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Vão tirar fotos? Não? Ok, vou tirar o capuz. Mas se eu acabar na capa de algum jornal, vocês estão ferrados na minha pata. Ah, desligue o celular também, por favor. Eu sei muito bem o que se pode fazer com um celular com GPS. Pronto? Epa!? Que luzinha piscante é essa? Ah, o gravador? Só áudio? Tudo bem. Áudio pode, desde que façam aquela coisa de distorcer, sabe, da TV? Agora estamos prontos né? Deixa eu tirar o capuz aqui, só um momento…

Beleza. Vamos começar? Meu nome é M. P. Furo. Sou um criminoso da mais alta classe. A razão dessa entrevista? Eu também simpatizo com aqueles outros animais que deram seus depoimentos aqui, até com o primeiro, do cachorro com a arma, lembra? Pois é. O cara disse que o cachorro era seu melhor amigo. Eu não sou melhor amigo de ninguém, tá ouvindo? Sou um furão. Me chamam de ferret, de bichinho engraçadinho, de tudo quanto é nome. Já me confundiram com lontra e com rato, mas cacete, sou um furão. Enxergo no escuro, sou flexível, tenho dedos ágeis e pés ligeiros. Só não tinha um dono muito divertido.

Logo que eu cresci e aprendi a entender vi que meu, err, dono, hmm… odeio chamar vocês humanos de donos, sabe? Mas enfim, descobri que ele era um moleque de doze anos. Eu, no topo da minha juventude, algo relacionado aos 25 anos humanos, não queria continuar sendo cuidado por um pirralho, né? Mas eu gostava do menino. Ele cuidava bem de mim. Quem eu odiava eram os pais dele. Dois idiotas, velhos de classe média pensando que estavam na novela da televisão. O cara comprou um carro novo em sessenta prestações e negou um videogame pro menino. E nem era de última geração. E foi assim que eu entrei nesse mundo criminoso.

Não foi difícil entrar na loja. A janela do banheiro estava encostada e realmente era muito pequena para um humano. Para um humano. Me contorci e consegui entrar. Rapidamente saí do cubículo e fui direto aos eletrônicos. Peguei logo duas caixas, uma com cada console do ano. Em menos de duas horas estava subindo na árvore que dava na janela do Marquinhos quando ouvi as sirenes. Consegui descer da árvore em um pulo e me escondi no quintal. A polícia entrou na casa deles, revistou tudo e, por sorte, não encontrou as duas caixas apoiadas na copa da árvore. Quase ferrei tudo. Os policiais chegaram com um computador e entraram na sala. Eu me esgueirei até a janela e vi o vídeo que mostrava euzinho da silva roubando os videogames. A câmera da frente me mostrou saindo com as caixas. Como chegaram até minha casa? Não sei, só sei que era hora de ir embora dali. Não ia trazer mais problemas pro meu dono. Depois de um mês fui preso — não é fácil se esconder quando se é um furão. Como não havia legislação, me soltaram. Essa foi a última vez que vi Marquinhos. O pai dele quis tomar satisfações comigo sobre minha atitude. Não briguei com o cara na frente do menino, mas também não falei nada. Saí como culpado e nunca mais voltei.

Desde então esse capuz é o meu melhor amigo e outros animais crescidos tem me ajudado. Infelizmente o crime é nossa resposta e a falta de leis que auxiliam a nossa integração social não nos dá outra escolha. Nós já roubamos inúmeras vezes mas nunca matamos ninguém. Pra não mentir, sequestramos uma vez só, mas nunca mais faremos isso. Abandonamos nossos nomes antigos e seguimos com alcunhas genéricas, do mesmo jeito que a humanidade nos trata. Não adianta me empurrar pra um emprego onde se trabalha doze horas por dia e se ganha miseravelmente. Se vocês, humanos, se acostumaram com isso, nós não precisamos fazer o mesmo. Não seremos tratados assim. Somos animais, mas não sou mais Pestinha, o furão do Marquinhos. Agora sou Mastela Pustorius Furo e minha profissão é o crime.

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