Com este título intrigante, o romance escrito por Marcelo Ferlin chamou minha atenção e me convocou a sua leitura. Sobre que seria um livro chamado “Quero dançar até as vacas voltarem do pasto”? Parti do pressuposto de que não se tratava de uma ficção que se desenrolasse em um cenário rural ou alguma coisa assim. Tinha em minha cabeça que se tratava de uma metáfora para alguma coisa que somente a leitura poderia desvendar – o que achei muito convidativo. Somou-se a isso a sinopse contida na orelha do livro e na quarta capa. Nestas sinopses ficamos sabendo que livro abordará vários personagens e várias questões densas como suicídio, morte, incesto e abuso.

Entretanto, cabe adiantar que minha experiência de leitura me surpreendeu em vários sentidos. De início a narrativa parece mais atrapalhar do que ajudar o leitor. Ferlin utiliza formas diferentes de expressar diálogos em momentos diferentes, que parecem estar aleatoriamente jogados no texto, por exemplo. Somos inundados por uma profusão de personagens que não são apresentados, ou melhor, que não podem parar o que estão fazendo para serem apresentados ou apresentarem-se entre si. Pegamos a história no meio do caminho e não temos parâmetro cronológico algum para seguir a narrativa. Dentro de um mesmo capítulo, e inclusive dentro de um mesmo subtítulo de cada capítulo podemos experienciar saltos espaciais e cronológicos difíceis de medir e localizar.

A leitura dos primeiros capítulos é uma tarefa árdua que demanda uma suspensão do desejo de sentir-se como leitor onisciente e em controle dos eventos. Por exemplo, não basta a profusão de personagens que são citados e relacionados, mas ainda há os homônimos que complicam e confundem o leitor. Portanto, há em toda a primeira experiência de leitura certa distorção formal da narrativa, fazendo com que o leitor sinta-se faltoso em recursos para compreender o livro. Este recurso faz com que vejamos os personagens e as tramas desenrolarem-se por de trás de um vitral turvo, no qual podemos apenas vislumbrar as silhuetas dos eventos impactantes narrados. Para exemplificar: sabe quando sentamos em uma plateia para assistir a um filme ou a uma peça e temos alguém alto sentado à nossa frente? Ao mesmo tempo em que isso é uma irritação, também opera de maneira muito sorrateira no voyeurismo necessário para uma experiência como tal. É como se a impossibilidade de se ver algo por completo, fizesse com que a vontade de ver ficasse maior.

Há ainda outro elemento nesta obra que é certeiro em laçar o leitor através de seu próprio voyeurismo: o corte. Voltando a metáfora do vitral turvo, não apenas vemos as silhuetas distorcidas, mas vemos as silhuetas de um ato sexual incestuoso. Marcelo Ferlin domina este recurso. Não se trata de um jogo simples entre exibir e esconder, menos ainda de uma pura exibição (pornográfica), ou de uma exibição comedida com o intuito de provocar (erótica). O escritor trabalha com o lapso e com o súbito. Em muitas passagens o sexo, a nudez e o incesto surgem no súbito, sem aviso prévio. Entre um café e uma chuva na janela, temos um pau dentro de uma buceta, e este efeito é transgressor na narrativa. Se a inserção súbita de elementos sexuais puros e episódios de incesto tem efeito de engate no leitor, o seu inverso também. Em outros momentos a escrita é interrompida antes do final da frase, deixando a uma ideia ou a um evento por terminar, sempre em momentos

Colocar o leitor em posição de voyeurismo com estes recursos faz com que o tratamento dado pelo autor ao tema do incesto seja inusitado – ao menos para mim. O horror ao tabu do incesto está suspenso. A impressão é de que para os personagens o incesto caducou sua proibição e ao leitor enquanto testemunha parcial cabe apenas ser levado aos trancos e barrancos pela narrativa, esforçando-se para entender, compreender o que aconteceu e qual a razão dos personagens. Esta posição subjetiva apriorística faz com que o leitor tenha poucos recursos para rechaçar as relações sexuais e amorosas entre pais e filhos, ou entre irmãos. Ao longo dos eventos, percebe-se que não é o caso de ausência da relação entre tabu e incesto, mas sim de uma constatação dessa relação como real, existente e presente. Não há culpados ou a quem possamos incriminar, na verdade sabemos muito pouco sobre o que aconteceu. Não há grandes eventos, não há reviravoltas.

O livro me surpreendeu em seu estilo. Sentia uma insatisfação imensa ao lê-lo, pois gostaria de certificar-me se estava entendendo a história, ao mesmo tempo em que ficava bastante frustrado por não compreender todas as relações, esquecer alguns personagens e ter de retornar há outros capítulos para recapitular. Porém, quando parava a leitura desejava voltar para aquela narração estranha e estava curioso sobre o derradeiro futuro ou passado das personagens. Nesse sentido, sua narrativa lembra algo da leitura de quadrinhos, em que as relações são em sua maioria feitas “entre quadros”. A linha narrativa não precisa estar lá e levar o leitor em direção aos eventos passados, ou seguintes. A aposta do livro é tensionar cenas, levando o leitor à suas próprias impressões e resoluções ficcionais. O grande efeito narrativo está entre uma cena e outra, o que é muito interessante. Se há um problema com esta estratégia é a de que as cenas têm potencialidades muito desiguais, o que por vezes faz com que a tensão não exista e somente tenhamos uma boa cena e outra sem sentido. Porém, quando o tensionamento é efetivo, o livro é surpreendente.

Acredito que não seja uma regra para todos os leitores, mas fui particularmente capturado pela história de Victória. Ela estava desde o primeiro capítulo no livro, porém apenas me dei conta de sua presença em determinada cena na qual ela entra em uma briga na escola com outras meninas. Entre outras coisas a briga é causada por Victória ter uma suástica tatuada em seu ombro (esquerdo ou direito? O livro mesmo põe em dúvida esse fato). Este evento me fez querer saber mais sobre a personagem. Entretanto, isto é impossível neste livro, já que a cada novo fato sobre Victória, novas lacunas eram criadas – um paradoxo formal muito bem trabalhado pelo autor. Quanto mais a rede narrativa se abria mais elos e mais espaços vazios surgiam na trama. Enganchado nesta personagem, despertou em mim o interesse pelo resto da trama. Por exemplo, quando passei a seguir esta personagem na narrativa passei a reconhecer a omissão e o descaso dos adultos para com os jovens na história. As relações entre Mara e Victoria deixaram isso claro.

O capítulo que dá nome ao título do livro é muito interessante. Na realidade trata-se de um poema/prosa/crônica no qual aparentemente aborda-se a “onda da moda”. Foi um capítulo que li algumas vezes. É um texto que possui muita força estética e funciona muito bem sozinho, sem o restante do livro. Entretanto, fiquei inquieto com a relação entre este tudo que já havia lido e que ainda estaria por ler. Havia algo de “Águas de Março” somado a um descaso especial que inicia assim:

Estranho. É estranho como anda a moda. Nós arrastamos uma perna, a moda arrasta duas. Caímos, a moda se joga. A moda é uma ofensa abominável, é um ríctus sarcástico, um jogo sexual, uma tabela, um desaforo baixo […]

O texto segue em prolixas definições até meu trecho favorito:

[…] o sopro no coração, o Leste dos autores, a Ponte do Limão, os carros fúnebres, a água no copo, o dia das mães, quinze Lojas maçônicas, um elemento artesiano, o cu de K, a cartola no lupanar, as meias abafando os gritos, o Miele […]

O que se pode elaborar deste tipo de tensionamento entre algo que é ao mesmo tempo o Miele, a Ponte do Limão e uma ofensa abominável? E disto que se trata esse livro. É isso que significa “Quero dançar até as vacas voltarem do pasto”. Surpreendente, o livro pode levar a um leitor casual a abandonar a leitura. Não é algo para preguiçosos, nem para acomodados, o que faz de uma aposta interessantíssima da Editora Draco ao publicá-lo. A meu ver a editora está apostando que os leitores brasileiros estão dispostos a conhecer autores nacionais provocativos e elaborados. É uma boa aposta e deve levar seu mérito. Recomendo facilmente o livro para pessoas habituadas a diversas formas de narrativa e já imbricadas na prática da leitura. Porém, acho que o livro pode ser um forte apelo para não leitores regulares, desde que sejam antecipados sobre a forma. Eu diria: “abra um capítulo e leia, se gostar abra outro e leia, e assim consecutivamente”. A estranheza sobre a falta de linearidade é um problema para quem já foi doutrinado na narrativa hegemônica. Para estes, “Quero dançar até as vacas voltarem do pasto” funciona como motosserra em tudo que é costume.

capa_querodancar-fechadaQuero dançar até as vacas voltarem do pasto.

Autor: Editor

Editora: Draco (2012)

Páginas: 196

Formato: 14cm x 21cm

Preço de capa: R$35,90 (papel)

R$ 19,90 (e-book)

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Diego é Psicólogo, Mestre em Psicologia Social pela PUC-SP. Colabora no site com textos sobre Cinema e Psicologia. É autor das pequisas: “Filmes de Terror e Psicanálise: Um esboço sobre os mecanismos psíquicos subjacentes a espectadores” e "Zumbis: O Discurso Inconsciente em um Fenômeno Social", ambas realizadas na PUC-SP.

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