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Fonte: https://www.flickr.com/photos/rafaelgrampa/

O ano é 2008. Rafael Grampá lança a graphic novel intitulada Mesmo Delivery. A obra é praticamente endeusada pela crítica especializada, seja ela nacional ou internacional. O sucesso é certo. Novos gibis a vista.

Estamos em 2014. Rafael Grampá desenhou apenas TRÊS histórias de oito páginas em seis anos. Uma do Hellblazer, outra do Wolverine e por último uma do Batman. 2009, 2010 e 2013 respectivamente.

5É muito pouco para alguém que tem um hype tão grande em volta. Afinal de contas, como tudo isso começou?

Grampá trabalhava com publicidade antes de ingressar no mundo dos quadrinhos em 2005, com a história The Lao’s Family Fish Market, da coletânea Gunned Down, de uma pequena editora americana, a Terra Major. Junto dele participaram outros diversos artistas brasileiros, entre eles os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá.

A amizade com os roteiristas e desenhistas moradores da Vila Madalena deu resultado. Em 2007, com os irmãos, a quadrinhista americana Becky Cloonan e o grego Vasilis Lolos, lançou a antologia 5, que rendeu ao grupo o prêmio Eisner, o Oscar dos quadrinhos americanos.

O caminho estava pavimentado para que Grampá fosse mais reconhecido no mundo das HQs. E no ano seguinte veio Mesmo Delivery. O gibi conta a “história” (deixo aqui as aspas porque o gibi NÃO TEM história direito) de Rufo, um caminhoneiro que deve entregar um conteúdo que ele não tem a menor idéia do que seja. Ele se envolve em uma briga e acaba apanhando. Quando acorda se envolve em mais confusão.

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A HQ conta com uma belíssima arte, pois se tem uma coisa que o Grampá sabe fazer é desenhar, mas é vazia. A história que conta com menos de 50 páginas é coisa pra gringo ver e bater palma. Basta analisar friamente a obra: a trama se passa em um clima tipicamente americano, além de ser recheada de referências pop culturais da terra do Tio Sam: Elvis Presley, Shazam, Conan, Superman, Shazam, tá tudo lá.

Quando o gibi começa a ganhar fôlego o que vem a seguir é uma sequência basicamente de storyboards (provavelmente o autor já estava pensando em vender a obra para o cinema, e ele tá mais do que certo em fazer isso) cheia de ação e sangue. E aí o cara manda bem nessas cenas, com um uso interessante de onomatopeias e um traço cinético.

Você termina de ler tudo em menos de, sei lá, 10 minutos. Coisa pra ler no banheiro mesmo.


Mas é muito pouco. Grampá sabe desenhar, mas roteirizar não é o seu forte. Porém ninguém percebeu (ou não quiseram perceber) isso e o autor foi elevado  a um patamar de novo gênio das HQs, do mesmo panteão de nomes como Paul Pope, Mike Mignola entre outros.

No ano seguinte ele desenhou uma de John Constantine na edição comemorativa, a de número #250 do personagem. Recebeu os elogios de sempre. E ainda conseguiu a façanha de ser um dos 100 brasileiros mais influentes  de 2009 de acordo com a Revista Época. Nas palavras de Fábio Moon: “Hoje ele é o porta-bandeira do novo quadrinho nacional. Muitos olhos estão voltados para ele. Ele fez uma vez e agora esperamos que faça de novo”.

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Em 2010 foi à vez de fazer uma história do Wolveirne para a antologia Strange Tales II, da Marvel. Em 8 páginas, Grampá transforma o personagem em um viciado em dor, arrancando elogios de críticos importantes como Timothy Callahan do CBR, que afirmou que essa é a melhor história do Wolverine de todos os tempos.


Ainda no mesmo ano veio o anúncio de que sairia aquela que é a HQ mais próxima do Chinese Democracy – entendedores…entenderam – até o momento: Furry Water and The Sons of The Insurrection, roteirizada por Daniel Pellizzari. Era pra ter saído em 2010. Não saiu.

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Em 2011 não teve nada, só algumas capas. 2012 também. Furry Water virou lenda.

2013 reservou uma história do Batman só pra desbaratinar. E também uma bela estátua do personagem que ele desenhou.

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O hype foi diminuindo consideravelmente. Nisso, Grampá decidiu voltar para as suas raízes publicitárias e fez duas belas animações, uma para a Nike (aquela animação do David Luiz – Nike Football: Dare to be Brasilian) e outra pra Absolut (inclusive assinando a criação e direção do filme Dark Noir, além de uma edição especial da bebida).

Nessas duas animações Grampá mandou bem demais. Talvez esse seja o caminho que ele deva percorrer, pois nas HQs o hype criado não foi justificado. O negócio é ganhar dinheiro nas animações e storyboards da vida.

O brasileiro que fez uma vez e que esperamos que faça de novo não aconteceu. Com Furry Water isso pode acontecer. É possível.

Talvez ele precise de mais tempo, mas particularmente eu cansei de esperar. E você?!


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