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Os Invisíveis – Revolução (2014)
Originalmente publicado: The Invisibles 1 – 7, Vol. 1 (1994-95)
Grant Morrison – Roteiro
Steve Yeowell, Jill Thompson, Duncan Fregedo e Dennis Cramer – Arte
Editora: Panini Comics / DC Comics – Vertigo
Preço de Capa: R$ 25,90
Número de Páginas: 236

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O que é um gibi? Tenho certeza de que qualquer leitor de quadrinhos pode rapidamente tentar articular uma resposta, já que por vezes nos parece um tanto óbvio uma pergunta assim. Entretanto, após o ímpeto acelerado de afirmar propriedade sobre uma banalidade, pode ser que o sujeito perceba que qualquer resposta para essa simples pergunta é insuficiente. Discutir sobre “o que é um gibi” pode ser tão prolixo quanto uma arguição sobre “o que é uma obra de arte”. Responder estas questões não é o objetivo deste texto, mas seria interessante tê-las – as questões – como pano de fundo. Isto se dá, porque ao ler Os Invisíveis – Revolução, por diversas vezes me questionei: “isso é um gibi?”.

Sem dúvida, é uma história em quadrinhos. A narrativa acontece através da arte gráfica e quadros sequenciais justapostos com balões que representam os diálogos entre os personagens. Mas o roteiro em seu aspecto formal, definitivamente é um busílis por de trás do produto. Todo mundo já está “careca” de saber que os trabalhos de Grant Morrison possuem um determinado estilo e uma forma recorrente. Independente de onde o roteirista se envolve (Batman, Homem-Aranha, Homem-Animal ou trabalhos autorais), um bom aproveitamento de leitura exige certos conhecimentos a priori do leitor. Os Invisíveis não é uma obra que qualquer pessoa possa apreciar e fazendo com que seja um produto problemático. Não seria “gibi” exatamente um material acessível e simples com o objetivo de distrair e entreter? Uma coisa é certa, a leitura da obra dá trabalho.

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A estória centraliza-se na figura de Dane McGowan e é divida em quatro partes: Beatles Mortos; Na Pior entre o Céu e o Inferno; Interlúdio; e Arcádia. Porém, apenas entendi a estória quando estava lendo a última parte. Dane um “rebelde sem causa” acaba por assassinar um professor em um de seus “atos de resistência”, sendo preso em uma instituição. Acontece que a personagem além de frequentemente ter visões de pessoas mortas e aparições demoníacas, também está na mira de um grupo chamado “invisíveis”. A parte dois “Na pior entre o Céu e o Inferno” aborda exatamente o período em que Dane é treinado por Tom O´Bedlam, um membro dos “invisíveis” à libertar-se de suas amarras carnais, além de relembrar de um passado possível em que Dane havia sido abduzido por alienígenas. O leitor pode muito bem acompanhar este percurso narrativo sem dificuldades, mas não irá tirar proveito do que talvez seja o que Grant Morrison tenha de melhor para oferecer: as referências.

Por exemplo, meu conhecimento prévio da novela 120 dias de Sodoma e sobre o Marquês de Sade, proporcionou uma ressignificação no capítulo quatro de tudo que havia lido até então. Em contrapartida, por não conhecer tão bem a história de Lord Byron e de Mary Shelley, senti não ter conseguido aproveitar por completo suas aparições na estória. O que quero dizer é que roteiro de Os Invisíveis depende destas referências, talvez em excesso. Isto me levou a pensar de que o projeto seja muito ambicioso por parte de Morrison. Outro exemplo seria o momento em que Dane vê John Lennon e Stuart Sutcliffe conversando sobre a saída do baixista da banda (The Beatles). Um leitor comum reconhece a figura de Lennon na cena, mas Sutcliffe já é outra história. Porém, Morrison exige demais do leitor, já que a maneira como Dane assassina seu professor algumas páginas à frente é uma referência ao suposto assassinato de Sutcliffe – com um chute na cabeça. Fora isso, King Mob (membro dos invisíveis) busca um escaravelho (beatle em inglês) egípcio mumificado para realizar um ritual com LSD, como objetivo de consultar-se com a divindade cabeça – John Lennon. Eu não conhecia a história de Sutcliffe, precisei ir atrás das referências para sacar o que estava acontecendo no enredo. Trata-se de uma profusão de referências internas e externas que bagunçam a compreensão.

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No universo de Os Invisíveis uma batalha entre o bem e mal é travada dia-a-dia sob o véu apático do cotidiano – nada de estupendamente novo. O grupo denominado “os invisíveis” se insere neste contexto, como uma organização que atua à luz do dia sem serem vistos. Trata-se de um grupo de resistência, integrado por pessoas “esclarecidas” ou “acordadas”: Boy, Lord Fanny, Ragged Robin, King Mob e o próprio Tom O’Bedlam. Os “invisíveis” atuam como uma organização anarco-terrorista que tem por objetivo derrubar a opressão de seres demoníacos que controlam a vida dos humanos. Trata-se de uma estória sobre a tensão entre Ordem e Caos, partindo do pressuposto de que o Caos – representado pelos “invisíveis” – formaliza a única saída possível para a dominação e extirpação da liberdade. O que é mais intrigante nas ideias de Morrison é o argumento de que esta guerra é atemporal e não espacial. Liberando os personagens para circularem entre momentos históricos ou ficcionais.

Piegas, clichê, saturado, idealista e pós-moderno. De fato, Os Invisíveis padece de todas estas qualificações. Entretanto, há algumas questões postuladas pela estória que me produziram certos desconcertos que são dignos de nota. Mastigando com dificuldade as páginas repletas de déjà vu e referências malucas, deparei-me com investidas diretas ao leitor no roteiro. Há um pequeno prólogo na parte quatro (Arcádia), aparentemente simples. King Moby assiste a um teatro de marionetes hindu sobre a rivalidade de Arjuna e Duryudana. Um sujeito diz que a função do “marionetista” é a de simular uma guerra, ou seja, a arte em si é a de fazer o espectador ver uma guerra que não existe. No fundo só existe o teatro. Com este proposta inquisitiva, percebi que estava lendo Os Invisíveis com olhos críticos de quem sabe que estas coisas não existem e são impossíveis. Quando na verdade o que existe mesmo é só o quadrinho e não o universo criado por Grant Morrison. Pode ser considerado um “gibi” no sentido de que é SÓ uma estória entre a ordem e caos, não precisa ter nada além. As referências são só uma forma, só uma “nóia” e não o seu conteúdo. E isso parece frustrar muito o leitor de quadrinhos atual.

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Como não se identificar com King Mob durante o Interlúdio, no qual as respostas estão bem à sua frente, mas ainda se é impossível percebe-la. O segredo é sustentar a posição angustiante de não-saber e esperar o sinal (sigil), que irá apenas te oferecer a base para uma interpretação. Não é um processo passivo, mas ativo que demanda tempo. O Interlúdio é a estória mais interessante do volume e conta com a arte de Ducan Fregedo. Sem excesso de definições no traçado e com páginas um pouco mais poluídas a narrativa está bem harmonizada com os desenhos. As artes variam, porém as transições entre os artistas são muito sutis, ou seja, demandam um ímpeto para diferencia-las. Isto talvez ocorra pela densidade do roteiro que exige uma concentração acentuada, desviando o leitor da percepção imagética.

Em resumo, trata-se de uma obra que demanda trabalho e abertura para poder ser considerada um “gibi”. Isso pode fazer com que muitas pessoas pirem no gozo racionalista de Morrison, enquanto outros vão simplesmente odiar a sensação de não apreensão provocada pelo estilo. A arte em si não é de se chamar irrevogavelmente a atenção. Em minha opinião, me parece ser um projeto bastante ambicioso de Grant Morrison e bastante autobiográfico, no sentido de explorar “coisas” que ele gosta, na expectativa de que o leitor ativamente busque compartilhar das preferências do roteirista. Vale ressaltar que estou falando só do primeiro volume, e ainda valerá um texto sobre os próximos como soma. Sendo assim, veremos o que vem por aí!

HQ gentilmente cedida pela nossa loja parceira Comix Book Shop.

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Diego é Psicólogo, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Colabora no site com textos sobre Cinema e Psicologia. É autor das pequisas: “Filmes de Terror e Psicanálise: Um esboço sobre os mecanismos psíquicos subjacentes a espectadores” e "Zumbis: O Discurso Inconsciente em um Fenômeno Social", ambas realizadas na PUC-SP.

2 COMENTÁRIOS

  1. Um texto bem construído, mas cai em um erro conceitual: gibi é uma plataforma de comunicação tão ampla quando uma série ou um filme ou uma música. O teor da história contada dentro dele não é o que determina se é um gibi ou não, mas sim a plataforma onde é contado.

    Se é uma história em quadrinhos, é gibi, pouco importando se são super-heróis, terror, fantasia ou o que for.

    Tenho mais alguns comentários sobre a sua interpretação da história em si, mas farei com calma mais tarde.

    Abraços!

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