Finalmente terminou. Encostei meu controle no apoio do sofá e vi maravilhado o desfecho de uma saga que se estendeu por cinco anos: Mass Effect tinha chegado ao seu fim. Como todo fã, senti aquele vazio, me senti órfão devido a um inevitável desfecho. Foi uma espécie de adeus, similar ao adeus dado a aquele amigo antigo ou uma namorada querida.

Não foi um adeus idílico, mesmo discordando do tom histérico de outros fãs da saga, o final me desagradou em alguns pontos. Foi breve, críptico, como se, no último instante, os programadores da série tirassem de minha mão a liberdade e interatividade do roteiro, pasmo, voltei a perspectiva daquilo que eu sempre fui, um humilde espectador e isso me obrigou a pensar, refletir e questionar…

Mas, assim como a vida real, Mass Effect não é sobre o fim e o inevitável desfecho de nossas vidas: Mass Effect é sobre as escolhas que nós realizamos ao longo do percurso, sobre elas e suas consequências e responsabilidades.

Shepard é um rosto comum, ou caso assim você deseje, um reflexo aproximado das feições do jogador. Desde o primeiro capítulo, lançado lá em 2007, diversos coadjuvantes insinuam: “você é o reflexo da humanidade”, e no grande escopo intergaláctico das coisas, Shepard pode ser homem ou mulher, heterossexual ou homossexual, negro, branco, asiático… Resumindo, Shepard é um reflexo de cada um de nós.

Existe um aspecto empático que nos motivou ao longo dos três capítulos da série, Shepard não é apenas um militar, é um diplomata, um herói, um ser humano como qualquer outro, capaz de cair em tentação e até mesmo errar.

Conforme nos tornamos íntimos com o universo de Mass Effect, descobrimos que “humanidade” é um termo antropocêntrico e que nós – como espécie – não estamos sentimentalmente sós, nossas angústias, dúvidas e felicidades se somaram a dezenas de outras espécies sapientes, e cabe a você – o jogador – a decidir quais angústias são dignas de serem saciadas. Existe todo um aspecto “solidário” no roteiro da série.

O sobrenome do protagonista é uma coisa que instiga, Shepard vem da palavra “sceap”, do anglo-saxão que data o século VII, que servia para designar tanto a função de pastor como a de vigia, e no universo de Mass Effect, o protagonista é as duas coisas.

Existe uma implicação cristã em seu nome. Shepard é o pastor, não é apenas o comandante que recruta exércitos por toda Via-Láctea, mas também o vigia, o conciliador e, em alguns casos, uma figura paternal ou fraternal, e assim como o próprio Jesus Cristo bíblico, uma figura controversa.

Mas as coincidências não param por aqui, o sobrenome do protagonista também pode ter sido inspirado em Alan Barlett Shepard Jr., que embora não seja o primeiro homem a alcançar o espaço (feito reservado por Iuri Gagarin) foi o primeiro norte-americano que realizou este feito.

A espiritualidade da série é evidente nos últimos momentos de Mass Effect 3, onde Shepard encontra uma inteligência ancestral conhecida apenas como “The Catalyst”. The Catalyst é um deus ex machina, que oferece a Shepard sua escolha final.

Comum a todos os desfechos, Shepard comete o martírio e é neste feito que entra em evidência seu aspecto messiânico, ele morre para que uma galáxia – agora unida – possa sobreviver, ele redime erros e pecados do passado, oferece às mais diferentes raças no universo esperança e uma oportunidade para começar de novo.

Mas este é apenas um aspecto do desfecho da saga, Shepard pode optar por emancipar toda vida orgânica e quebrar o ciclo mecânico de extinção, o jogador – e por extensão – Shepard também pode transcender todas as formas de vida a um novo estágio de consciência, Shepard neste caso também encarna os aspectos de Prometeu e Buda.

A presença do The Catalyst, através de uma interrupção brusca de sua liberdade de escolha, ajudam a lembrar os jogadores que existem forças maiores que eles – dentro e fora do universo fictício de Mass Effect – e que o importante não é a tão discutida liberdade, mas sim as consequências acarretadas pela mesma.

É previsível que diversos fãs tenham adotado até mesmo uma postura histérica em relação ao desfecho da série, é um desfecho agressivo, onde o excesso de informação – e as mudanças de última hora no paradigma para o papel passivo – chocam quem acompanha o fim.

Ainda assim, o término de Mass Effect – e a reação do público – são um remarco tanto em nível de mercado, como em roteiro e até mesmo espiritual, retomando conceitos metafísicos e religiosos explorados por autores como Arthur C. Clark e Philip Dick e mostrando que a indústria de games é uma via de duas mãos, assim como ela amadureceu, o público precisa acompanhar o passo.

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