Toda reunião de família (principalmente o natal) sempre tem aquele momento em que um tiozão chega para o sobrinho com a velha pergunta “E as namoradinhas?”. Ou então aquela parente mais velha chega para a menina e diz “20 anos e ainda está solteira? Se não arrumar alguém logo vai ficar pra titia”. O fato é que o tempo todo somos cobrados pela sociedade para que tenhamos alguém do nosso lado. Se isso não acontece, as pessoas logo acham que existe algo errado com você e fazem de tudo para “consertar o problema”. E o pior é que não basta ter alguém, mas você ainda precisa se encaixar no padrão exigido pelo grupo à sua volta. Em uma família cristã, por exemplo, não adianta você ter um relacionamento homossexual porque vai continuar sendo um pária.

Em O Lagosta somos apresentados a um universo onde essa cobrança da sociedade chegou a níveis extremos. A partir de certa idade, toda pessoa solteira é enviada para um hotel onde ela deve se apaixonar e se casar em até 45 dias. Caso isso não aconteça ela é transformada em algum animal de sua escolha, daí o nome do filme. Assim, somos apresentados a David (Colin Farrel), um homem que acabou de ser abandonado pela esposa e não teve outra escolha senão morar no hotel, levando junto um cachorro que na verdade é seu irmão que um dia falhou em se apaixonar. A partir daí acompanhamos a jornada do personagem, que passa a fazer o que se espera dele, mesmo quando está claro que ele não tem a mínima vontade de ficar com mais ninguém no momento.

Logo que chega ao hotel, David já é obrigado a se encaixar em certos padrões do local. Ao ser perguntado sobre sua orientação sexual, ele tenta escolher bissexual, mas a atendente logo diz que ele deve ser homo ou hetero. Para ressaltar o desconforto com toda esta situação, o diretor Yorgos Lanthimos filma quase toda a cena sem mostrar o rosto da atendente, o que ajuda a deixar a coisa mais assustadora para David. Além disso, todos os moradores do local são obrigados a utilizar as mesmas roupas e ter o mesmo comportamento, sempre se encaixando perfeitamente naquele padrão estabelecido.


Para ressaltar que a vida sem um companheiro(a) é errada e incompleta, várias atividades do hotel são proibidas para os solteiros, mesmo que eles possuam algum amigo com quem fazer essa atividade. Para completar, os solteiros são chamados de solitários, uma palavra que traz um peso negativo muito maior para a situação em que se encontram. Destacando a tristeza constante em que vivem os personagens da trama, o diretor de fotografia Thimios Bakatakis utiliza uma paleta de cores dessaturada, mesmo nos momentos em que o sol brilha na tela. É como se aquelas pessoas simplesmente tivessem perdido a vontade de viver e agora fizessem isso de forma automática, sem conseguir exercer suas próprias vontades. Fazem apenas o que se espera delas.

O Lagosta é um filme que fala principalmente sobre solidão e as loucuras que as pessoas acabam fazendo para escapar dela. Com tão pouco tempo para encontrar um par antes de serem transformados em animais, os personagens deixam de se preocupar em buscar um amor verdadeiro e procuram simplesmente pessoas com que tenham alguma coisa em comum. Mesmo que essa coisa seja um pequeno defeito, como miopia ou sangramento nasal. Alguns passam até a tratar os amigos com frieza por puro medo de perder o(a) parceiro(a) que conseguiu com tanta dificuldade. Uma das personagens chega a oferecer favores sexuais que ela considera degradantes, apenas na esperança de conseguir escapar do seu destino. E na vida real, quantas vezes não escutamos casos de pessoas que se sujeitam a qualquer coisa em um relacionamento simplesmente por terem de medo de ficarem sozinhas?

O filme mostra ainda que, na tentativa de fazer tudo o que se espera de nós,  muitas vezes acabamos jogando fora a chance de sermos felizes de verdade. Isso é mostrado na forma de um personagem que quase desiste da pessoa por quem se apaixonou apenas por descobrir que eles não tinham gostos parecidos, como se o amor fosse uma fórmula matemática. Com isso, O Lagosta acaba abordando também o fato de muitas vezes sermos egoístas, querendo que a pessoa amada se encaixe em nossos padrões e idealizações, apesar de reclamarmos quando nos exigem isso. E em um mundo no qual não se aceitam as diferenças, restam apenas duas opções: abandonar a pessoa ou mudar radicalmente por ela. Assim, é possível entender a angustiante decisão que David toma no clímax do filme, em uma bela cena que consegue transmitir muita tensão apenas mostrando a mesa de um restaurante.

[quote_box_center]O Lagosta / The Lobster (2015)

Direção: Yorgos Lanthimos

Duração: 1h 59min

Elenco: Colin Farrell, Rachel Weisz, Jessica Barden.[/quote_box_center]

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