Call of Duty: Modern Warfare 2 foi o jogo mais pirateado de 2009. Depois de um mês de lançamento, a versão de PC de um dos shooters mais esperados do ano, teve um recorde de downloads ilegais: 4.1 milhões de cópias. E isso só nas redes de torrent, sem contar outros tipos de compartilhamento. O mesmo game também gerou um lucro de 310 milhões de dólares nas primeiras 24 horas de lançamento, e esse lucro subiu para 550 milhões em cinco dias, ultrapassando grandes lançamentos de entretenimento, como os filmes do Harry Potter e do Batman, que saíram no mesmo ano.

Um dos efeitos colaterais dessa vasta quantidade de downloads considerados ilegais reside no fato de que as empresas de desenvolvimento cada vez mais migram para os consoles em busca de maiores vendagens. E as empresas que continuam a fazer alguma coisa para os gamers que gostam de jogar no PC, implementam métodos de proteção contra cópia cada vez mais intrusivos, e é sobre um deles que irei falar neste artigo.

A pirataria de softwares existe desde a existência dos mesmos. Ainda me lembro quando a molecada trocava disquetes de Doom no colégio, e quando surgiu o gravador de CDs e a troca de jogos explodiu. Antigamente, as proteções contra cópia consistiam em CD-Checks (o jogo checar pelo CD no drive para funcionar), ou algum tipo de proteção que enganava os programas de cópia de CDs, fazendo-os travar, ou apresentar erros de gravação.

Porém, com a tecnologia, não são somente os jogos que avançam no seu poder gráfico. Novas proteções contra cópia começaram a ser implementadas, incluindo algumas que instalavam um tipo de malware no computador para checar seu serial on-line, e no processo, deixavam o computador aberto a certos tipos de invasões. Outra proteção muito comentada foi a que a Electronic Arts passou a usar nos games por volta de 2007. Com esta proteção, o usuário deveria registrar e ativar a sua cópia do jogo com um serial on-line, mas só era possível um número limitado de ativações. Ou seja, se fosse necessária a reinstalação do jogo, era arriscado ficar sem nenhuma ativação, e então o usuário teria que ligar no centro de atendimento da EA para pedir mais ativações. O número de críticas a essa proteção foi tão grande que a EA logo passou a permitir que os usuários revocassem suas ativações nos próprios desinstaladores de seus jogos.

Nos últimos meses, porém, um tipo de proteção ainda mais bizarro e desrespeitoso ao consumidor foi desenvolvido pela Ubisoft. A nova proteção, descrita pela empresa como (“uma proteção incrackeável“), consiste em impedir que o gamer consiga jogar caso não esteja conectado à internet. Todas as informações do jogo, incluindo seus saves, são armazenadas num servidor da Ubisoft que o jogo deve acessar à todo momento. Os jogos Assassin’s Creed II, Tom Clancy’s Splinter Cell: Conviction e Prince of Persia: The Forgotten Sands foram alguns dos jogos mais famosos a terem essa proteção inclusa.

Agora, analisemos os problemas que esse método acarreta, principalmente para usuários que moram aqui no Brasil, país onde jogos geralmente custam entre 90 e 150 reais, e possui uma das piores conexões de Internet do mundo. Digamos que o comprador é uma pessoa que viaja bastante com seu notebook, e gostaria de ter um jogo single player que é legal nos momentos de ócio. Nosso amigo vai lá e paga 120 reais numa cópia de Assassin’s Creed II, um jogo que não possui nenhum componente multiplayer, pois pretende jogar sozinho e sem internet. Não, ele não poderia jogar em seu notebook, pois o jogo requer uma conexão constante à Internet. Outro exemplo: digamos que o comprador (que, enfatizando, pagou 120 reais numa cópia de um jogo exclusivamente single player) consegue fazer o jogo funcionar perfeitamente. Aí, numa noite bem chata, sua internet cai. Hmmm… que pena. O jogo se desliga, nosso amigo perde todo o progresso que obteve desde a última vez que o jogo salvou (já que o mesmo usa um sistema de checkpoints) e é impedido de jogar uma coisa pela qual ele pagou.

Sem mencionar o outro problema muito mais grave. Nos primeiros dias do lançamento de Assassin’s Creed II, os servidores da Ubisoft caíram e ficaram fora do ar por dias inteiros. Ou seja, nossos amigos que foram lá pagar uma nota pelo jogo foram impedidos de jogar pela incompetência da desenvolvedora. Agora, será que isso tudo vale a pena para tentar impedir a pirataria? Ou será que a Ubisoft não irá simplesmente perder clientes e fazer as pessoas piratearem seus jogos ainda mais? De fato, durante um mês, não havia crack pela internet. Mas, eventualmente, um dos grupos de crackers existentes por aí, conseguiu quebrar a proteção, e o que é mais bizarro ainda, é comum nos fóruns pela internet pessoas que compraram o jogo e que nunca fazem downloads ilícitos relatarem que acabaram usando o crack em suas instalações do jogo só para se livrarem do incômodo da conexão constante. Irônico, não?

Agora, este artigo não tem como objetivo levar os compradores de jogos à pirataria ou nada disso, mas sim a discutir se as desenvolvedoras e distribuidoras de jogos realmente precisam implementar uma proteção tão extrema e que acaba atrapalhando mais os clientes honestos do que a galera do download ilegal, apenas para supostamente garantir um pouco mais de vendagem. As vendas exorbitantes de Modern Warfare 2 provam que os jogos vendem sim, e muito. Por que não diminuir os custos que a empresa teria mantendo um servidor só para a proteção, e gastar mais no jogo em si, fazendo um jogo muito bom que as pessoas vão querer comprar? A proteção não irá mesmo impedir os crackers, por mais “incrackeável” que ela seja.

É por essas e outras que as pessoas respeitam tanto companhias como a Blizzard Entertainment, que anunciou antes do lançamento de Starcraft II que o jogo teria apenas um CD-Check e uma ativação on-line para uso do modo multiplayer, acrescentando ainda que (“proteções muito intrusivas são um desrespeito ao consumidor”). E tenho certeza que Starcraft II não sofrerá queda nas vendas por isso.

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11 COMENTÁRIOS

  1. Concordo plenamente.

    Não só nos games é assim, mas no cinema também. Lembro que o filme mais baixado de 2008 foi o ‘Batman – Cavaleiro das Trevas’. E (que coincidência!) também foi o de maior bilheteria naquele ano (se não me engano, na época ele chegou a ocupar o segundo lugar em bilheteria na história do cinema, perdendo só para o Titanic).

    Não entendo essas motivações da indústria. Sinceramente, não entendo.

    Té.

    • Este efeito ocorre também com séries. Um porcentual muito grande das vendas dos box de DVD/Blu-Ray são de pessoas que compraram após conhecer a série através da internet. Nesse caso, as empresas ganhar a partir de um marketing que eles nem investiram.

      Essas travas só afastam o consumidor e agem realmente como um fator anti compra, pois é chega a ser absurdo um game single player exigir acesso constante a internet. Eu particularmente não compro um game se souber disso.

      Mais grana investida no desenvolvimento (para um game com mais qualidade) e algum diferencial (multiplayer exclusivo para cópias originais, DLC na faixa, etc) talvez funcionasse bem melhor para garantir a compra.

        • Cêis tão malucos?
          Quer dizer que a industria tem de se contentar em vender três mil unidades de um produto e se contentar com o sucesso nos comentários em blogs com o downloads ilegais de outras mil unidades?

          Quer dizer então todas as pessoas que compram os DVDs piratas de crepúsculo a R$ 2,50 reais na feira, se gostarem muito, mas muito mesmo vão comprar o box oficial nas lojas americanas por $ 89,90?

          O cara que que baixar ilegalmente Arkham City depois que jogar vai desembolsar R$ 79,90 e comprar o jogo oficial?

          E as pessoas compram Xbox ao invés de um PS3 porque podem jogar DVDs piratas pra testarem e depois sim irem na loja oficial e comprarem o o mesmo jogo, né mesmo?

          O cara vai baixar a serie Lost, todas as seis temporadas, assistir se frustar com o final e depois vai comprar pela bagatela de R$ 154,00 e passar toda a raiva de novo?

          • Na verdade, se for esperto, tu compra o DVD do Crepúsculo original, mais barato do que o pirata.

            Pirata por R$ 2,50? No MCDonalds me ofereceram o original por R$ 2,00 quando fui almoçar. Só não comprei porque, na época, não conhecia ninguem que gostasse disso, pra dar de presente.

            Fiquei pensando… quanto será que eles ganham de lucro com um DVD na loja, sendo que conseguem vender o mesmo por R$ 2,00?!

            Té.

          • Respondendo a algumas das suas indagações:

            Muitas pessoas leem scans, baixam gratuitamente e, no fim, vão até a comicshop ou livraria mais próxima e compra seu encadernado (que por sinal é caro para caramba e alguns nem tem uma qualidade condizente ao seu preço.), busca em sebos a coleção (caso ela não tenha uma versão mais recente lançada.) e guarda tudo com muito carinho. Esse é um bom meio de filtrar o material ruim do bom. Ao menos eu não gosto de jogar meu dinheiro no lixo com produtos de má qualidade.

            Supernatural e Dexter foram duas séries que assisti via download e hoje tenho os boxes e não sou dos mais fanáticos por séries que conheço, mas tenho uma boa lista que eu pretendo comprar em breve e que sem os downloads, provavelmente passariam desapercebidos nas prateleiras das lojas.

            Jogos só compro originais, até para poder usufruir dos benefícios que o mesmo tem, mas nada impede que eu teste um jogo diferente, apenas para saber se agrada ou não, até porque não sou obrigado a gostar de tudo o que tentam nos enfiar goela abaixo.

            Engraçado todo esse discurso anti pirataria que muitos possuem, mas ninguém lembra de ir olhar os números por trás da “pirataria”. Se ela é tão prejudicial, porque o mundo dos games nunca tiveram lucros tão altos quando nos últimos 10 anos? Porque as produtoras musicais ainda não fecharam as portas ou anunciaram prejuízos gigantescos por conta da pirataria? Porque Hollywood ainda produz filmes e as empresas que gerenciam cinemas investem cada vez mais nessa forma de entretenimento que, mesmo cobrando preços abusivos, cresce cada vez mais, principalmente no Brasil, um país que frequentemente é acusado de favorecer pirataria?

            Amigo, o dia que esses caras realmente estiverem falindo devido a downloads ilegais eles não terão dinheiro para abrir processos desnecessários e investir milhões na inútil tentativa de fechar sites tipo The Pirate Bay e Mega Upload.

  2. Quer dizer se o MobGround começar a cobrar R$ 1,00 para baixar o vindouro MOBCAST eu posso baixar de maneira ilegal, quer dizer fazer compartilhamento de arquivos, e alegar que é porque eles tão ganhando dinheiro com algo que outros sites dispinobiliza de graça?

    Essa desculpa que a industria ganha muito e portanto eu tenho direito de rouba-la não vale, eu não aceito. Nas proximas discussões favor bolar outra desculpa estaparfudia para que possamos debater de maneira racional.

    • Primeiro que um possível MobCast não seria cobrado até por ir contra os princípios do portal. Segundo, você já pensou na possibilidade de você ouvi-lo e pensar “porra, esse cast merece o 1 real que está cobrando” e, mesmo depois de ouvir e conhecer o material que você pegou de graça, ir até o blog e compra-lo?

      E em nenhum momento eu disse que baixava conteúdo ilegal porque as empresas ganham muito dinheiro, apenas falei que se eu jogar/assistir/ler e for uma merda, não compro. Porque somos inteligentes o suficiente a não aceitar todas as porcarias que produzem.

      Você me parece ser o tipo de pessoa que também é contra empréstimos, trocas e locação não é? Pois dessa forma estamos evitando que as produtoras ganhem dinheiro.

  3. Só lembrando que a Blizzard vai obrigar o uso constante da internet para o Diablo 3. O Steam, maior loja de jogos para PC, só funciona online. O Brasil não é parâmetro de mercado para jogos no PC lá nos EUA. E sim, é um merda se cadastrar na Ubisoft pra jogar seus jogos, mesmo comprando pela Steam.

    • Com relação ao Steam, você está certo em parte, Leonardo. O Steam permite que se jogue boa parte de sua biblioteca de games offline sem problemas (exceto, é claro, jogos essencialmente multiplayers, como Counter-Strike e Team Fortress 2, bem como a parte multiplayer de outros jogos como Modern Warfare). Os games da Ubisoft não permitem isso devido ao DRM da própria Ubisoft, não por imposição da Valve.

      Quanto a jogos single-player, para jogá-los offline, basta acessar a opção de salvar as credenciais da conta, dentro da opção Settings, na aba Account. Depois tente abrir o Steam com o computador desconectado e clique na opção para entrar em modo offline.

  4. Eu acho que as empresas têm todo o direito de desenvolver sistemas contra a pirataria. O problema é quando esses sistemas se tornam um inconveniente para quem comprou o original.

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