William Peter Blaty é um escritor corajoso. Não apenas porque sua obra máxima O Exorcista tem padres que lutam contra todas as forças para admitir que estejam diante de um exorcismo e quando o fazem, a vaca já foi pro brejo. Essa coragem envolve principalmente essa sequência.

Legião poderia ser um livro fácil de escrever se o autor fizesse como os produtores de Hollywood e pensasse numa sequência direta de O Exorcista: uma história de origem sobre as relações nunca reveladas entre o padre Merrin que deve ter deixado muita gente com uma pulga atrás da orelha.

Mas Blaty não é muito comum e nem muito comercial e transformou Legião numa outra coisa completamente diferente — seguindo a cartilha, a editora Darkside Books, responsável por essa edição impecável, também foi corajosa: colocou apenas um demônio na capa de fundo vermelho berrante e deixou o título e o autor para a quarta capa. Sai Regan e sua saga de fuga das trevas mais densas e entra em cena o detetive William Kinderman.

Se você havia lido O Exorcista deve ter ficado com uma pulga atrás da orelha com uma informações dessas, uma vez que Kinderman, à sua maneira em seu arco de investigação, é uma das coisas mais irritantes do livro — propositalmente irritante, como qualquer leitor pode perceber, uma vez que a técnica dele para arrancar as melhores respostas envolve cansar o interrogado com auto-depreciação e perguntas bobas “o último filme que ela já viu — e colocá-lo no centro da trama aqui poderia ser um problema capaz de destruir o conjunto. Mais estranho ainda é que não temos mais pessoas indefesas aqui ou a imagem de uma menina se masturbando com um crucifixo. 

Legião não é uma narrativa preto-no-branco sobre a luta entre o bem e o mal (embora também seja, de forma reduzida), mas muito mais um conto policial com elementos sobrenaturais. Doze anos depois do exorcismo do livro anterior, Kinderman investiga um serial killer que pode ser um repetidor ou o próprio Assassino Geminiano (uma conexão óbvia com o real Zodíaco), um assassino em série que assombrou Washington anos antes. A trama até aí é clichê: o assassino foi alvejado pela polícia, caiu de uma ponte mas o corpo jamais foi encontrado, mas aos poucos Blaty entra nos temas que lhe são caros e o livro pisa em terreno conhecido.

Se você leu O Exorcista com alguma atenção (Eu ainda não havia lido e ainda não tinha assistido o filme, pecados já corrigidos para essa resenha) sabe muito bem quais são esses temas: a existência de Deus, as capacidades paranormais da mente humana, o Mal no mundo, vozes captadas por aparelhos elétricos, e por aí vai. Esses temas são aprofundados enquanto passamos coisa de 150 páginas para tentar estabelecer uma conexão real entre Legião e seu antecessor.

Blaty parece estar muito mais à vontade aqui exatamente por conseguir se despir de tais pressões e escrever o livro que queria, nos mostrando com paciência como o Mal é um conceito mais arraigado na nossa rotina como sociedade do que podemos imaginar. Após umas 100 páginas você definitivamente vai estar se perguntando por que exatamente essa é uma sequência de um dos melhores livros de terror já escritos, mas a resposta é dada com sutileza quase até o fim, quando a relação é escancarada. 

Blaty entende O Exorcista como uma série de fatos que borra os limites entre doença mental e possessão demoníaca, limites esses aceitos até pela Igreja Católica. O grande lance do livro é que esse é apenas a superfície do livro, uma vez que o Padre Karras nos representa nessa série de interrogações sobre as engrenagens de nossos atos e como eles se relacionam com a existência do livre-arbítrio. O exorcismo final é apenas o passo lógico rumo ao abismo.

Aqui em Legião, aos poucos Kinderman começa a lidar com diversas pessoas com problemas mentais, médicos sem fé e a possibilidade de existir uma ligação sutil, mas muito visível de tais assassinatos com o Exorcismo do livro anterior.

O grande lance é que Blaty, além de corajoso, escreve muito bem. Não apenas em sua técnica apurada, mas por conseguir extrair coisas grandiosas de fatos aparentemente banais. A trama policial aqui é simples, mas parece ter sido construída assim de propósito para nossos olhos focarem também na filosofia do livro que é tão importante quanto compreender os acontecimentos e os assassinatos.

Sim, enquanto desvenda o que pode ser uma trinca de três homicidas agindo sob a força de uma única entidade, Kinderman tateia no escuro em busca de Deus ou ao menos de algum tipo de sentido para nossa existência. O único problema em combinar essa estrutura que parece pronta a desabar ante o menor erro, é que Blaty, lá no final, toma umas conclusões meio aceleradas (tanto na narrativa quanto em sua filosofia) que não estavam devidamente dissecadas nas 300 páginas do livro.

Mas é um pecado menor dado o que é Legião: a luta de um personagem para encontrar um sentido para a vida e peças de um quebra-cabeças que parece lançá-lo diretamente no inferno. Legião é um livro menos ajeitado que O Exorcista, mas não carece das qualidades deste. A luta de Kinderman é a nossa luta. Não que sejamos investigadores no centro de ação demoníaca, mas também tateamos na mais completa escuridão na busca por sabermos quem somos. Se essa não é maior questão da nossa existência, a Humanidade está fadada ao seu fim.

Legião

Autor: Willian Peter Blatty

Tradução: Eduardo Alves

Editora: DarkSide Books

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