O grande atrativo das histórias envolvendo os Mythos de Cthulhu, criados pelo escritor H.P. Lovecraft, sempre foi o medo do desconhecido. Sugerir a maioria das coisas em vez de simplesmente mostra-las, deixando por conta da fértil mente humana o trabalho de completar todo o resto do horror. É claro que, ao adaptar os Mythos para outras mídias além dos contos, é necessário mostrar certas coisas. Não dá para ficar uma história em quadrinhos inteira apenas sugerindo o que está acontecendo, até porque o leitor vai querer ver algo. O ideal é encontrar um meio termo, algo que Alan Moore consegue fazer na primeira história do encadernado Neonomicon. Infelizmente, na segunda história ele perde um pouco a mão e mostra coisas até demais.

O encadernado abre com a história em duas partes O Pátio, que mostra o agente do FBI Aldo Sax investigando uma série de assassinatos idênticos. O problema é que os assassinos são pessoas diferentes e nunca tiveram contato uns com os outros. Utilizando uma técnica própria de investigação, chamada de Teoria da Anomalia, o agente consegue achar fatos em comum entre os assassinos e começa a entrar em contato com antigos segredos. A atmosfera dessa primeira história é tensa, começando com duas páginas que mostram o agente Sax apenas contemplando o vazio e não fazemos a mínima ideia do que se passa na cabeça dele.

Conforme a investigação avança, é impossível não ficar preocupado com Sax, uma vez que, devido à linguagem utilizada por alguns personagens, o leitor já começa a perceber que as coisas não vão acabar bem para o agente. A arte de Jacen Burrows é excelente em mostrar o nível de decadência no qual se passa história. São cenários que vão desde quartos bagunçados e banheiros imundos até casas noturnas onde as drogas rolam soltas. Sempre seguindo o padrão de dois quadros verticais por página, o cara dá um show quando precisa desenhar os Mythos. Ele o faz em belíssimas ilustrações de página dupla, que quebram a estrutura narrativa que vinha sendo utilizada até então. O final de O Pátio é interessante e segue bem o padrão das histórias de Lovecraft.

A segunda história é dividida em quatro partes e é ela que dá nome ao encadernado, Neonomicon. Ela se passa alguns anos depois de O Pátio e mostra os agentes Gordon Lamper e Merril Brears investigando uma nova série de assassinatos que podem possuir ligação com o caso investigado por Aldo Sax. Infelizmente, o clima de investigação não dura muito tempo na história, sendo logo substituído pelo gore e pelo soft porn. O sexo, aliás, toma conta de praticamente toda a história, a começar pela agente Brears que era uma viciada em sexo. Quando uma seita de adoradores dos Mythos aparece na história então, são várias cenas de sexo grupal, mortes, estupros e sexo com seres inimagináveis.

O pior é que isso não parece afetar tanto os personagens envolvidos. Se nas histórias de Lovecraft a simples menção aos Mythos podia fazer alguém enlouquecer, em Neonomicon isso está bem longe de acontecer. Sem dar (muitos) spoilers, uma das pessoas estupradas por uma criatura reptiliana passa a achar tudo aquilo normal em certo momento. Ela chega ao cúmulo de conversar com a criatura, além de oferecer comida e uma punheta para o monstro em troca de que ele não a estupre mais. Numa situação dessas, quem é que conseguiria manter esse tipo de raciocínio lógico? E quando o bicho dá uma gozada, o diálogo que se segue é tão patético que eu só consegui rir: “Uau, é inacreditável, como consegue fazer isso tantas vezes?”.

O mais interessante de Neonomicon acaba sendo a ideia de que H.P. Lovecraft realmente entrou em contato com os Mythos durante sua vida e deixou pistas sobre eles, através das suas histórias. Além disso, é divertido ficar tentando achar todas as referências que Alan Moore espalha por toda a história, como nomes de personagens, lugares e contos escritos por Lovecraft. O final também é bacana e traz uma visão interessante sobre a origem e o futuro dos Mythos, mas fora isso é apenas uma história repleta de palavrões, sexo e degradação humana. Sinceramente, eu esperava bem mais do cara que escreveu Watchmen, V de Vingança e Liga Extraordinária.

Neonomicon (Panini Comics, 2012)

Autor: Alan Moore

Artista: Jacen Burrows

Páginas: 170

Nota: 7

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

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