“São quase três horas andando em uma estrada entre Botucatu e lugar nenhum. Mato seco em ambos os lados e o posto mais próximo está há pelo menos mais seis horas de caminhada. Sua água já acabou e seus lanches também. Uma torneira na entrada de um futuro empreendimento imobiliário proporciona mais um pouco de água. Dormir em algum canto à beira da estrada passa de possibilidade desesperada à opção bem plausível. Filhos da puta passam por você buzinando e rindo, mas nenhum para dar carona. Quando foi que passamos a ficar tão desconfiados uns dos outros? Então um treminhão para no acostamento por causa de um pneu furado e surge uma esperança de conseguir uma carona…”

É extremamente difícil para mim analisar o mais novo filme de Walter Salles somente pela película em si. Ainda mais na situação em que me encontro agora. Acabei de chegar e casa após ver o filme. Estou bêbado e continuo bebendo durante a produção deste texto. Saí do cinema e fui beber em plena Rua Augusta em companhia de um contador que atua como clown em hospitais, de um diretor/produtor de cinema gay e de uma atriz de teatro recém-formada e deslumbrada, sem saber do monte de merda que a aguarda. Jack Kerouac é um dos meus escritores favoritos e On the Road só não fodeu minha cabeça porque quando li o livro já tinha feito mais da metade das merdas que rolam ali. Tudo bem que Vagabundos iluminados fez um puta estrago depois, mas não é esse o foco agora, certo? A questão é que o filme Na estrada, baseado na obra de Kerouac traz uma gama infinita de lembranças alteradas pelo excesso de bebida, drogas e sexo e… bem, isso me fez gostar do livro e do filme.

“Está chovendo pra caralho e estou dentro de um carro em algum lugar entre São Bernardo e São Paulo. Dirigindo ao meu lado está um ator pornô chapado de whisky e maconha. No banco de trás tem um moleque de 18 anos balbuciando ‘on the road… on the road’ o tempo todo, com uma guria desmaiada no colo dele. Acabamos de sair de um show cover do Raul Seixas. Vemos uma placa escrito ‘Mooca’ e a acompanhamos. De repente, estamos na Rodoviária do Tietê. Resolvemos descer ali mesmo. Tomara que o motorista chegue vivo em casa”.

Sua vida teve um grande clímax e acabou depois disso? Se está lendo este texto, é óbvio que não. Na estrada aborda pura e simplesmente um período da vida de Sal Paradise, aspirante a escritor que conheceu Dean Moriarty, se encantou com ele e passou alguns anos de sua vida em sua companhia viajando pelos Estados Unidos. Está aí o filme inteiro. Isso pode ser a coisa mais foda de toda a sua vida. Ou pode ser um monte de bosta e tempo perdido. Vai depender de como encara tudo isso ao fim da jornada. É um momento onde não existe amanhã. Tudo o que importa é aproveitar a vida agora ao máximo. E se emprego, casamento, filhos e amigos estão te atrapalhando… Bem, fodam-se eles. O que importa é aproveitar. Não há futuro para se preocupar. Ao acordar, há um novo agora e isto deve ser aproveitado e celebrado. É lindo? É idiotice?

“As meninas saíram para comprar cerveja e estou trancado no apartamento com mais dois caras. Bêbado e cheirado, a única coisa que quero é comer loucamente uma delas enquanto acabamos de escrever a ideia de uma ópera-rock que tivemos antes do whisky acabar. Duas meninas e três caras. Nenhuma delas topou brincar a três e o sujeito que sobrou está puto. Ando de um lado para outro da sala tentando consertar a situação, até porque a guria que ele queria literalmente pulou em cima de mim e não me restou opção a não ser corresponder. Mentira. Eu poderia ter negado, mas estava pouco me fodendo pra ele. Mas elas haviam levado as chaves e eu andava de um lado para outro da sala fumando e virando copos vazios em busca de uma gota de bebida e me desculpava por algo que realmente não era culpa minha e não estava ajudando em nada. Elas voltaram, despejaram cervejas geladas em cima da mesa e fui abduzido para um dos quartos”.

Impossível ver Dean Moriarty seminu, vestindo apenas um roupão e não lembrar de Tyler Durden. Mas o primeiro realmente existiu, não é simples fruto de ficção. Longe de mim achar que as impressões da Sal Paradise correspondem à realidade, mas é o que ele viu. É o que ele sentiu. E nos mostra a ascensão e queda do seu ídolo. Não é bonito. Não é o ideal. Não é mágico. Mas você não faz o que Moriarty faz e fica impune. E não é preciso chegar ao Paraíso ou ao Inferno para perceber isso. É um filme de pessoas comuns que resolveram aproveitar e pagaram por isso. E o que você fez da sua vida ou tem vontade de fazer é que vai determinar sua impressão sobre a obra, seja no papel ou em película. O filme honra o livro sem fazer julgamento. Seja nas atuações, na fotografia, na trilha sonora, o que interessa está ali. Claro que falta muita coisa em relação ao texto. Sempre falta. Mas você vai sentir tesão pela Kristen Stweart e isso vai foder sua cabeça por um bom tempo. Citando Dean Moruarty: “Deus é um ser inescrupuloso”. Convivam com isso.

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No Comments

  1. Gabriel Dread

    13 de julho de 2012 at 17:27

    Foda… simplesmente foda… o livro, o filme (imagino, pois ainda não chegou aqui nos confins da Bahia) e o resenhista… Orgulho de ser seu amigo! Mas pra garantir, vou manter distância pra não acabar nessas roubadas da vida com você…

    Reply

  2. Thiago Chaves

    13 de julho de 2012 at 20:24

    Baita texto rapaz, parabéns!

    Mas não vejo nada de anormal achar a Kristen Stweart atraente, oras.

    Reply

  3. […] originalmente no Mob Ground em […]

    Reply

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