa mente passa pra evoluir.

Então, dos 14 aos 21 anos uma banda com a minha cara segurou a minha mão e me incentivou a continuar e, se fosse preciso, me vestir de super herói e enfrentar os perigos que me cercam, em prol de um bem maior para mim e para quem eu amo.

Ainda que seja tarde, deixo aqui minha homenagem e minha gratidão ao My Chemical Romance, banda que mudou minha vida para sempre e que sempre vai estar viva aqui dentro.

Because MCR is not a band, is an idea”. (Gerard Way)

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1 COMENTÁRIO

  1. Linda mensagem, você descreveu o que eu senti quando conheci o My Chemical Romance, eles me fizeram ver que a minha característica(eu sempre fui a estranha, a diferente) não era uma coisa ruim e sim a melhor coisa que eu poderia ser e assim como eles mudaram sua vida e te deram forças, também mudaram a minha como também me fortaleceram!
    Vou terminar o comentário com a mesma frase que você colocou, porque ele significa muito para mim
    ” Because MCR is not a band, is an idea”. (Gerard Way)

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