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Vários autores já se dedicaram à árdua tarefa de escrever sobre ciência de forma que o público leigo pudesse compreender. Graças a pessoas como Carl Sagan, Brian Greene e E. O Wilson, expressões como buraco negro, memes e genes egoístas se tornaram conhecidas por pessoas em todo o mundo. Mas talvez nenhum deles tenha ousado tanto no objetivo de um livro quanto Jonah Lehrer. Ex-técnico de laboratório de neurociência e atual editor da mais popular revista de tecnologia do mundo, a Wired, Lehrer lançaria em 2007 o ambicioso livro Proust foi um Neurocientista.

Com ele pretendia provar três coisas. Primeiro: a ciência não é infalível. Segundo: Jamais teremos as respostas para todas as perguntas. E terceiro: Artistas, sem necessitar de equipamentos caros ou dispor de grandes conhecimentos científicos, anteciparam verdades sobre a nossa mente que a ciência só descobriria bem mais tarde. E ele consegue com louvor.

No meio do século XIX, a Igreja sofreu um forte baque. O homem deixou de ser uma alma imortal para ser descendente do macaco com a Origem das Espécies de Darwin. A física quântica foi descoberta. A partir do reducionismo parecia que o mundo finalmente poderia ser compreendido por inteiro analisando-se suas partes. Era um tempo de promessas, em que se acreditava que todos os questionamentos humanos poderiam ser respondidos, cedo ou tarde.

Por que a música tem a capacidade de nos infligir tanta dor? Porque age diretamente em nossos sentimentos. Nenhuma idéia interfere nas emoções dela. Essa é a razão de toda a arte aspirar à condição de música.

A estrutura da música reflete a atração do cérebro humano por padrões. A música tonal (isto é, a maioria das músicas barrocas, clássicas e românticas) começa por estabelecer um padrão melodioso através da tríade tônica. Esse padrão estabelece o tom que estruturará a canção. O cérebro precisa desesperadamente dessa estrutura, já que fornece uma forma de organizar o tumulto de notas subseqüentes. Um tom ou tema é expresso em um padrão mnemônico para, em seguida, ser ignorado e depois retornar em um momento de descanso consonante.

Entretanto, antes que possa ser desejado pelo cérebro, um padrão deve se fazer de difícil. A música somente nos excita quando obriga o córtex auditivo a se esforçar para descobrir a sua ordem. Se for óbvia demais, se os padrões estiverem sempre presentes, a música será enfadonha, Essa é a razão dos compositores introduzirem a nota tônica no começo da canção para ignorá-la até o final, logo depois. Quanto mais tempo nos for negado o padrão que esperamos, maior a descarga emocional quando ele volta, são e salvo.

E foi justamente nesta época que surgiu um movimento vanguardista conhecido por sua originalidade e ambição: a arte moderna. Seus poetas desprezavam a métrica, os pintores faziam quadros abstratos, romancistas escreviam livros sem trama e assim por diante. Sabendo bem que o grande público, acostumado com a arte tradicional, não conseguiria compreender suas obras, eles persistiram com a certeza de que a genialidade deles seria reconhecida no futuro. Foi essa falta de modéstia que revolucionou as artes e fizeram Kafka ser reconhecido apenas após a sua morte como um dos maiores escritores de todos os tempos, Ulisses ser visto por alguns críticos como o romance do século e Paul Cézanne ter finalmente suas pinturas compreendidas.

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Entre esses artistas, alguns simplesmente não conseguiam aceitar como realidade o que a ciência decretava como fatos verdadeiros e resolveram se voltar para si mesmos e representar em suas obras as próprias experiências pessoais que faziam. Oito deles descobririam fatos que a neurociência só vem descobrindo agora. São eles o pintor Paul Cézanne, o músico Igor Stravinsky, o chef de cozinha Auguste Escoffier, o poeta Walt Whitman e os romancistas Proust, Gertrude Stein, Virginia Woolf e George Elliot. Cada um deles tinha um método de trabalho único. Gertrude brincava com as palavras. Woolf tentava prever os avanços dos seus problemas mentais. Paul Cézanne observava por horas o mesmo objeto. Proust passava o dia inteiro na sua cama refletindo sobre o passado e como a memória funcionava. Stravinsky tentava chocar o público com músicas completamente novas para o público. Escoffier queria que a comida deixasse de ser um monumento nos restaurantes chiques, com esculturas de gordura de porco e gelatina, para ser apenas saborosa.

Proust (…) usou o sabor do Madeleine e o aroma do chá para dar vazão à sua infância. Apenas olhar para o biscoito não trazia nada de volta á mente. Proust chega ao ponto de culpar em primeiro lugar o sentido da visão por obscurecer suas memórias de Combray. Felizmente para a literatura, Proust decidiu colocar o biscoito na boca.”

Nos oito capítulos de Proust foi um Neurocientista, Jonah Lehrer apresenta, com uma prosa clara e concisa, o trabalho destes artistas, suas influências e descobertas no terreno científico. Como no capítulo sobre Proust, o mais avassalador do livro, onde é mostrado como o escritor francês descobriu o funcionamento da memória e que as lembranças se tornam cada vez menos confiáveis com o passar do tempo. Ou ainda, no de Virginia Woolf, que demonstrava em suas obras como nosso senso de identidade, nosso eu, não passava de uma ilusão do cérebro. Por dentro de nossa mente se esconde uma miríade de sensações, idéias e dois eus.

Muitos cientistas importantes são contrários a tudo que não seja científico. Acreditam que as artes não passam de entretenimento. A obra de Lehrer está para tentar mudar este quadro. Falando com domínio sobre temas tão díspares entre si quanto pintura abstrata e DNA, poesia e córtex auditivo, ele nos demonstra que a função da arte é atravessar os limites da ciência. A ciência não pode nos dar todas as respostas, hoje isso é claro. Não podemos descobrir como transformamos células elétricas e espaços sinápticos do nosso cérebro em pensamentos, na mente humana, por exemplo. Ou seja, a área em que a ciência não pode se aprofundar, é exatamente a que os artistas exploram. Eles mostram a verdade baseados nas suas próprias experiências humanas. O objetivo de Lehrer é mostrar como a ciência e a arte podem ser integradas.

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“A ciência vista pela ótica da arte, e a arte é interpretada á luz da ciência. O experimento e poema se completam. A mente, feita pelos dois, torna-se um todo.”

Entretanto, Lehrer se mostra levemente careta. Proust foi um Neurocientista é o livro de um autor que acredita que todo escritor deve representar em suas obras descrições científicas do mundo real. Não preciso nem falar que autores como Richard Matheson, Ray Bradbury e Kurt Vonnegut deixavam as leis científicas de lado e mesmo assim mostravam muito mais verdades sobre nós do que poderia se imaginar. Escrever ficção, como diz Stephen King, é a verdade dentro da mentira.

Afora isso, Jonah Lehrer escreveu o que é até hoje o melhor tratado sobre as duas áreas, a arte e a ciência. Mesclando literatura, música, culinária e pintura perfeitamente, ele nos dá a real dimensão da mente humana. Para os que se interessam pelas duas áreas, só consigo imaginar uma palavra para defini-lo: Obrigatório.

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Autor: Jonah Lehrer 

Páginas: 368

Nota: 8,5

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Atrapalhado, paranóico, assíduo falante, leitor e cinéfilo voraz, teve desde muito novo os livros e os filmes como grandes companheiros da sua vida. Graças a eles desbravou novos mundos e universos, venceu batalhas e guerras e conheceu pessoas e povos de diferentes tempos. Tem como seus maiores ídolos Louis Ferdinand Céline, Machado de Assis, Jack Kerouac, Charles Bukowski, Um dia pretende concluir seu próprio livro. Enquanto isso não acontece, escreve críticas literárias na Mob Ground. @MuriloAndrade Facebook

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