Há que trabalhar, ainda que não seja por gosto, ao menos por desespero, uma vez que, bem vistas as coisas, trabalhar é menos aborrecido do que divertirmo-nos.

A frase acima é de Charles Baudelaire, um francês do século XIX, poeta, teórico das artes, pensador, chato pra dedéu. Baudelaire era extremamente ligado à estética, moda e modos (recomendo a leitura do Sobre a Modernidade). Talvez o primeiro hipster e santo padroeiro do Instagram. Mas Baudelaire sabia, que pra ser hype, era preciso ser infeliz. Ou no mínimo, andar com a cenoura no cu #mário #gomes.

Todos temos modas, modos e costumes. Gosto não se discute, se lamenta. Eu mesmo gosto de coisas que muita gente gosta, como futebol e Grey’s Anatomy, e outras que ninguém gosta, como Pepsi com Yakult e tocadores de banjo dos anos 20. Não é o gostar que me preocupa, não é a moda. É apenas a babaquização da humanidade. E quando digo babaquização não é algo estilo Idiocracy (filme de 2006 que faz dura crítica ao Americano médio e o que pode se tornar a humanidade), nem mesmo a babaquização adolescente. Adolescente, é por definição, babaca. Está em processo de formação de personalidade e eu acho ótimo que consumam produtos nitidamente voltados a eles, como bandas coloridas e literatura romântica com vampiros, zumbis e fantasmas (embora ache que isso esbarre na necrofilia, mas quem sou eu pra julgar não?!), o que me incomoda é a babaquização do ser humano adulto.

Ou o que deveria ser um adulto, né? Cada vez mais a gente assiste um processo de infantilização do adulto. As pessoas saem cada vez mais tarde da casa dos pais, ficam cada vez mais tempo sendo sustentados, cuidados e amparados pelos véios e por diversas vezes, não têm a mínima noção da vida adulta aos 30 anos. Pense que aos 30 anos, seus pais já tinham filhos, empregos, casas, contas pra pagar, cachorro, papagaio…seus avós então já tinham tudo isso aos 20. Se tu for do leste europeu, eles já tinham isso aos 13 kkkk.

A babaquização desconhece limites, ela invade tudo, toma de assalto diversos níveis da sociedade sem que a gente não perceba. Ou perceba e a acolha como algo normal.

Há cinco anos atrás, achávamos normal e socialmente aceitável comer um brigadeiro (negrinho se tu for do Sul) da padaria por R$1,50. Afinal, é um brigadeiro, chocolate, leite condensado e manteiga (sei nem a receita gente), típico de festas infantis, festa de aniversariantes do mês da firma e mulheres deprimidas num domingo à tarde. Agora existem lojas somente para brigadeiros, com diversos sabores, côco (que pra mim chama beijinho ou branquinho), ervas, pimenta, azeite, flor de sal (não sei o que é isso mas tem em todo lugar também. Só conheço Sal Cisne. Deve ser a babaquização do iodo), amêndoas, esperma de sapo cururu e sabe Deus mais o que. E eles custam, tipo, 500 Farrapos Gaúchos uma caixinha mixuruca com 6. Meu companheiro, eu como 6 brigadeiros de uma vez, tendo ele flor de sal ou a flor do Jorge Tadeu. A babaquização do brigadeiro me preocupa.

Aliás, já que estamos tratando de culinária, terreno amplamente babaquizado, e em padarias, eu gostaria de lembrar da babaquização delas próprias. Há 15 anos atrás padaria vendia cacetinho (pão francês para vocês, pessoas sem costumes), leite tipo B no saquinho, bala Juquinha, frios e picolé. Hoje padaria tem iluminação especial sobre a mesa de brioches, doces franceses, sorvete só se for Haagen Dazs, sei lá como escreve, e baristas para servir o pingado. A babaquização da padaria me preocupava, mas infelizmente perdemos essa luta.

Tirando a gastronomia, não há terreno com mais babaca por metro quadrado, do que rede social. Não me entendam mal, eu adoro redes sociais, uso todas (menos Linked In por que ninguém em sã consciência me contrataria vendo como me comporto na internet), uso Instagram sim, diboua. Mas olha é um tal de ser viciado em café, insone, nerd, geek, indie, analista de mídias sociais, fotógrafo, que eu vou te contar. Falar que a mãe ta pelada na fila do SUS ninguém quer, né?! A babaquização das redes sociais já me preocupou mais, estou convivendo com isso.

Porém o risco dessa babaquização das redes é a babaquização da mobilização política em consequência. Por que para o babaca moderno não basta ser babaca e ficar três horas na fila pra comer uma coxinha, ou pagar R$7,00 num copo de café com leite, o babaca tem que se engajar. Mas o bbk não quer sair da zona de conforto dele, então ele posta uma hashtag no Twitter, e compartilha uma imagem no Facebook. Pronto, o babaca vai dormir tranqüilo por que fez a parte dele para um mundo melhor. Aí sim, a babaquização da consciência social é que deveria preocupar a todos nós.

Mas eu acho que nenhuma babaquização me dói tanto quanto a do boteco. Há 10 anos atrás um boteco era um lugar pequeno, de higiene duvidosa, com uns três bebaços no balcão tomando pinga, torresmo frito e ovo cor de rosa pra comer, garrafas de Pitu e a cerveja mais gelada e mais barata que tu podia encontrar. Hoje o conceito de boteco, do grego boteko, do latim botecum, do francês, botequê…os senhores estão anotando? Vou pedir isso na prova…Enfim, o conceito de boteco se perdeu. É claro que ainda existem os botecos de raiz, mas se tu leu na Veja São Paulo, ouviu numa conversa de uma grupo de pessoas num restaurante da região da Av. Paulista, pode ter certeza absoluta que não é boteco. É um ambiente, caro, e milimetricamente pensado para parecer um boteco, os banheiros são limpos, o chão é limpo, e por Tutatis, o balcão é limpo!!!! Esse ~~~boteco~~~não serve torresmo, mas sim faz releituras babacas, como confit de torresmo com molho de feijoada. Não tem ovo cor de rosa, mas tem bruschetta de ovo de codorna. Não tem pinga nem Pitu, mas tem sakêrinha de kiwi. Juventude, isso não é um boteco! Isso não é nem bar! É só um lugar pra ser babaca.

Não me importa se tu quer ser babaca. A babaquice é democrática, desconhece raça, religião, classe social ou opção sexual. É muito, mas muito fácil ser babaca, por isso tanta gente se deixa seduzir pelo lado babaca da Força. Mas apenas parem com a babaquização das coisas simples do trabalhador brasileiro. Deixem eu comer brigadeiro na festa da firma, daqueles com bastante gosto de gordura hidrogenada, me deixem comer ovo cor de rosa e me deixem beber Pepsi com Yakult antes que babaquizem isso também.

ARTE DA VITRINE: Thiago Chaves (@chavespapel)


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Orgulhosa portadora de um green card da República Rio Grandense, botafoguense por herança maldita, a véia louca dos gibis que odeia adaptação pra cinema, Decepticon whore, Supergirl de xicréte e rabeta da centopéia humana. Bebo mais do que deveria e ouço Wilco menos do que gostaria. Produção de áudio pra viver e ponte aérea PoA/SP no tempo livre.

23 COMENTÁRIOS

  1. hauhauhau vc ta certa Jenny!!

    De uns anos pra cá apareceram uns recintos com nome de Buteco Não Sei o que lá,e que um chop lá custa quase 10 reais. E o povo fica lá tomando, crente que tá abafando hauahuahuahua

    PS: adoro chocolate hidrogenado… mas é tão dificil de encontrar!!

  2. Ri muito. Curti muito a postagem. E chocolate hidrogenado é fácil fácil de encontrar, todos os saquinhos de São Cosme e Damião tem.

    • Mas ficar dependente de Comes e Damião é fogo ne!!!
      Eu sei que aquelas bolas de futebol de chocolate são hidrogenadas…. mto boas!

      • Pois é, as de futebol são mesmo. Poxa, procure casas de doces(a galera dos saquinhos tem de comprar em algum lugar, po).

  3. Jenny,

    Pra mim o pior é a babaquização das pessoas em relação as causas sociais e políticas, como você disse.
    Quando eu vejo no Facebook alguém sabidamente preconceituoso ao extremo postando aquelas fotos de crianças com Síndrome de Dawn falando da inclusão social, ou do preconceito contra negros, meodeus, pqp, é vergonha alheia demais! É a babaquização da humanidade!
    Mas como a babaquice é democrática, me incluo na babaquização da literatura, afinal, adoro literatura romântica com vampiros! rs
    E viva a democracia!

    =)

    • Concordo!

      Dá uma olhada nesse site, que um amigo criou:
      http://socialengajator.apphb.com/

      Ele fez pensando nisso msm. Tava incomodado com esse ativismo de sofá e resolveu satirizar.

      Já utilizei o produto. Mt eficiente, aliás! Mt gente acredita msm no texto, hauhauhah.

  4. Quando falei dessa babaquização do adulto após assistir ao filme Scott Pilgrim blablabla (nãi li o quadrinho) nego veio dizer que eu tava pagando de intelectual. Hoje tem gente que faz a mesma coisa via Facebook/Twitter/afins, um bando de adulto bebezão criando outros adultos bebezões…

  5. Sim, a prova da babaquização da humanizade é este post. Quer dizer algo, quer ser rebelde, mas não assume posição alguma, porque precisa passar a imagem de “democrático”. Onde estão os culhões dos críticos de verdade? Ficaram nos raros casos de um passado remoto que talvez nunca existiu, pois nenhuma geração percebe seus gênios, hoje estão completamente extintos por alguma conta a pagar ou algum público a atender… parabéns por não ter nada a dizer.

  6. A babaquização atinge níveis estratosféricos. Há bbks por todos os lados. Lugares bbks, roupas bbks, gírias bbks, carros bbks. Estamos dominados por essa escumalha bbk!

  7. Acaba que no fim para que a humanidade pudesse abraçar os ensinamentos de união, fraternidade e compaixão proclamados pelo professor Xavier deveriamos viver todos separados. Segmentados por raça, religião, Qi, sexo e categoria humoristica. Cada um no seu quarto usando sua respectiva rede social personalizada…
    …eu irei prum buteco. Porquê não existe iguaria mais saborosa do quê coxinha de buteco acompanhada de gyni de limão.

  8. Bom, eu penso o seguinte:

    Na verdade tem várias coisas diferentes nesse texto.
    Quanto a “babaquização” do adulto, eu vejo isso como um “produto do meio” simplesmente.
    A vida hoje tá mais fácil. As pessoas só começam a procurar emprego quando a “água bate na bunda”. Sempre foi assim na maioria dos casos, e não vai mudar. Hoje é normal continuar jogando video-game e assistindo desenhos animados mesmo depois de adultos (quanto à isso, não vejo isso como babaquização).

    Quanto à babaquização da culinária: concordo com tudo o que você disse! A maioria das pessoas tá cada vez mais elitista, cada vez mais procurando status. Não basta comer brigadeiro, tem q ser brigadeiro da kopenhagen. Não basta ter notebook, tem que ser da maçãzinha, e por aí vai. Concordo que às vezes vale à pena pagar mais caro por algo melhor, mas mt gente só gasta assim pela marca, e a qualidade superior é mera ilusão.

    Quanto aos preços, não podemos nos esquecer da eterna inflação que existe no mundo inteiro, né? Pãozinho à 10 centavos nunca mais! =(

    Sobre babaquização das redes sociais, essa é a que mais me incomoda, principalmente esse ativismo de sofá! Todo mundo querendo parecer interessado em tudo. Mas temos que reconhecer que essas pobres pessoas estão no direito delas de “querer aparecer”, né. Faça como eu: utilize os filtros do Facebook! Melhor ferramenta que existe!

    Pra finalizar, a impressão que tive é q o texto critica principalmente “modinhas”. Sempre fui averso à modas. Sempre fui do contra, mas o “do contra do contra”, manja? Não sou Hipster, posso te garantir! Aliás, não sou nada!!
    Mas concordo totalmente com isso: a moda surge quando alguém faz algo legal, e todo mundo decide copiar. Mas as pessoas não percebem que aquilo foi legal daquele jeito naquela situação, e não vai ser legal sempre! Não preciso nem entrar na questão das camisas xadrez, né?

    Embora eu ache que vc quis criticar várias coisas diferentes utilizando uma única palavra (não vi tanto problema nisso, pois o texto tem um tom de desabafo até que bem humorado), parabéns pelo texto!

    Abraços e sucesso!

  9. nao que eu acho ruim… na verdade acho um tanto quanto divertido, mas tem la seus pontos criticaveis, a babaquização, cria inevitavelmente o babaca anti-babaca… assim como tem o cult anti-cult… e por ai vai!!!

  10. Concordo.

    Mas também adicionaria esse post à lista. Esse post foi muito babaca.

    Odeio essa babaquização dos babacas que passam a achar que os babacas são só os outros quando ele mesmo tá sendo muito babaca.

  11. Ótimo texto, boas opiniões. Concordo em muito com quase tudo. Ta solteira? Ta tudo muito errado mesmo, infelizmente as coisas mudam. Só fica difícil saber por que complicam na esperança de ficar melhor.

    Ai tem muita gente que fica por aí, optando por não pensar e tratar com elas as vezes cansa demais. Falo isso das pessoas em geral adultas e do meu círculo social de amigos e faculdades, gente de vinte anos, um pouco mais.

    Mas pensa comigo, quando a galera mais nova, adolescente, será que hoje em dia não ta mais difícil chamar atenção? Rola aquela necessidade de ser ouvido e ta foda pq tem gente demais, então eles ficam dispostos a fazer qualquer coisa pra se “enturmar”. Ai acabam que ficam bem pouco exigentes, babacas.

  12. Ô Jenny, vc tem que sair da babacolândia! A galera tem que entender que não existe aplicativo de avaliação dos botecos perifa, e nem fanpage da doceria da tia! Quer comer pastel amanhecido, jogar bilhar de ficha e ouvir Xitãozinho e Xororó de uma rádio que não existe no seu spotify? Vem co tio!

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