O Amor é facilmente o tema mais retratado em todas as mídias. Onde tem arte tem amor, tem sofrimento, tem a perda, tudo consequência do primeiro. Por mais incompreensível que sejam nossas emoções (apenas substratos descartáveis da evolução? Acho que não), elas nos guiam através dos séculos, e não adianta toneladas de pesquisas que nos dizem que emoção é algo que deveríamos deixar para trás, elas estão lá para nos tornar quem somos.

Paciência é mais um tijolo nessa lenta construção de nossa compreensão do Amor. Um tipo de romance psicodélico sci-fi com viagens no tempo, pessoas reprováveis e o Amor que encontra do outro lado do espectro as emoções mais cruéis e assustadoras. É do Daniel Clowes, então tem uma arte ótima e material humano do tipo que transborda em cada quadro.

Jack Barlow é um sujeito sem grana, frustrado e sem capacidade de arrumar um emprego que não seja para ex-detentos. Seria um típico suicida esquecível americano se não fosse seu amor por Paciência, a esposa que ele não conhece muito bem o passado, mas sabe que ama mais que a si próprio. Paciência é o fio social que mantém Barlow vivo e essa ligação quase espiritual através do amor é o grande tema desse gibi tão simples quanto belo.

Um dia em que pretende se abrir a ela e revelar o próprio fracasso, Jack a encontra morta, grávida, e o crime o torna obcecado por investigar o assassinato, até que anos depois descobre um sujeito que criou uma máquina do tempo e decide impedir a morte da mulher. A partir daí acompanhamos uma jornada não apenas pela busca por justiça, mas de um sujeito que descobre o passado da mulher, coisas sobre ele próprio, sobre o Amor, e o que une toda a humanidade.

A mistura entre noir e psicodelia é um dos pontos altos da série. A arte é uma maravilha: cores estouradas, personagens expressivos, sempre muito putos ou felizes, além de uma série de referências ao fundo. Os diálogos acompanham: são rasos na medida certa, fogo rápido, sem rodeios ou existencialismo, porque existencialismo está impregnado na obra inteira e o autor faz questão de deixar isso claro, uma vez que concentra nas narrações em off a profundidade da obra. Tudo porque Barlow é um tipo de sujeito que parece odiar a si próprio e condena a própria existência. É possível reparar isso bem nos balões que ficam fora do quadro e nos impedem de ler por completo, o que dá um de claustrofobia na jornada dele. Ele não é o herói típico das narrativas sci-fi existencialistas e não dá nem pra dizer que ele se parece com os leitores, pois está sempre um degrau abaixo, com sua auto-estima destruída e condenado à miséria.

Dualidade é outra palavra importante aqui. Jack não é um herói incorruptível, mas um sujeito cheio de defeitos que reconhece que a única coisa boa que fez foi amar Paciência. Por isso sua jornada em busca do passado e da própria essência de si mesmo o torna grandioso, aos poucos. A grandiosidade de Jack vem quando o chão rui sobre seus pés, ao longo das décadas, quando sua musa perfeita vai sendo desconstruída, nem assim seu amor por ela diminuí, e isso ocorre não apenas por ele não ter outras opções de vida, mas por amar ser a própria essência de sua vida um tanto miserável.

Barlow é um tipo de sobrevivente, mais ou menos como todos nós. Sua grande diferença é que ele está despido de quaisquer distrações acerca da vida cotidiana e se tornou focado apenas em suas obsessões. Todos nós a temos, mas a vida cotidiana (felizmente) nos afasta dela o máximo possível. É essa dicotomia entre abandonar suas próprias esperanças, aliado ao medo de simplesmente foder tudo que torna Jack um grande personagem, por ser um tipo frágil, mas pronto para se entregar por completo frente a um objetivo tão arriscado quanto impossível (as chances dele foder tudo são maiores do que consertar).

Felizmente (para reclamação de alguns), Daniel Clowes aposta numa vitória do Amor. Uns críticos por aí consideram brega a forma como ele amarra tudo, mas é nesse aspecto que esse gibi se mostra grandioso. Todos nós amamos histórias de amor, mesmo que não as conseguimos vivenciar ou mesmo testemunhar. Paciência é uma mostra de que elas existem, não importa quão longe precisemos ir para entender isso.

Paciência

Autor: Daniel Clowes

Editora: Nemo

Páginas: 180

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