O horror! O horror!

Em um país como o Brasil onde o hábito de leitura é tão pouco cultivado e a literatura nacional (uma das minhas favoritas, junto da inglesa e da russa) é relegada a segundo plano não é incomum que muitos escritores e obras essenciais passem batido por aqui. A situação só melhorou um pouco graças a coleções como a L&PM Pocket, que trazem obras clássicas ou esgotadas no mercado nacional em econômicas edições de bolso. Dentre tantos escritores talvez nenhum outro seja tão injustamente pouco conhecido pelos brasileiros quanto Joseph Conrad. Polonês naturalizado britânico, depois de viver por anos no mar, escreveu todas as suas obras em inglês, língua que era apenas a sua terceira em fluência. Mesmo com essa dificuldade colossal Conrad se tornou um dos maiores escritores de todos os tempos.

A importância de Joseph Conrad é grande. Em 1907 ele já antecipava os populares romances de espionagem e abriu caminho para uma série de escritores reconhecidos hoje. Alguns deles foram George Orwell e Graham Greene, pessoas que levariam os temas de seu trabalho por caminhos mais amplos, universais.

Um de seus livros mais famosos é O Coração das Trevas, publicado em série no Blackword’s Magazine entre fevereiro e abril de 1899. Tal livro se tornaria um dos romances mais importantes do século XX. Tudo começou quando Joseph Conrad ainda era um marinheiro. Em uma viagem ao Congo, na África, arruinou sua saúde, causando seu desligamento definitivo da Marinha. Mas a ida àquelas terras pouco conhecidas pelo homem europeu marcou para sempre sua vida. Foi a partir daí que decidiu que seria escritor. Somente dez anos depois surgiu The Heart of Darkness, parcialmente inspirado nessa viagem.

Não gosto de trabalho- nenhum homem gosta- mas gosto do que há no trabalho- a oportunidade de descobrir-nos a nós mesmos. Nossa própria realidade- para nós, não para os outros- o que nenhum outro homem pode saber. Os outros podem apenas ver o espetáculo, mas nunca vão saber o que realmente significa.

Um grupo de homens segue viagem no mar, como informa o Narrador. Em um momento de ociosidade geral, Marlow, o mais diferente de todos eles, se põe a contar a história que, segundo ele, embora seja sombria, alargou sua mente e sua maneira de pensar. Sobre si mesmo, sobre o mundo, sobre tudo. A princípio isso pode soar esquisito. Se é Marlow quem vai contar a história porque Conrad não o pôs logo como narrador? A verdade é que a narração em primeira pessoa tem lá as suas deficiências. E se soube aqui superá-las como poucos conseguiram. Nunca sabemos como é, de fato, o protagonista porque ele é movido por emoções, como a vaidade. Por mais sincero que seja. Somente alguém de fora, que o conheça extremamente bem, pode fazer um fiel retrato dele. Assim que esse retrato é feito, Marlow finalmente ocupa o cargo de contador da história e o narrador original, junto do restante da tripulação, se torna a platéia. Nenhum membro desse grupo tem seu nome revelado. Primeiro porque não importa para o andamento do romance, e depois porque eles representam cada um de nós, os leitores. Sempre que Marlow conversa, faz perguntas, ou mesmo quando diz que não quer aborrecer ninguém com o que vai contar, o faz direto para nós. Nós, seus companheiros de viagem, os ouvintes da história. Meros indivíduos que podem apenas tentar mesurar a importância do que é revelado.

É estranho como as mulheres não têm contato com a verdade. Vivem num mundo próprio, e jamais houve coisa alguma como esse mundo, e jamais poderá haver. E, no todo, bonito demais, e se elas fossem criá-lo ele se faria em pedaços antes do primeiro alvorecer. Surgiria algum maldito fato com o qual os homens têm vivido satisfeitos desde o dia da criação e derrubaria a coisa toda.

À serviço de uma Companhia de Exploração Marlow segue uma longa viagem em direção ao Congo como chefe de um vapor. Nesta viagem, no coração do continente africano, ele estava destinado a encontrar o lendário Kurtz. Só lhe era dito que era um homem extremamente admirável e que futuramente deveria ocupar o cargo de chefe da empresa. Tudo isso graças à gigantesca qualidade do seu trabalho e da sua grandeza como pessoa. As conseqüências deste encontro, premeditado desde o início da narrativa, jamais seriam esquecidas.

Tudo gira em torno desse acontecimento. Mas ele não acontece rápido e nem é da forma como os leitores julgam a princípio. Há todo um percurso até chegar até ele, de elaborações de personagens complexos e ambíguos, e a apresentação de cenário. O próprio Kurtz não está nem próximo do que se imaginaria a princípio. Aí está o talento de Joseph Conrad. De uma história aparentemente simples ele consegue gerar suspense e brotar em você a curiosidade.

Atingira-me até o último fio de cabelo a idéia de que perdera o inestimável privilégio de ouvir o talentoso Kurtz. Evidentemente, estava enganado, O privilégio esperava-me, Oh, sim, ouvi mais que o suficiente,, E também estava certo. Uma voz. Ele era um pouco mais que uma voz.

A Companhia para o qual Marlow trabalha é uma das especializadas em explorar as riquezas da África e tornar seus habitantes em escravos co, a desculpa de trazer o progresso para aquelas terras pré-históricas. Os negros eram maltratados, massacrados, vistos como seres inferiores, incapazes de se desenvolver por si só e que precisavam ser treinados como cãezinhos para conseguir realizar uma tarefa direito. Não havia definição para eles a não ser selvagens, criminosos, rebeldes, inúteis e inimigos. O Coração das Trevas demonstra como o colonialismo na África, tema tão caro a Joseph Conrad, não passava de uma pilhagem generalizada, com o único intuito de lucrar. Isso não era nem um pouco novo. O mesmo já havia sido feito na América. Mas na África todos os limites foram ultrapassados. A “missão civilizadora”, como era chamada, deixou uma herança de fome, destruição, miséria, divisões tribais e estagnação econômica entre os povos africanos, que até hoje sofrem as conseqüências da dominação.

Um leve clangor às minhas costas fez-me virar a cabeça. Seis negros adiantavam-se em fila, mourejando  na trilha. Caminhavam eretos e devagar, as cabeças cobertas de terra, e o clangor acompanhava suas  passadas. Traziam trapos negros em torno das virilhas, e as curtas pontas atrás balançavam de um lado  para o outro, como caudas. Eu via cada costela, as juntas dos membros pareciam nós numa corda, cada  um tinha uma argola de ferro em torno do pescoço, e todos estavam ligados por uma corrente cujos elos  balançavam entre eles, naquele ritmado clangor. Aqueles homens, por mais que se forçasse a imaginação,  não podiam ser chamados de inimigos. Chamavam-nos de criminosos, e a lei ofendida, como as granadas  que explodiam, caíram sobre eles como um mistério insolúvel, que vinha do mar. Todos aqueles magros  peitos arquejavam juntos, as narinas violentamente dilatadas, os olhos miravam pétreos morro acima.  Passaram a um palmo de mim sem um olhar, com aquela completa e mortal indiferença dos selvagens  infelizes.

A forma como Conrad descreve os ambientes por onde Marlow é fantástica. As florestas, o rio, cada árvore, galho ou folha por qual passam parece ter vontade própria. Parecem se voltar para ele, chamar sua atenção, desafiá-lo, esconder segredos desta e de outras eras, de tempos imemoriais. Preservam os mais primitivos passos da humanidade sobre a Terra e conhecimentos que ficam apenas ocultos em nossas mentes de homens modernos e céticos. Escondem o coração das trevas. Vivo. Pulsante. Selvagem e belo, como o ser humano em sua essência.

A água que se alargava fluía através de um enxame de ilhas cobertas de mato, perdia-se naquele rio, como se perderia num deserto, e durante todo o dia batíamos contra baixio, tentando encontrar o canal, até julgarmo-nos enfeitiçados e isolados de tudo que conhecêramos outrora- em alguma parte- distante- numa outra distância, talvez. Havia momentos em que nosso passado nos voltava, como acontece às vezes quando se tem um instante de folga para si mesmo, mas vinha sob a forma de um sonho agitado e ruidoso, lembrado com a admiração em meio às esmagadoras realidades daquele estranho mundo de plantas, e água, e silêncio. E aquela quietude de vida não se assemelhava nem um pouco à paz. Era a quietude de uma força inexplicável meditando sobre uma ação inescrutável. Olhava-nos com um ar vingativo.

Coisa esquisita é a vida – esse misterioso arranjo de lógica cruel para um objetivo fútil.

Já as descrições dos personagens, fora a de Kurtz, não são tão elaboradas. Cada personagem fala melhor por suas ações e palavras do o que Marlow nos conta sobre eles. Muitas vezes ele mal se dá ao trabalho de dizer os nomes deles. E quanto menor a posição social, menos é dito. Os negros, na posição mais baixa de todas naquele ambiente, geralmente são apresentados em grupos e não por indivíduos, como que para evidenciar ainda mais a desumanização sofrida por estes.

Um livro tão complexo e famoso quanto O Coração das Trevas não ficaria muito tempo longe das telas de cinema. Após duas tentativas fracassadas (a primeira por Orson Welles) Francis Ford Coppola lançou Apocalipse Now, considerado hoje um dos melhores filmes da história. Não é muito difícil compreender porque tanta gente prefere o filme ao livro. Sua linguagem é difícil, a maioria das pessoas vai precisar de um bom dicionário para não se perder na leitura. E, embora tenha apenas cem páginas, um número ínfimo se comparado ao de muitos clássicos, o desenvolvimento é lento, calmo. Faz parecer que é mais longo do que aparenta. Joseph Conrad passa toda a monotonia de passar meses no mar, sem muito mais a fazer se não admirar a paisagem. Tanto que tenho minhas dúvidas se a juventude hiperativa de hoje conseguiria aproveitar todas as nuances da história. Mas para os que já têm costume com esse tipo de livro e mergulhar em seu enredo a experiência será enriquecedora.

A mistura de talento e as experiências de quem sentiu na pele a vida de marinheiro gerou não um romance, pura e simplesmente. E sim uma viagem única, diferente para cada pessoa, onde cada um, ao navegar em suas páginas, tira suas próprias conclusões.

Autor: Joseph Conrad

Editora: L&PM

Páginas: 148

Nota: 7,5

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Atrapalhado, paranóico, assíduo falante, leitor e cinéfilo voraz, teve desde muito novo os livros e os filmes como grandes companheiros da sua vida. Graças a eles desbravou novos mundos e universos, venceu batalhas e guerras e conheceu pessoas e povos de diferentes tempos. Tem como seus maiores ídolos Louis Ferdinand Céline, Machado de Assis, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Um dia pretende concluir seu próprio livro. Enquanto isso não acontece, escreve críticas literárias na Mob Ground. @MuriloAndrade Facebook

5 COMENTÁRIOS

  1. =

    Adorei a resenha, vou lhes dizer que no inicio não,
    mas quando cheguei na metade do texto percebi que já li esse livro hahA. Impressionante, mas li ele já tem tempo, foi emprestado de um amigo do colégio…tinha lá meus 15 ou 16 anos…

    O que me lembro é que adorei ele. Acredito que ele foi meu primeiro escritor com tendencias à loucura. Me lembro agora ( enquanto escrevo ) que eu delirava, quase como um “sonho-de-ópio” ( como descreve Allan Poe ) lendo esse livro. É realmente assustadora a forma como é conduzido o livro.

    recomendo, principalmente pra quem é chegado em escritores “mei-doido”.

    Parabéns ao ótimo texto Murilo ^^

  2. Murilo,

    Ainda bem que tem você para alertar leitores incautos sobre esses grandes autores obscuros por aqui. Eu não o conhecia, mas já anotei a dica.
    Fiquei curiosa pra saber quais outros autores o tio chocomalk também considera ‘meio-doido’…

    =)

    • =

      Ah assim, digo “Meio-doido” a galera que consegue nos revelar um mundo que só existe na mente dele sabe… ou que nos faz viajar por esse mundo em forma de devaneios e alucinações. Alguns deles ja postei por aqui, fazer uma lista curtinha:

      * Allan Poe
      * H.P. Lovecraft
      * Neil Gaiman ( o cara criou a “língua dos ratos” )
      * Robert A. Heinlein ( reafirmo, melhor “terror/ficção que já li )
      * Lewis Carroll ( acredito, q a obra dele é sobre loucura na verdade XD~ )
      * Isaac Asimov

      * Sam Chupp, Andrew Greenberg ( escreveram o “Livro de NOD” mas acho q esse é so pra quem saca de Vampiro: A máscara )

  3. Cara, vi o filme do Coppola (que pra mim é o melhor dele) e fiquei apaixonado, mas não sabia que tinha vindo de um livro, só fiquei sabendo quando descobri que a nave do Alien, o 8 passageiro (Nostromo) tem o nome derivado dum livro do Conrad. Sou louco pra ler o Coração das Trevas

  4. Hoje comecei a jogar um jogo chamado Spec Ops: The Line. Ele em se tratando de sistema/mecanica nao tem nada demais, é um shooter de terceira pessoa militar…

    So que a historia eh baseada neste livro da materia, mas atualizada para os dias atuais (se passa em Dubai devastada por tempestades de areia). Comecei a jogar e nao parei, é muito bem feita a narrativa e leva o jogador a querer saber mais sobre a historia, muito legal mesmo. A trilha sonora do jogo é muito boa tambem, com musicas estilo guerra do vietnam, muitas delas licenciadas e que tocam em momentos chave da historia.

    o trailer do jogo só mostra ação, mas confiem em mim, é um jogão, vela muito a pena: http://www.youtube.com/watch?v=tHgHV5IEs08

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