Algumas vezes ocorre uma anomalia na ordem universal, fazendo com que nasça uma pessoa com talento gigantesco para determinada função, um gênio por assim dizer. Na história, vários deles são de amplo conhecimento mundial: Einstein, Shakespeare, Newton… Todos eles contribuíram com obras que se tornaram atemporais e que servem como inspiração às gerações atuais e futuras. Porém, outros não eram tão conhecidos assim até que a era globalizada chegou, difundindo suas obras antes concentradas em uma determinada região.

 Na década de 80, o entretenimento eletrônico era visto como uma área de mercado em expansão: um nicho bastante rentável, mas considerado desprovido de alma, ou seja, incapaz de gerar sentimentos nas pessoas (como os filmes, músicas e livros faziam) e permear o terreno artístico. Esta visão começou a mudar quando os primeiros personagens carismáticos de jogos foram criados, como Pac-man e Mario, atraindo multidões aos arcades e ao mesmo tempo, gerando um sentimento de apreço em relação a aqueles seres feitos de pixels. Mas para criar algo que seja capaz de gera tal efeito, se faz necessário uma pessoa de visão, comprometida com o seu trabalho em um nível além do normal, e se a Nintendo tinha Shigeru Miyamoto, a Sega tinha sua contraparte na forma de Yu Suzuki.

Yuzão diz: Hui!

Este cara de feição invocada criou verdadeiras obras de arte dos arcades em nome da Sega, fundamentando a base da empresa de uma forma incrível neste segmento, que se manteve forte até há pouco tempo atrás, quando os consoles caseiros se tornaram tão poderosos quanto aquelas máquinas de diversão encontradas em lojas, esquinas, shoppings, e que faziam a alegria de centenas de pessoas. Hoje, este mercado está praticamente morto, mas no Japão ainda há uma sobrevida.

Um dos elementos existentes infalível em gerar adrenalina nas pessoas é a velocidade, e Yu Suzuki sempre foi apaixonado pelo assunto.

Se você não conhece Out Run, provavelmente vivia em alguma caverna.

O cara teve jogos anteriores em seu currículo, mas um dos que mais fez sucesso mundial foi um título chamado Out Run, lançado no longínquo ano de 1986, e que tinha como premissa um daqueles sonhos simples sonhos masculinos: dirigir uma Ferrari (no caso uma 512 Testarossa Spider) com o pé no fundo, ao lado de uma mulher bonita para acompanhar, em cenários tropicais e ensolarados. Para completar, era possível escolher até a rádio de sua preferência (na verdade cada estação só tocava uma música, mas de qualidade e que se tornaram clássicas, como o jogo em si).

Porém, a diversão proporcionada por Out Run era apenas individual, então Yu e a AM2 (setor de desenvolvimento da Sega) passaram algum tempo criando uma alternativa para que a diversão pudesse abranger mais pessoas simultaneamente, gerando competitividade e emoção. A solução que se chegou foi o desenvolvimento de um jogo, baseado na arquitetura de uma nova placa mais poderosa do que a

A “Y” board possuia 3 processadores Motorola 68000 rodando a 12Mhz, um absurdo para a época (são os três chips mais alongados na parte inferior). Além disso o som que ela gerava também era muito bom.

usada em Out Run. Nasceu então a placa Y, usando 3 processadores Motorola 68000 (um a mais que a placa antiga) com velocidade um pouco maior do que os da placa anterior e possuidora de outros recursos avançados, como a possibilidade de usar system link (conectar uma máquina na outra, o que era incomum na época) finalmente tornando possível a idéia inicial de “todos jogando e competindo”.

O produto de todo esse processo criativo gerou Power Drift, em 1988 (ano extremamente frutífero para os games), um dos mais divertidos arcades da época. O estilo de jogo é o mesmo de Out Run, mas o jogo é bem mais rápido e a premissa de relativa tranqüilidade (dirigir à beira da praia, entre palmeiras e ao som de uma música neutra) foi pelo ralo definitivamente. Aqui o negócio é maluquice total: as pistas são meio estreitas e feitas em estilo montanha russa, com subidas e descidas vertiginosas, saltos, curvas sem proteção… Além disso, os carros são agora baseados no design dos clássicos ingleses Lotus 7 e Caterham 7 com um motorzão atrás (provavelmente um V8) e apenas um lugar para o piloto, sem distrações. Como se não bastasse, depois de certas corridas, o carro evolui para uma versão ainda mais rápida, exigindo controle maior por parte do jogador.

A função tilt inclinava o que estava na tela diagonalmente, pois o gabinete pendia para o lado oposto das curvas e isso facilitava a visão do jogador durante as mesmas.

Uma das características da placa Y é a sua capacidade de escalonar (aumentar e diminuir) vários sprites em velocidade rápida ao mesmo tempo, criando um visual pseudo 3D usando raster (na época os polígonos eram inviáveis para uso) no cenario. Ela também possuía um efeito chamado “tilt”, que inclinava diagonalmente o que estava na tela durante as curvas, transmitindo a sensação de que o piloto estava sendo jogado para o lado devido à ação da força centrífuga causada pela alta velocidade. Foi o primeiro jogo em que isso apareceu, e hoje isso é usado extensivamente nos jogos de corrida em que o controle da direção é o próprio aparelho (celulares e tablets).

O gabinete de Power Drift também se movia, e se você caísse para fora da pista ou errasse o pulo, melhor se segurar, porque o tranco que ele “proporcionava” era forte.

O gabinete era show de bola, apesar de existirem versões mais simples, como a que possuía somente um banco e outra em que o jogador ficava de pé.

Falando em pistas, são 5 percursos à escolha, identificados por letras de “A” a “D” e cada um deles possui um tema, por exemplo, no “A” são cidades, no “B”, desertos, “C”, praias, e por aí vai. As músicas são únicas para cada um deles, cada uma delas realmente excelente e empolgante. A qualidade do som da máquina também impressiona, com alto-falantes muito bons. Toda a parte sonora foi autoria de Hiroshi Miyauchi, tecladista da banda interna da Sega, a S.S.T. Band (responsável por várias trilhas de jogos, inclusive a do próprio Out Run) e que fez parte da formação de 1988 a 1990 (a banda extinguiu-se em 1993 infelizmente).

São doze pilotos à escolha, entre homens e mulheres, com designs variados, como um de cabelo moicano, outro que parece um locutor, um executivo, um careca barbudo… Durante a corrida, eles aparecem na parte superior da tela e são animados, comemorando as ultrapassagens, para que o jogador saiba o andamento do jogo. O piloto escolhido também faz gestos no carro, fala/xinga o outro com “Eat dirt, bozo!” (Coma poeira, palhaço!), reclama ou dá risadas. Infelizmente você só pode escolher o jogador nas versões do jogo que estão conectadas por system link, pois nas versões solo, a escolha é feita aleatoriamente junto com a do percurso. Ah, existem estágios extras caso se consiga o primeiro lugar em 5 circuitos seguidos, permitindo que você jogue em alguns percursos, com o caça de After Burner e em outros, com a moto do Hang-on, ambos obras de Yu Suzuki também.

Hiroshi Miyauchi (com a bandana na cabeça, à direita) e os meliantes da S.S.T Band

Conheci Power Drift quando fui para o Rio de Janeiro com meus pais e resolvemos visitar o Barra Shopping. A área de jogos de lá só tinha máquinas importadas (inclusive várias japonesas) e fiquei tão maravilhado, que era difícil saber pra onde ir. Mas, ao ver quatro máquinas de Power Drift linkadas, eu achei meu rumo. Fiquei ali a tarde inteira, de “queixo caído” com um jogo que tinha uma qualidade muito superior a qualquer outro que eu já tinhesse visto, jogando com pessoas que estavam tão impressionadas quanto eu. Foi difícil me tirar dali… Na verdade meu pai precisou me subornar com sorvete ou algo parecido para que eu saísse. Imaginem o choque para alguém que estava acostumado a jogar Enduro no Atari, ou F1 Race no Nintendo, ver uma coisa daquelas… Quase tive um ataque epilético de emoção :D

O port para Pc-engine ficou “simprão”, mas até que era jogável.

Este jogo fez sucesso por onde passou, mas não ficou muito conhecido por seus ports domésticos, que incluem verões para os computadores ZX Spectrum, Commodore 64 e Amiga. Curiosamente a Sega excluiu uma versão para Mega Drive, teoricamente porque ele não suportaria um jogo dessa qualidade. A Asmik japonesa (de Air Diver), como não é boba nem nada, correu atrás dos direitos e lançou uma versão para o concorrente PC-Engine, mas o jogo só saiu no Japão e não ficou muito bom, devido à limitação de hardware do videogame (tá… pela empresa ser uma porcaria também).

Porém, Power Drift foi cogitado para lançamento junto com o Mega-CD, já que seria um belo título de demonstração do que o novo aparelho da Sega poderia fazer. Sabe-se lá por qual motivo, o jogo foi cancelado e nunca apareceu no 16 bits da

As pistas foram feitas como uma montanha russa.

Sega. Mas, saiu em port perfeito para Saturn e Dreamcast (neste, através de uma coletânea de jogos feitos por Yu). Hoje, ele teoricamente não faz mais parte do quadro de funcionários da Sega, e abriu sua própria companhia, a YS NET. Mas aparentemente não vai cortar o vínculo totalmente, agindo como consultor externo sempre que possível (até porque a associação dele com a empresa é indissolúvel, como acontece com a Nintendo e Miyamoto).

Power Drift é basicamente o modelo em que todo jogo de corrida estilo arcade se baseou, juntamente com Out Run: diversão direta, sem rodeios, gráficos excelentes e músicas perfeitamente incorporadas ao contexto, simplesmente um jogão. Existe também um jogo em flash que simula bem o clima de Power Drift, chamado Coaster Racer (você pode jogá-lo aqui) que é bastante divertido e competente.

Fiquem com a capa do saturn (que é insana como o jogo), as músicas Artistic Traps e Like the Wind, além de uma versão excelente da mesma tocada por violino, e até a próxima semana!

Dá até a impressão que a mulher do canto superior esta querendo abraçar o barbudo, mas na verdade ela está se “estrepando” mesmo :D

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2 COMENTÁRIOS

  1. Detalhe que a Testarossa nunca teve oficialmente versão spider (conversível), o que se tinha na época eram conversões feitas por oficinas não-autorizadas. Apesar de pedidos de clientes, a Ferrari nunca lançou uma versão conversível pois o chassis não foi projetado pra isso, e apresentava torção quando removida a barra do teto, mesmo com reforços (a.k.a. gambiarra).

  2. “Na década de 80, o entretenimento eletrônico era visto como uma área de mercado em expansão: um nicho bastante rentável, mas considerado desprovido de alma, ou seja, incapaz de gerar sentimentos nas pessoas”

    ,quem diria hein , vou as lágrimas quando ouço a abertura do professor layton , chrono cross e a trilha de soul edge , a trilha de power drift nunca sai de minha cabeça e podem ter certeza , trata-se do pai do mario kart , parabéns pelo texto cheio de alma

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