Um livro com esse título, com essas caveiras na capa, com esse olho satânico pegando fogo e ainda por cima publicado pela editora DarkSide Books só pode ser de uma história lazarenta de terror, certo? Errado.

Apesar de tratar de um tema bem mórbido, não tem nada de terror em Confissões do Crematório. O livro da youtuber (eu vi você arregalando o olho), escritora e agente funerária Caitlin Doughty, lançado aqui no Brasil com tradução de Regiane Winarski, é na verdade uma compilação de textos de não-ficção com reflexões profundas e às vezes até bem humoradas a respeito da morte.

Pode ir guardando a desconfiança na sua caixinha de preconceitos, pois mesmo que a garota tenha um canal no Youtube (isso é demérito?) uma coisa é certa: Confissões do Crematório é um livraço.

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Partindo de sua experiência profissional num crematório e de diversas referências antropológicas/filosóficas, Caitlin traça um amplo panorama da relações do homem com a sua própria finitude. A autora descreve, com riqueza de detalhes, o passo a passo do que é feito com um corpo de alguém desde o momento de sua morte num hospital, por exemplo, até ele virar um montinho de cinzas dentro de uma urna bonita. Com isso, ela não pretende apenas chocar o leitor, mas fazer com que as pessoas pelo menos pensem a respeito dessas coisas, que reflitam sobre o seu próprio fim ou o de seus familiares, para que este momento seja cada vez menos traumático e passe a ser encarado como um processo natural, como de fato é.

O interessante do livro é que mesmo que ele tenha bastante embasamento teórico e técnico, passa longe de parecer um texto acadêmico chato. Isso porque a autora escreve bem pra caralho e dá um tom leve de crônica ao acrescentar várias histórias de pessoas (e corpos de pessoas) que passaram pela sua vida. Contudo, isso tudo não nos poupa de encarar trechos absolutamente perturbadores como o capítulo sobre a cremação de crianças. Já li algumas coisas bem chocantes nessa vida, mas confesso que esse trecho do livro vai demorar um bom tempo para sair da minha cabeça.

Num geral, o bom humor e as referências pops dominam as páginas de Confissões do Crematório, como esse trecho em que a autora e o seu colega de trabalho vão até uma casa para buscar um corpo:

[quote_box_center]’Sabe o que eu penso, Cat?’, perguntou Chris enquanto pegávamos nossos pares de luvas de borracha. ‘Que somos como assassinos de aluguel. Que nem os caras de Pulp Fiction. Eles ficam sentados no carro conversando sobre um sanduíche e depois vão explodir a cabeça de alguém. Nós estamos no carro batendo papo e agora vamos entrar para pegar um cadáver’.[/quote_box_center]

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Mas nem tudo são flores com cheiro de velório nesse livro, pois volta e meia você se depara com alguns petardos como essa descrição de um procedimento fúnebre indiano

[quote_box_center]“As famílias que não tem dinheiro para uma cremação, mas que querem que seus ente queridos mortos vão para Ganges, colocam o corpo no rio à noite e o deixam lá para que se decomponha. Os visitantes de Varanasi veem cadáveres inchados passarem flutuando ou sendo comidos por cachorros. Há tantos corpos assim no rio que o governo indiano solta milhares de tartarugas carnívoras para engolir os ‘poluente necróticos’”.[/quote_box_center]

Caitlin Doughty lança um novo olhar bastante crítico ao mercado das funerárias americanas, dá até pra dizer que ela é uma militante deste tema. Ela é contra, por exemplo, o procedimento de embalsamar corpos (aliás, ela explica tim-tim por tim-tim como isso é feito, caso você queira praticar), algo bastante comum nos EUA. Ela descreve como esse costume nasceu no período das guerras, quando os corpos dos soldados precisavam ser conservados para serem deslocados por longas distâncias do campo de batalha até a casa dos seus familiares e critica como isso virou apenas um jeito de arrancar dinheiro das pessoas ignorantes hoje em dia.
Enfim, Confissões do Crematório é uma grata surpresa. Jamais imaginei que um livro com um tema como esse pudesse ser tão lúcido e tão fascinante (e você nem precisa ser um gótico que lê Edgar Alan Poe no cemitério pra chegar a essa conclusão). Recomendo essa obra a todo mundo que pretende morrer um dia. [Nota da edição: Ou mesmo pra quem não pretende.]

confissoes-do-crematorio-capa-3d-darksidebooks-smoke-gets-in-your-eyes-caitlin-doughtyFicha Técnica

Título: Confissões do Crematório

Autora: Caitlin Doughty

Tradutora: Regiane Winarksi

Editora: DarkSide Books

Especificações: 256 páginas, Limited Edition (capa dura), 14 x 21 cm

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