Em algum lugar ao longo da estrada eu sabia que haveria garotas, visões e tudo mais; na estrada, em algum lugar, a pérola me seria ofertada.

A imortalidade é um bem do quais poucos conseguem alcançar. A maioria sequer chega parto, nem mesmo arranha essa possibilidade. Não falo de uma imortalidade física, mas a simbólica, a de passar por este mundo e ainda ser relembrado por todos os séculos seguintes. Algumas obras literárias realmente conseguiram esse feito. Drácula se tornou maior que seu criador e invadiu todos os formatos de mídia, inspirando a imaginação de outros artistas talentosos. Morro dos Ventos Uivantes ainda emociona tanto e é tão bem escrito que me faz lamentar o fato de ter sido o único romance que Emily Brontë escreveu. No século passado (se você tem mais de quinze anos deve se lembrar bem dele) talvez nenhum livro tenha conseguido romper as barreiras do tempo como On The Road. Um livro responsável por uma revolução cultural e que mesmo assim levou anos até alcançar a consagração máxima.

Tudo começou quando Jean-Louis Lebris de Kerouac começou a escrever um longo romance sobre os anos que passou na estrada. Fez tudo em apenas três semanas, entre 9 e 27 de abril de 1951, num rolo de papel de quarenta metros ininterruptos em espaço um sem parágrafo. Usando doses colossais de benzedrina e outras drogas, datilografou feito um maníaco, cerca de doze mil palavras catorze horas por dia.

O manuscrito era recusado por todas as editoras a que enviava, o que também aconteceria com seus cinco romances seguintes. Durante esse tempo reescreveria várias vezes On The Road e quando já pensava em desistir da carreira de escritor a Viking Press topou lançá-lo. Entretanto, não sem cobrar um caro preço antes. De cara, Kerouac teve que suprimir 120 páginas. Outras tantas, foram retiradas pela própria editora, que ainda tratou de incluir as vírgulas que Jack tanto considerava inúteis. Quando finalmente foi publicado, em 1957, On The Road estava mutilado até tal ponto que Kerouac nem o achava seu melhor trabalho.

Mas o livro não alcançou o sucesso da noite para o dia. On The Road, ironicamente, só conseguiu o sucesso graças a uma resenha no The New York Times, publicada no dia 4 de setembro de 1957. À meia-noite desse dia, Kerouac, que o famoso jornal publicaria um artigo sobre seu livro, foi esperar pela chegada dessa edição. Ao abrir o jornal, folhear nervosamente as páginas e encontrar o texto leu:

On The Road é um evento histórico, na medida em que o surgimento de uma genuína obra de arte concorre para desvendar o espírito de uma época.”

Ao ir dormir Kerouac deu o último adeus ao anonimato. Ao amanhecer era famoso em todo o país. On The Road foi considerado o manifesto da geração beat. A geração que rompia com o estilo de vida americano e objetivo de viver a vida até o limite. Numa sociedade consumista, onde os indivíduos eram esmagados por preocupações como emprego e o próximo carro a se comprar, os beatniks queriam uma consciência nova, livre de chavões e das exigências da sociedade. Eles se negavam a permanecer uma sociedade sem ação e sem liberdade para pensar. O mergulho em alucinógenos e outras drogas foi só um detalhe. O verdadeiro sentido do beat é que o indivíduo é sagrado, cada um com sua própria história, maneira de pensar e ver o mundo. Mas também estamos falando de uma revolução artística, que envolveu o cinema, a pintura, a música e, sobretudo, a literatura.

Após a crítica do Times, o romance se tornou um sucesso de público e vendas, mas não de crítica. Kerouac era tratado como um subliterato e On The Road tratado como uma brincadeira de adolescente, indigna de ser levada a sério. Os críticos simplesmente eram incapazes de considerar o livro como uma obra artística por causa do seu jeito livre e transgressor, deixando passar toda beleza lírica da sua prosa rápida. Porém, sem saber, acabavam fazendo ainda mais publicidade a On The Road.

Garotas e rapazes na América tem curtido momentos realmente tristes quando estão juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo, sem os devidos diálogos preliminares. Não me refiro a galanteios – mas sim um profundo diálogo de almas, porque a vida é sagrada e cada momento é precioso

Você não pode ensinar melodias a um velho maestro.

On The Road narra como Sal Paradise, alter-ego de Kerouac, conhece Dean Moriarty (Neal Cassady, na vida real), a pessoa que o arrastaria para o movimento beat e o inspiraria a atravessar o país inteiro de carro. Após sair do reformatório onde estava preso por ter roubado mais de quinhentos carros em um só e se corresponder por cartas com um amigo chamado Chad King Dean parte para Nova York. Seu intuito era só um: aprender a ser escritor. É com essa idéia que convence Sal a deixá-lo ficar hospedado algum tempo na sua casa. Sal sabia que ele o estava enrolando para conseguir habitação, comida e roupa lavada, e Dean sabia que ele sabia. Mas Dean fazia isso porque queria se envolver com as pessoas que, de outra forma, nunca lhe dariam a mínima atenção. Aos olhos dos outros era um doido, um maníaco. Gesticulava nervosamente, saltitava pelas ruas e fala excitadamente sobre tudo. Um doido apaixonado pela vida, capaz de se encantar com tudo e todos. Por pior que fosse sua situação para ele tudo sempre estava bem. As preocupações eram apenas uma saída inventada pelas pessoas pra continuarem se sentindo vivas.

Devemos ter em mente que nada está errado, tudo está absolutamente bem.

Prisão é o lugar onde você promete a si mesmo o direito de viver.

Sal começava a se contagiar pela loucura de Dean Moriarty, mesmo sem atinar direito com os motivos disto. Queria conhecê-lo melhor, não só porque como era um escritor necessitava de novas experiências, mas porque a simples forma dele falar já lhe trazia lembranças de tempos passados. Um irmão esquecido há muito tempo, as vozes de velhos conhecidos retornavam. Todos os seus amigos na época eram intelectuais, contudo a intelectualidade de Dean era mais espontânea e brilhante, jamais caindo na repetição e em conversas sacais. Enquanto seus conhecidos estavam numa fase de lutar contra o sistema, ele simplesmente mergulhava nela, faminto de pão e amor, as únicas com as quais se preocupava. Não estava nem aí desde que tivesse comida na mesa e uma garota por perto. É para reencontrá-lo que Sal finalmente põe o pé na estrada. Finalmente conheceria o Oeste. De ônibus ou de carona em carona, com apenas cinqüenta dólares no bolso.

“’Você quer dizer que acabaremos como velhos vagabundos?’
‘Por que não, cara? Claro que sim, se assim quisermos e tudo mais. Não há problema algum em acabar desse jeito. Basta você passar toda uma vida de não-interferência nos desejos dos outros, incluindo políticos e ricos, que então ninguém te incomoda e você segue em frente fazendo as coisas do seu jeito.’

Dean é como um grande mestre, uma pessoa que inspira às pessoas ao seu redor. Um cara que faz dos seus atos seus ensinamentos, a forma como vive a sua ideologia. Ele não pára pra pensar no que é certo ou errado, se o que faz é permitido ou é crime. Seu objetivo é seu bem-estar e diversão.

Mas não se deixe enganar. On The Road, embora tenha esse nome, não é sobre as viagens que os personagens fazem durante o livro. O verdadeiro tema do livro é um dos mais referentes à humanidade desde o seu surgimento. A amizade. A relação entre Sal Paradise e Dean Moriarty, que só se torna de fato amiga do narrador do meio para o fim. Juram serem amigos para sempre, acontecesse o que acontecesse. Mas que como tudo que é julgado eterno na vida precisa ter um fim.

On The Road é um relato por vezes detalhista. Cada carona é contada, cada amigo feito relembrado. Porém, Kerouac não fez de seu livro um mero relato de viagens. Com suas frases extensas, ele narra tudo com paixão e envolvimento. A forma como ele fala sobre os personagens ou simplesmente descreve uma paisagem é capaz de despertar no leitor emoções completamente diferentes, mas tão belas e perfeitas que não se tem dúvida que se está diante um livro eterno. Sua capacidade de prender o leitor se preserva intacta. Não é à toa que até hoje é um dos livros antigos mais procurados pelos leitores e ser dono do título de um dos livros mais roubados das livrarias até hoje. On The Road tem o poder de nos fazer encantar com coisas do cotidiano, como acontece com as crianças quando vêem algo novo. Um índio, o jeito como uma criança os olha, os policiais mexicanos, tudo. É sobre nunca perder o encanto da vida e aproveitá-la ao máximo sem nunca parar pra pensar nas conseqüências. É para aqueles que têm sede de viver.

Logo veio o crepúsculo, um crepúsculo cor-de-vinho, uma penumbra púrpura dispersa sobre arvoredos de tangerinas e extensas plantações de melão; o sol estava com a mesma cor das uvas esmagadas, misturado com Borgonha tinto, os campos possuíam a mesma tonalidade dos amores e mistérios espanhóis.

Mesmo com a riqueza de detalhes a narrativa de On The Road consegue ser rápida. Ela é como um carro a 200 km/H, uma metralhadora de palavras, uma atrás da outra.  As frases voam sob nossos olhos como as pessoas que vemos quando andamos de carro em alta velocidade. Várias páginas seguidas de um único parágrafo. É o tipo de romance que deve ser lido de uma vez só, para não perder o ritmo alucinado de Jack Kerouac. Tem que se mergulhar de verdade para apreciar a profusão de palavras, imagens, visões e descobertas.

Kerouac queria capturar a sonoridade das ruas e das estradas americanas. Assim, ele propunha um novo caminho à literatura americana, que ainda se prendia às formulas européias. O resultado foi o desenvolvimento de um estilo beat por excelência. Repleto de gírias e palavrões, espontâneo e informal, com uma sonoridade que possui uma rima interna, fazendo passagens parecerem longos poemas em forma de prosa. Um romance que de preferência deve ser lido em inglês e em voz alta, declamando.

Esses filhos da puta já inventaram o plástico e com ele poderiam fazer casas que durassem pra sempre. E os pneus? Os americanos se matam aos milhões todos os anos com pneus de borracha defeituosos que aquecem nas estradas e estouram. Eles poderiam fabricar pneus que jamais estourassem. Com a pasta de dente é a mesma coisa. Eles inventaram uma espécie de goma que não mostram a ninguém, uma goma que, quando mascada quando criança, a pessoa não teria uma única cárie até o fim dos seus dias. Com as roupas a história se repete. Eles poderiam fazer roupas que durassem pra sempre. Preferem fazer trapos. Preferem fazer trapos ordinários para que todo mundo continue trabalhando e batendo ponto e se organizando em sindicatos imbecis e aborrecendo enquanto a grande safadeza prossegue em Washington e Moscou.

Cada personagem tem maneirismos próprios e uma forma única de se comunicar. Mas isso não os impede de mudarem com o tempo, conforme as páginas avançam. Misturam-se sotaques, expressões locais e costumes. On The Road é como a vida real. Ninguém é igual à outra pessoa ou permanece sempre o mesmo.

O clima de transgressão está presente durante todo o livro. Os personagens se drogam livremente, cometem adultério, fazem pequenos furtos. O maior exemplo é Dean Moriarty, que chega a manter relações sexuais com duas mulheres diferentes durante o mesmo dia sem que elas tenham conhecimento disso. Com um enredo deste tipo logo grandes veículos de comunicação dos Estados Unidos, um país moralmente conservador, tenham se voltado contra Jack Kerouac e On The Road. A partir de então qualquer ato ilegal cometido por algum jovem logo seria relacionado a eles.

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, e de repente percebi que era apenas a erva que estávamos fumando. Ela me fazia pensar que tudo estava prestes a acontecer- aquele momento em que você sabe tudo e tudo fica decidido para a eternidade.

Que sensação é essa, quando você está se afastando das pessoas e elas retrocedem na planície até você ver o espectro delas se dissolvendo? – é o vasto mundo nos engolindo e é o adeus. Mas nos jogamos em frente, rumo à próxima aventura louca sob o céu.

Entretanto, não foi só o frescor libertário e o fôlego narrativo avassalador e lírico que fizeram On The Road ser considerado o retrato mais fiel e bem executado da sua geração. Foi a sua capacidade de inspirar. Até hoje, mais de quarenta anos depois do seu lançamento ele ainda desperta o desejo de arrumar a mochila e cair na estrada. Leva a repensarmos a forma como enxergamos a sociedade e a vida. Por isso não é de se surpreender que muitos fugiram de casa após lê-lo, como Bob Dylan fez, e Jim Morrison tenha resolvido fundar o The Doors. Milhares de cabeças foram influenciadas pelo livro. Sem Kerouac fica difícil imaginar as obras de Bukowski, Hunter Thompson, Gus Van Sant e Jim Morrison, só pra ficar em poucos exemplos.

Mas On The Road provavelmente não causou a revolução sozinho. Outros escritores e livros também tiveram um papel importante para isso. Allen Ginsberg lançaria o Uivo, tão importante para a poesia quanto On The Road foi para a prosa e até hoje o livro de poesia mais vendidos dos EUA. Burroughs e seu delírio drogado Almoço Nu, uma das primeiras entradas na literatura experimental. Ferlinghetti, que ao topar publicar poesia beat fez com que ela se tornasse um dos maiores marcos da poesia pós-guerra e impulsionasse a carreira de vários escritores talentosos. E porque não falar de Neal Cassady? Foi o estilo iletrado e ingênuo das cartas dele que inspirou Kerouac. Infelizmente, Cassidy não conseguiu realizar o sonho de ser escritor.

Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante – pop! – pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos ‘aaaaaah!’

Mas Kerouac não ficou exatamente contente com o sucesso. Ele queria escrever em prosa espontânea, como ele batizou sua técnica. Queria se expressar livremente, sem amarras e sem se preocupar com regras de pontuação, como na antiga escrita automática dos surrealistas. Assim, o livro refletiria sua forma de pensar. Seu próprio eu. Quando a resenha do Times saiu Kerouac ficou quase indignado, porque ao se submete às edições da editora sua prosa espontânea praticamente sumiu. Embora o livro lhe tendo trazido muito dinheiro e a oportunidade de lançar seus futuros romances como bem entendesse tudo o que lançou depois foi soterrado pelo furacão On The Road. Todas as resenhas de seus romances seguintes o comparavam desfavoravelmente à sua obra mais famosa. Sua própria imagem foi sugada. Para milhares de leitores, Jack Kerouac e Sal Paradise eram a mesma pessoa. Ou pior, alguns acreditavam que Kerouac fosse Dean Moriarty. Embora todos os personagens e acontecimentos da história sejam reais On The Road é um livro de ficção.

Ao longo dos anos, Jack abandonaria a imagem de rebelde, romperia com seus companheiros beats e condenaria a maconha e o LSD. Passaria o resto da vida odiando cada hippie, alcoólatra e se perguntando o que deu errado com On The Road. Morreu em 1947, aos 47 anos, de cirrose hepática, deixando um legado de mais de vinte livros de prosa e a participação definitiva na maior revolução do século XX.

Subitamente comecei a perceber que todo mundo na América é ladrão de nascença. Eu mesmo estava ficando contagiado. Comecei até a testar portas. Os outros tiras estavam ficando desconfiados da gente, eles viam nos nossos olhos, um instinto infalível os fazia pressentir o que passava por nossas cabeças.

Em 1997, quando a edição original de On The Road completou quarenta anos, Francis Coppola anunciou que iria produzir um filme sobre o livro, dirigido por Gus Van Sant e com Johnny Depp no papel de Sal Paradise. O filme, porém, nunca saiu. Uma pena. Agora finalmente o livro mais famoso da geração beat ganha as telas do cinema pelas mãos do brasileiro Walter Salles.

Atualmente, são poucos os escritores que tentam ir por um novo caminho, fazer uso de novas abordagens. A maioria prefere fazer como os autores dos Best Sellers da moda: recorrer à soluções já gastas e com retorno garantido. Isso quando não usam o tema da moda da vez, seja vampiros ou anjos, o que estiver vendendo bem. Jack Kerouac e seu esforço de criar uma literatura norte-americana nova, sem deixar de lado velhas tradições americanas, fazem falta. Além da capacidade de escrever livros únicos, ainda provou com louvor que em um tempo onde dividimos nossa atenção com várias mídias, a literatura ainda tem o poder de transformar o mundo. Quando pensar em liberdade de pensamento, liberação sexual e abertura literária, entre outras mudanças, lembre-se da Geração Beat e seus representantes, os grandes agentes da transformação. Um feito gigante como esse é muito, muito mais do que um escritor poderia inicialmente aspirar ser e que poucos escritores clássicos foram capazes de alcançar.

Autor: Jack Kerouac

Páginas: 384

Preço: 21,00 R$

Nota: 9,0

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Atrapalhado, paranóico, assíduo falante, leitor e cinéfilo voraz, teve desde muito novo os livros e os filmes como grandes companheiros da sua vida. Graças a eles desbravou novos mundos e universos, venceu batalhas e guerras e conheceu pessoas e povos de diferentes tempos. Tem como seus maiores ídolos Louis Ferdinand Céline, Machado de Assis, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Um dia pretende concluir seu próprio livro. Enquanto isso não acontece, escreve críticas literárias na Mob Ground. @MuriloAndrade Facebook

2 COMENTÁRIOS

  1. Provavelmente erro de digitação: Jack Kerouac morreu em 21 de outubro de 1969 e não em 1947 como consta no texto.

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