The_Dog_Man_by_AIRtangelo

Ninguém sabe muito bem como tudo aconteceu. Só se sabe que todos os animais de estimação do planeta sofreram um antropomorfismo repentino. Cães, gatos, coelhos, tartarugas, enfim, todo tipo de animal doméstico cresceu até o tamanho humano e ganhou consciência e inteligência semelhante a das pessoas. Bichos não cuidados por humanos como cães de rua e animais selvagens não sofreram a mutação. Ainda aguardamos informações da comunidade científica sobre o fenômeno do século.

SABUGO GONÇALVES

E aí que os animais cresceram. Não só em tamanho, sabe, mas em intelecto também. E isso foi uma merda. Mas calma, não me olhe com essa cara de ativista do PETA ainda. Você entenderá.

Quando eu digo uma merda, eu falo de chegar em casa e ver meu cachorro Sabugo sentado no sofá tomando uma breja. O infeliz, vestindo uma calça jeans roubada do meu armário, me esperava sentado com uma .38 no colo e a última lata de Brahma. Foi só abrir a porta pro cão ficar de pé — DE PÉ, PORRA — e apontar o revólver pra mim. “Agora você morre, filho de uma puta”, disse ele, meio latindo meio falando.

Foi difícil conversar com ele. Imagina minha cabeça ao ver meu vira-lata de focinho branco e nariz rosado semi bêbado com uma arma carregada (e cambaleante) apontada pra minha cara. Tentei ser racional com ele e, vejam só, ele foi racional comigo. E a cada argumento que eu jogava ele tinha um melhor pra rebater. Foi aí que eu quase me caguei.

Disse a ele que éramos amigos, que sempre vivemos juntos, fomos companheiros por muitos anos. Ele me respondeu com um latido ameaçador (será que foi um palavrão em algum dialeto canino?) e me lembrou que eu chegava em casa bêbado e quase sempre o chutava fora do caminho, mesmo se meu caminho passasse por cima do tapete rasgado que servia como sua cama. Não sei era o álcool latindo, mas a cada frase seu português ficava mais inteligível.

“Nunca te pus pra dormir na rua”, disse. “Nunca nem me levou pra passear, Woof Woof”, respondeu o cão. “Sempre te dou ração de qualidade”, argumentei. “Woahahahaff”, latiu/riu. “RAÇÃO? Tá certo que de vez em quando é gostoso e tal, mas nunca passou por sua cabeça que eu adoraria comer os restos de carne que você joga no lixo? Woof Woof!”

Eu parecia mal na história. Mas até aí era o problema de comunicação, sabe? Se ele nunca falasse eu nunca iria saber. Mas foi nesse momento que o chute nas bolas veio. Ele abaixou o revolver e disse, com uma lágrima nos olhos negros: “cara, quantos anos eu tenho? Tenho oito. OITO ANOS. Sabe quantas vezes trepei? Nenhuma”. Meu coração doeu. “Agora, sabe quantas vadias eu vi você comer nesse quarto sujo? Várias. Quantas vezes você se masturbou sem nem ao menos me tirar do quarto? Várias. PORRA!”

Levantou o .38 mais uma vez e chegou mais perto de mim. Eu já estava aterrorizado. Comecei a chorar e pedir desculpas sem parar. Ele me olhou por um momento e, sei lá, percebeu a merda que estava fazendo. Se largou no sofá e deixou a arma cair no chão. Sentei ao seu lado e fiz carinho na cabeça do meu vira-lata, por mais errado que isso pareceu no momento — ele tem um metro e oitenta agora, é fogo fazer cafuné num cara de quase dois metros. Disse que ele era meu melhor amigo, manja? Aquela parada toda de melhor amigo do homem e tal. Ele sorriu e tomou o último gole a cerveja já quente. Pediu pra continuar morando comigo e eu aceitei, né?

Você me pergunta o que achei sobre os animais terem crescido e tal. O que achei? Sei lá, só sei que perdi um pulguento e ganhei um amigo. Mas é bom que esse sarnento arrume um emprego já. Ou você tá pensando que sou otário pra ficar sustentando marmanjo?

O post O dono de Sabugo Gonçalves apareceu primeiro em Mob Fiction.

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