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Semântica, Matemática e a Lógica em “Os Assassinatos da Rua Morgue de Edgar Allan Poe”.

A semântica desempenha um grande e importante papel nas obras de Poe. Como se pode perceber, por meio de uma leitura atenta dos textos dele, e mergulhando neles tão como o faria um explorador, de modo a descobrir as sutilezas da trama discursiva, em sua narração, palavras, sons e imagens são índices do que está por vir na história.

Dando uma olhada mais de perto no título: “Morgue” significa, em francês, mortuário – e “morgue” é também usado, em inglês, para designar aquela construção em que corpos mortos de pessoas desconhecidas são mantidas até que se descubra quem são, até o momento de seu funeral. Ao buscar significados desta única palavra – a primeira chave para o entendimento/compreensão do texto -, em um dicionário, descobrimos que também quer dizer “um lugar desconfortável, sem vida”. A Rua Morgue tem um significado simbólico que agora salta aos olhos de um detetive atento: a associação entre o lugar e as ações. Devemos observar que, pela descrição apresentada pelo autor, que o local era, na verdade, um “lugar desconfortável e sem vida”. Era considerada uma das mais miseráveis alamedas entre a Rua Richelieu e a Rua St. Roch. Podemos supor que o trabalho recebido por este “detetive-leitor” não é o de descobrir quem era o assassino (ou quem eram eles), mas sim de descobrir a correlação entre os sinais verbais na história composta e a história em si. Sigamos em frente.

O detetive na história de Edgar Allan Poe é Auguste Dupin, um homem que é descrito como tendo uma imaginação extremamente vívida, uma grande capacidade analítica e um algo excêntrico. Uma de suas excentricidades é a paixão dele pela noite. E a noite é escura. Deveríamos também dizer que cada um de nós tem um lado negro em nossos âmagos. O lado criminal é um lado negro na natureza humana. O tipo de comportamento observado em August (francês para “augusto”, “majestoso”) Dupin pode nos levar à conclusão de que sua paixão pela noite pode ser associada a sua paixão pelo escuro. E então? Podemos concluir que ele gosta de lidar com coisas tais intimamente conectadas ao lado negro de nossa condição humana. E podemos supor ainda que lhe dá uma grande alegria a sua natureza excêntrica descobrir as respostas que parecem intocáveis às mãos (e mentes) das pessoas comuns.

Podemos ir mais além, admitindo que Auguste Dupin é uma espécie de alter-ego deste mestre do pensamento, Edgar Allan Poe, simplesmente lembrando que a surpreendente inteligência deste autor, seu raciocínio lógico levam-no não somente a elaborar intricados contos policiais, como também a resolver um crime real, na literatura: com base no assassinato de Mary Cecilia Rogers, que deixou perplexa a polícia de Nova York, Poe decidiu escrever O Mistério de Marie Rogêt, em 1842, e, por meio da formulação de hipóteses e deduções, ele deu à história um final que, depois disso, foi confirmado como sendo a resolução para o enigma que envolvia a morte da jovem nova-iorquina. Tal como Édipo em face ao enigma proposto pela Esfinge, Edgar Allan Poe conduziu todo seu raciocínio para dissolver os nós e decifrar o enigma do assassinato da jovem mulher.

Voltando aos “Assassinatos da Rua Morgue”…

Nesta introdução à história de tais assassinatos, o autor apresenta sua forma de explicar a diferença entre fantasia e imaginação, assim como os elos de ambos com a Mente Humana. Bem, não posso evitar a lembrança de uma citação de Gabriel García Marques, que diz que “a diferença entre [fantasia e imaginação] é a mesma que existe entre um ser humano e um boneco de ventríloquo”.

Comparando as definições por parte dos dois autores, temos o seguinte:

Fantasia à         homem engenhoso à                 boneco do ventríloquo

                               (Poe)                                                   (Marques)

Imaginação à                  analista                à           ser humano

                                               (Poe)                                    (Marques)

Para Boileau Narcejac, mencionado no ensaio anterior, o “roman noir”, como é geralmente seu propósito, é uma ficção, um jogo da imaginação que serve, em si, para o prazer dos processos fundamentais da razão / mente / sentido. Reflete o espírito humano em batalha com um mundo “morgue”, isto é, um local triste, desconfortável e sem vida, sem cores.

De acordo com Narcejac, as duas principais características do ‘roman noir’ são o medo em face ao desconhecido e o deslumbre causado pela resolução do enigma. Podemos afirmar que estas características são muito claras em Os Assassinatos da Rua Morgue – primeiramente, a reação de estupefação de muitas pessoas, e até mesmo da polícia, causada por um mistério que parecia absolutamente insolúvel; em segundo lugar, a descoberta perturbadora fazendo com que todos ficassem pasmos. Dupin seguiu os passos lógicos dos acontecimentos com o fio condutor de seu raciocínio.

A seguir, os passos do raciocínio de Dupin:

a)     as maneiras possíveis de escapar do assassino (ou dos assassinos);

b)     de que maneira o assassino foi bem sucedido em descer as escadas até o térreo;

c)      o motivo, se realmente havia algum.

X + Y +  Z à voz estranha / sons estranhos + energia incomum necessária para deixar a casa+ falta de motivos

A precisão matemática da mente de Dupin levou-o ao caminho certo: empurrou ele o véu do mistério e desvelou-o para os outros, com grande prazer e com grande alegria ao mostrar a incapacidade da polícia de descobrir a verdade.

Poderíamos ilustrar isso com uma equação matemática:

Fa à Fantasia

In à Inventividade

BV à Boneco do Ventríloquo

Im à Imaginação

An à Análise

SH à Ser Humano

                               D à Dupin

                               P à Polícia

(Fa + In) = P = BV

(Im + An) = D = SH

Sigamos em frente seguindo os passos de Dupin. Ele acha estranho que haja cabelo nos dedos de Mma. L’Espanaye. Pensa em quem poderia ter realizado tal barbárie. Chega à conclusão de que não poderia ter sido ninguém além de um animal para fazer aquilo. Ao encontrar a última pista, a fita, ele, por fim, conectou todos os pontos que tinha em mente. Em seguida, elaborou um plano e chegou à corroboração de suas deduções.

De acordo com François Fosca, o analista nunca adivinha. Ele observa e raciocina. Assim o faz Dupin.

Em Dupin se encaixa o arquétipo do detetive, um indivíduo sempre vivendo na berlinda, excêntrico, cheio de caprichos e manias, e um solteirão. Extremamente cerebral, ele parece incapaz de amar. Ele é o homem que compreende para os outros – SUA MISSÃO NA TERRA.

(Texto original – 1994 – inalterado)

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2 COMENTÁRIOS

  1. Agora coloquei fé na Mob Ground, gente!
    Tragam sempre textos da Ana pra cá, são todos de uma qualidade incrível! =) Sou fã.
    O que eu sempre fico pensando quando leio análises assim é: será que quem escreveu o texto pensou em todas essas nuances ou somos nós quem criamos essas teorias da conspiração?
    A descrição do arquétipo de detetive “excêntrico, cheio de caprichos e manias, e um solteirão” é bem precisa, conheço outro que se encaixa nela perfeitamente: Hercule Poirot!
    Mais um autor clássico que ainda tenho que ler.

  2. =

    Opa, uma resenha do meu autor morto favorito ( até hoje )
    Não sou especialista em Allan Poe… mas adoro os contos dele… é quase inacreditável, o modo como ele nos transporta pro universo da história .

    Concordo com a Joelma, tragam mais textos da Ana heheh… já to virando fã dela. E me faço sempre essa pergunta sobre as conspirações e métricas dos textos… se são os autores ou nós que criamos elas.

    Muito bem, parabéns… excelente análise *—-*
    e post mais menina.

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