Okja é o novo filme da Netflix, que estreou em 28 de junho, dirigido pelo aclamado Joon-Ho Bong, mostrando uma história de amor entre a garotinha Mija e seu animal de estimação, a superporca Okja, ao mesmo tempo em que denuncia e critica a Indústria da Carne, os métodos de abate e o marketing de “Fazenda Feliz” que engana seus consumidores. Bong segue sua jornada de levantar questões de cunho ambiental, como fez em O Hospedeiro (um monstro surgindo do lixo tóxico depositado num lago) e em O Expresso do Amanhã (uma experiência climática pra contornar o aquecimento global gera uma nova Era do Gelo). Isso aproxima Okja da ficção científica, mas não tanto, ocorrendo num 2017 mais caricato, mas também nem tão longe da realidade.

Toda a história gira em torno dos “superporcos”: a empresa Mirando cria em laboratório uma nova espécie de porco, “maior e melhorado”, que custa menos e rende mais. Como parte do marketing, 26 superporcos são enviados a 26 fazendeiros ao redor do mundo, onde irão cuidar desses animais durante 10 anos. Mija (Ahn Seo-hyun) e seu avô são um desses que recebem, passando a cuidar e dando o nome de Okja. Mija cresce com ela, com boa parte do início do filme mostrando a afinidade entre as duas e em como Okja é inteligente. Porém os 10 anos se passaram e agora a empresa quer o superporco de volta, como parte de finalizar seu marketing e dar início as vendas. Tilda Swinton interpreta Lucy Mirando, a diretora da empresa que acredita fazer o melhor em nome do business, enquanto Jake Gyllenhaal é o Dr. Johnny Wilcox, um apresentador de programas com animais e o rosto-propaganda da campanha. A retirada de Okja das montanhas sul-coreanas é frustrada por uma equipe da Frente de Libertação Animal, liderada por Jay (Paul Dano), que planejam desmascarar a Mirando.

Apesar do longa ser claramente uma crítica ao mercado de carnes, ele não chega a ser panfletário ou “pró-vegan”. E falo isso como vegetariano. O grupo de Libertação Animal, por exemplo, é extremamente caricato e estereotipado, trazendo uma ideologia de “paz e amor” e contra conflitos diretos, com direito a um membro radical que está passando fome. Os filmes de Bong possuem essa veia cômica, um humor seco e ácido, o que é ótimo pra não manter a narrativa unilateral, levantando questões e tirando quem está assistindo de sua zona de conforto. Recentemente tivemos uma polêmica no mercado de carnes brasileiro, também conhecida como o “Episódio da Carne de Papelão” na nossa história, o que nos deixa até mais próximos de Okja. Tilda Swinton já trabalhou com o diretor no Expresso do Amanhã e aqui ela também encarna uma personagem excêntrica, sendo uma CEO narcisista e até ingênua, num certo nível, querendo provar seu valor a todo custo. Jake Gyllenhaal também não fica atrás e nos mostra o típico apresentador de programas com animais, forçadamente alegre e “selvagem”.

Podemos associar tanto Lucy e sua tentativa de criar uma mascote pra sua empresa, facilitando a conexão com seus consumidores, quanto o Dr. Johnny Wilcox com esse tipo de campanha e entretenimento mundial. Aqui no Brasil temos apresentadores como o Richard Rasmussen, que apresentava programas como Selvagem ao Extremo e Sábado Animal, e que recentemente foi acusado de maus-tratos e crimes ambientais. E quantas empresas não estampam animais felizes em suas embalagens, escondendo o que ocorre por detrás? Carne Sadia, Leite Jussara…


Okja denuncia algo que é muito comum no mercado: a propaganda enganosa. Lucy Mirando vende ao público a imagem de um “superporco feliz”, uma raridade encontrada num lugar afastado de tudo e que, com amor e carinho, conseguiu reproduzir outras 26 unidades. Um animal perfeito: não consome tanta comida e água; não expele tanto excrementos; e o melhor de tudo, é saboroso. O útil ao agradável. Essa é a imagem que muitas empresas vendem de seus produtos, as “Fazendas Felizes” como são conhecidas no mundo veggie: lugares onde os animais vivem soltos, com um “abate humanitário”. Balela. Tanto no filme quanto na realidade. Um outro ponto muito interessante, é que a Mirando vende a imagem dos superporcos como “não transgênico, natural e saudável”. Escondendo todo um laboratório de criação artificial desses animais.

A atriz mirim não é de muitas feições, mas consegue nos mostrar o quanto gosta e quer manter Okja ao seu lado, nem que precise atravessar o globo pra isso. As cenas de CGI não chegam a ser hiper-realistas, mas são competentes. Um fato inusitado é que, antes de fechar com a Netflix, Bong apresentou o projeto para outros estúdios, que queriam tornar o filme mais “agradável” ao público infantil. Coincidentemente, toda a sequência inicial entre Okja e Mija é como uma versão 2.0 de Mogli e Balu. Bong, porém, não voltou atrás com sua ideia de mostrar os dois lados da moeda e fechou parceria com a Netflix, que deu maior liberdade. Falando em dois lados, o filme é repleto de dualidades. Ao mesmo tempo em que traz cenas sérias e mais densas, envolvendo maus-tratos e morte, também traz uma leveza cômica e cenas pouco prováveis, como a perseguição do caminhão ou Mija segurando uma corda. Uma mudança de ares estranha e talvez seu ponto negativo.


Um outro ponto legal de se comentar é a escolha por um “superporco”. Poderia ser vaca, galinha ou peixe, mas não. É uma evolução do porco. Interessante porque o porco está entre os animais mais inteligentes, possuindo um nível de cognição de uma criança pequena. O fato dos “superporcos” serem bonitinhos à sua maneira e funcionarem como imagem da campanha reforça o quanto nós, como humanos, possuímos um um julgamento de valor estético. Condenamos o feio, enquanto adoramos o bonito. E o pior, pouco nos preocupamos com o que vem por trás. Muitas pessoas pensam que sua comida surge num supermercado e evitam pensar em sua origem. A “Carne de Papelão” só alertou para que nem tudo que comemos realmente é aquilo apresentado. E Okja cutuca essa ferida de maneira muito boa, tanto em apresentar o quanto modificado geneticamente os superporcos são, não tão diferentes dos animas de abate hormonizados, como funciona um abatedouro e o quanto os animais pressentem a morte e querem apenas viver. As cenas finais são de emocionar.


Vivemos num mundo atrelado a dor, sofrimento e exploração. A comida que comemos, a roupa que vestimos, as tecnologias que usamos… Tudo, num nível ou outro, possui uma dessas característica em sua cadeia produtiva, dificultando a ideia de ser “100% contra”. Mas por que não tentar ir até onde é possível? Muitas pessoas reclamam do Sistema. Okja nos mostra uma das faces desse Sistema: a Industria de Carnes, que movimenta bilhões e esconde um história que ninguém quer ver ou “sair” dela. A agropecuária está entre as principais responsáveis pelo desmatamento, poluição e diminuição de biodiversidade, sem contar a quantidade de grãos e água destinados aos animais de abate, além do sofrimento e exploração dos mesmos.

Se queremos sair do Sistema e se somos o que comemos, assista Okja e repense sua alimentação e seu consumismo.

Okja (2017, Netflix)

Direção: Joon-ho Bong

Duração: 1h 58min

Elenco: Seo-Hyun Ahn, Tilda Swinton, Steven Yeun, Paul Dano, Giancarlo Esposito, Jake Gyllenhaal.

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