[ARTE DA VITRINE]: Thiago Chaves (@chavespapel)

* O texto contém spoilers para quem não leu o primeiro livro da série

O sargento Doakes, meu inimigo vingativo, embalado para presente e entregue no cenário perfeito. Todos os instrumentos e suprimentos que eu poderia desejar, nem uma alma em quilômetros ao redor (…) A ideia era embriagadora, e acredito que cheguei a oscilar um pouco enquanto a saboreava. É claro que era só um pensamento, e jamais faria algo parecido…faria? Quero dizer, faria realmente? Dexter? Por que você está salivando, rapaz?

Apesar de ser um serial killer, é fácil gostar do personagem Dexter na tv. Mostrado como alguém sem sentimentos no começo do seriado, o matador bonzinho começou a desenvolver um certo afeto por alguns personagens, como sua irmã adotiva Debra (por quem ele matou o próprio irmão) e sua noiva Rita. Em alguns episódios o próprio Dexter chegou a se intitular como uma espécie de super-heroi. Felizmente, os livros nos quais a série se baseou mostram um Dexter Morgan bem diferente da tv, pelo menos os dois primeiros. Em Querido e Devotado Dexter, segundo livro do personagem, o autor Jeff Lindsey consegue fazer com que gostemos ainda mais do personagem, mesmo que ele nos apresente um Dex com ainda mais sede de sangue do que no primeiro.

Depois de impedir seu irmão biológico de matar sua irmã adotiva (aqui com o nome de Deborah), Dexter leva uma vida feliz para um assassino, caçando suas presas e ainda contando com a cobertura da irmã, que descobriu tudo ao final do primeiro livro. Infelizmente, ele não impediu a morte da detetive LaGuerta e ainda deixou o irmão assassino escapar. Devido a isso, o sargento Doakes, que já não gostava muito de Dexter, resolve ficar em sua cola por desconfiar da história oficial contada pelo perito em sangue. Para evitar ser pego, Dex passa a levar uma vida comum, passando mais tempo na casa da namorada Rita, fazendo coisas banais, como beber cerveja e brincar com os filhos dela. A sorte do personagem começa a mudar quando um novo assassino em série surge em Miami, o que pode chamar a atenção de Doakes e deixar Dexter livre para “brincar” com seus amigos especiais.

Quem leu o primeiro livro e ficou impressionado com a descrição detalhada de certas mortes, pode se preparar para se impressionar ainda mais com o sadismo apresentado por Jeff Lindsey neste segundo livro. Só para se ter uma ideia, o novo “inimigo” de Dexter é especialista em amputar membros, geralmente deixando suas vítimas vivas apenas para que desejem estar mortas. E é quando Dex vê a primeira dessas vítimas que temos um personagem muito mais interessante do que o mostrado na tv. Mostrando que realmente não dá a mínima para a vida humana, Dexter passa a chamar a vítima de batata humana (entre outros adjetivos) devido ao estado deplorável em que se encontra. Isso sem contar que o próprio protagonista desmembra suas vítimas antes de matá-las, ao contrário do seriado, onde ele mata rapidamente e sem muita crueldade.

Doakes estava convencido de que eu tinha alguma coisa a ver com a morte de LaGuerta. Não era verdade, além de totalmente injusto. Tudo o que eu fizera fora observar – que mal há nisso? Naturalmente, ajudara o verdadeiro assassino a fugir, mas que outra coisa podia fazer? Que tipo de pessoa voltaria as costas para um irmão? Principalmente quando ele faz um trabalho tão limpo.

Outro ponto interessante do livro é que ele realmente passa a sensação de estarmos o tempo todo vendo o que se passa na mente de um assassino. Todas as cenas apresentadas na história possuem a participação e narração do protagonista, sem perder tempo com problemas pessoais de outros personagens. E se no seriado nós enxergamos Dexter como um grande justiceiro que mata os caras maus, aqui a coisa é bem diferente. O que vemos é um personagem com uma sede de sangue muito grande, que por enquanto consegue focar sua atenção apenas em bandidos. Mas a grande pergunta que o leitor se faz é: até quando ele vai conseguir fazer isso e não matar inocentes? Em determinados trechos temos a impressão de que ele pode perder o controle a qualquer momento e matar até mesmo sua própria irmã e colegas de trabalho.

O livro vai mais fundo também no conceito do Passageiro das Trevas, que é o que faz Dexter ter essa sede de sangue. Este conceito já tinha sido apresentado no primeiro livro (Dexter: A Mão Esquerda de Deus), mas em Querido e Devotado Dexter ele é ampliado, mostrando que o tal passageiro funciona como uma espécie de segunda personalidade, como um lado negro que toma conta de Dexter e possui habilidades que o próprio protagonista desconhece. Em certos momentos ele é mostrado como um animal enjaulado, quase como se ele fosse um personagem independente de Dexter.

Jeff Lindsey acerta também ao não tentar repetir exatamente a mesma fórmula do primeiro livro, que mostra Dexter caçando o assassino sozinho, algo que é repetido a cada nova temporada do seriado da tv. Aqui o assassino da trama nem é o alvo principal de Dexter, sendo que ele se envolve na investigação a pedido de Deborah e fica o tempo inteiro pensando no outro alvo que ele tinha em mente. Na verdade, Dex demonstra uma verdadeira admiração pelo trabalho do assassino e, em certo ponto da trama, passa até a enxergá-lo como a solução para alguns de seus problemas.

Querido e Devotado Dexter é eficiente em agradar tanto os fãs do personagem que o conheceram através da série, como os que gostam de um bom suspense sobre serial killers. Toda a perseguição ao assassino, sempre narrada em primeira pessoa, é repleta de momentos tensos, que ficam ainda mais angustiantes quando vemos que Dexter não está ligando muito para pegar o vilão. É difícil não se sentir um pouco culpado por torcer pelo protagonista ao perceber que os motivos dele não são tão nobres quanto dos outros agentes envolvidos na caçada. A maneira como Jeff Lindsey descreve as cenas e as coisas que se passam na cabeça de Dexter faz com que seja impossível parar de ler até chegar ao final da história.

Querido e Devotado Dexter (Editora Planeta, 2009)

Autor: Jeff Lindsey

Páginas: 250

Nota: 10

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

11 COMENTÁRIOS

  1. Opa, não li nenhum dos livros ainda, e uma crítica anterior de outra pessoa sobre o primeiro livro não me ajudou muito a querer. Mas essa resenha sua, que na maioria das vezes, vai de acordo com o meu gosto me fez mudar de opinião.

    Lendo o texto, pude relembrar o conceito principal do personagem, coisa que foi largada pelos produtores da série, ao que parece. E deu para perceber que o Dexter é mais sombrio nos livros.

    E espero que tenha sido uma piada da Bárbara! rs

  2. Sou uma grande fã de Dexter, tanto da série quanto dos livros, o protagonista é apresentado de forma magnífica nos dois primeiros livros, fiquei um pouco decepcionada com o Dexter “perdido” do terceiro e quarto livro, mas nada que me fizesse perder a vontade de relê-los. A série vale muito a pena e o livro mais ainda.

  3. =

    Me tirem uma duvida caros amiguinhos =D

    ouvi dizer que sobre alguns aspectos ( ou MUITOS )
    a série é superior aos livros… isso é real? alguem aqui ja leu e assistiu pra comentar ? vlw desde já ^^

    • Então, cara, eu conheci o personagem através da série, mas não gostei do que ele acabou se tornando. Aos poucos os roteiristas transformaram ele numa espécie de heroi que mata os bandidos pra salvar a família e tal. Já nos dois primeiros livros o Dexter é bem mais psicopata, muitas vezes fazendo coisas pela família e amigos mais pra manter o disfarce do que por se importar com eles.

      Tô gostando mais do personagem como é apresentado nos livros, mas como eu disse, só li os dois primeiros até agora. De qualquer forma recomendo a série também, apesar de que ela vem piorando a cada temporada. Recomendo assistir pelo menos até a quarta temporada.

      • =

        Show velho…vlw mesmo… é que assim, escuto muitos comentários de que o personagem é melhor construido na série ou que a série tem um “suspense” melhor que o do livro.

        Mas tem quem diga também que os livros são melhores e talz… as situações são mais realistas e tudo mais. Eu sempre prefiro ler antes de assistir, isso com filme, anime, série e o que for… dai fiquei meio na duvida do que fazer.

        Mas de boa… vlw mesmo ^^

  4. Só tenho a dizer que Dexter é muito melhor no livro do que na série, principalmente os crimes. Já li o primeiro e terei que ler o segundo pois ficou várias questões no ar.

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