Com Uncharted, a Naughty Dog foi uma das primeiras produtoras a criar um grande título exclusivo para o PlayStation 3. Embora hoje em dia o primeiro jogo da série já não seja grande coisa, na época os belos gráficos foram suficientes para deixar muito jogador babando. Agora, seis anos depois do lançamento de Uncharted e com o PS4 prestes a ser lançado, é a Naughty Dog a responsável por trazer um dos últimos grandes títulos do PS3. Mais do que um excelente jogo, The Last of Us é uma verdadeira obra de arte dentro do mundo dos games, se preocupando não apenas com a jogabilidade, mas também contando com uma narrativa cinematográfica. Aliás, muito diretor de cinema poderia aprender bastante jogando esta bela obra.

A trama de The Last of Us envolve o surto do fungo cordyceps entre os humanos. Esse fungo realmente existe na natureza, mas só ataca insetos, crescendo dentro do cérebro deles até o ponto de começarem a sair pelo corpo do pobre animal. No jogo, o cordyceps evoluiu e passou a infectar humanos, que se tornam extremamente agressivos, atacando outras pessoas. E como o fungo não para de crescer dentro do cérebro, quanto mais tempo alguém passa infectado, mais deformado fica o seu corpo. O jogo começa justamente quando a coisa toda está se espalhando e o protagonista Joel precisa fugir com a sua filha Sarah e seu irmão Tommy. Algumas coisas dão errado durante a fuga e a história dá um salto de 20 anos.

Ao contrário da maioria das histórias de catástrofe envolvendo vírus, em The Last of Us nós não presenciamos a coisa toda degringolando. Quando o jogo começa pra valer uma nova sociedade já está plenamente estabelecida. A cura para o cordyceps ainda não foi encontrada, mas novas infecções são mais raras de acontecer, pelo menos dentro das Zonas de Quarentena do exército. Nesses locais, os soldados agem com mãos de ferro e controlam tudo, inclusive a distribuição de comida. Quando detectam algum infectado que conseguiu entrar ele é logo eliminado sem dó. A vida não é fácil na ZQ, mas a alternativa seria viver no mundo externo, que possui muitos outros perigos além dos infectados, como os caçadores e canibais.

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É numa dessas zonas que Joel agora vive com a sua namorada Tess. Juntos eles fazem contrabando de suprimentos e armas para dentro e fora das Zonas de Quarentena. A vida deles começa a mudar quando são contratados para levar ao outro lado do país uma carga muito especial: Ellie, uma garotinha de 14 anos imune ao cordyceps e única esperança de que uma cura seja finalmente encontrada. Por mais clichê que seja essa história de última esperança, isso não é algo que estrague o jogo, já que o foco é o envolvimento emocional com a trama. E isso The Last of Us consegue fazer como poucos jogos.

Toda essa história do jogo que contei nos parágrafos acima, por exemplo, não foi contada por algum personagem ou por arquivos encontrados no jogo (embora existam arquivos para encontrar), tudo é transmitido ao jogador através dos cenários. Embora o começo pareça lento, é nessa caminhada inicial pelas ruas que você consegue perceber tudo que está acontecendo com o mundo. Em partes assim o jogo até mesmo tira o modo de corrida do controle analógico, fazendo com que o personagem caminhe com calma. Você ainda pode correr apertando o botão de corrida, mas acredite, fazer isso tira boa parte da imersão que você possa ter com esse universo tão fascinante. Não é raro também que, após alguma sequência de ação, venha uma grande parte sem nada para se enfrentar, apenas o cenário para ser explorado e relacionamentos a serem evoluídos. A minha imersão com o jogo foi tanta que essas acabaram sendo as minhas partes preferidas.

last_07Em diversos momentos é possível começar algum diálogo com o personagem que o esteja acompanhando (geralmente a Ellie) sem ficar parando o jogo com cutscenes. Caso o jogador queira apenas mais ação, é possível simplesmente ignorar essas conversas e continuar andando. Mas fazer isso é deixar metade da diversão do jogo de lado. A inteligência artificial da Ellie, por exemplo, é fantástica. Quando a personagem identifica que você não está indo pelo caminho principal, ela começa a se distrair com QUALQUER COISA do cenário. E isso sempre gera diálogos que fortalecem os laços entre ela e Joel (no caso o jogador). Ellie cresceu nesse mundo maluco, então ela pergunta sobre filmes, games e conta piadas sem graça saídas de algum livrinho do Ary Toledo. Impossível não ficar feliz pela menina quando ela finalmente aprende a assobiar.

The Last of Us é aquele tipo de jogo que brilha de verdade nos pequenos detalhes, geralmente protagonizados por Ellie. Ao derrotar um grupo de inimigos, por exemplo, ela cita uma frase de um gibi que ela está lendo. O interessante é que você pode passar sem matar ninguém, então essa frase nunca seria dita, ou aparece em outro ponto mais pra frente. Quando conseguimos um cavalo, o nome dele só é dito quando Joel desce do animal e comenta sobre o nome com a Ellie. Mais tocante do que isso é quando giramos 360 graus com o cavalo e Ellie se diverte dizendo o quanto aquilo foi legal. Pequenas coisas que fazem toda a diferença.

last_10Mais do que a busca da cura para o cordyceps, o jogo conta uma história sobre inocência perdida e a busca pela esperança num mundo caótico. Com isso em mente, não é a toa que o jogo seja dividido em quatro capítulos, cada um representando uma estação do ano. E cada uma das escolhas para os capítulos tem um significado profundo dentro da história que tornam tudo mais belo. O jogo começa no Verão e é justamente esse o capítulo mais intenso no quesito ação. É nele que acontecem a maior parte das cenas envolvendo correria, tiros e mortes impactantes. O Outono é um capítulo com menos ação e mais conversas significativas, porém, em preparação ao capítulo seguinte, ele possui alguns momentos que tem ligação direta com seu nome em inglês. A escolha da palavra “Fall” (queda) no lugar de “Autumn” para nomear o capítulo não foi mero acaso. Percebam ainda como nuvens de chuva começam a aparecer no céu pouco antes de um momento decisivo no capítulo.

O capítulo do Inverno é um dos mais tensos de todo o jogo, não apenas na jogabilidade, mas também emocionalmente. Praticamente o capítulo inteiro é jogado com a Ellie, que possui muito menos recursos que Joel, mas nem por isso encara desafios menores. Esse é um mundo cão, o rigoroso inverno é implacável e os desafios enfrentados pela garota acabam sendo até maiores do que quando os dois personagens estão juntos. Reparem como a dificuldade do capítulo vai aumentando junto com o vento e a neve que cai, representando toda a provação pela qual a garota está passando.

Tentando não dar muitos spoilers, o capítulo final do jogo não poderia ser outro que não a Primavera. Afinal, é a estação em que as flores voltam a crescer, é um tempo de recomeço. Se no capítulo anterior temos a cena mais brutal e impactante de todo o jogo, é nesta reta final que temos a cena mais bela de toda a trajetória. Quando Joel e Ellie observam um grupo de girafas, é como se o tempo parasse e ainda existisse espaço para a esperança e a inocência em um mundo tão cruel. Os momentos finais do jogo trazem ainda algumas rimas visuais com o começo da narrativa, deixando tudo ainda mais belo e repleto de significado. Todos esses elementos fazem de The Last of Us mais do que um game, mas um verdadeiro filme interativo.

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Detalhes “gamísticos”

Embora a narrativa e a direção de arte sejam os grandes atrativos da obra, The Last of Us ainda é um jogo de videogame e, felizmente, ele também é competente em todos os quesitos “gamísticos”. Começando pela jogabilidade, ela lembra muito a de Uncharted, com sistema de cobertura e tudo mais. A grande diferença fica por conta da furtividade, que é muito mais utilizada em The Last of Us, já que munição é algo raro em um mundo pós-apocalíptico. Já o combate corpo a corpo, apesar de também usar o mesmo sistema de Uncharted, é muito mais brutal. Joel passou 20 anos sobrevivendo nesse mundo, então ele realmente luta como se sua vida dependesse disso (e depende mesmo).

Mais raro do que munição, são os itens de cura e bombas. Em boa parte do jogo para conseguir esses itens será necessário que o jogador os construa. Durante a jogatina, nós encontramos tesouras, panos, álcool e outras coisas que combinadas formam os itens citados acima. Como algumas dessas coisas utilizam as mesmas peças, esse sistema acaba fazendo com que o jogador crie estratégias e pense muito bem antes de construir qualquer coisa. Além disso, o jogo não para na hora de construir os itens e nem na hora de se curar. Fazer alguma dessas coisas no meio de um combate pode significar a morte de Joel. Sem contar que alguns dos infectados mais fortes podem matar com apenas um golpe, tornando a ameaça muito mais realista.

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Graficamente o jogo é maravilhoso. A começar pelos personagens, é possível notar pequenos detalhes nos rostos, como rugas e cicatrizes, sem contar as expressões faciais que conseguem transmitir emoções melhor do que muito ator por aí. As roupas também possuem seus próprios detalhes, como pequenos buracos e remendos, cada peça é realmente única. O mesmo vale para os cenários. É impossível ficar entediado enquanto vaga pelos EUA devastado, todos os cenários possuem suas particularidades. Até mesmo locais como dormitórios de faculdades, que são teoricamente iguais, se diferenciam pelos objetos abandonados dos alunos. É como se realmente cada quarto fosse ocupado por pessoas diferentes, que viviam ali antes da catástrofe.

Tudo isso é completado com efeitos climáticos que deixam tudo ainda mais lindo. Reparem na chuva batendo na janela, não apenas a aparência real dela, mas também o próprio som de cada gota atingindo o vidro. As sombras dos objetos e dos personagens são dinâmicas, mudando de posição conforme o lado em que está a fonte de luz e sempre se movendo de acordo com os movimentos dos personagens. Falando em fontes de luz, quando Joel está de frente para alguma luz muito forte ele coloca a mão na frente do rosto para se proteger. Um pequeno detalhe que pode passar despercebido pela maioria, mas que demonstra todo o cuidado que a Naughty Dog teve com o jogo. Fechando a obra prima que é The Last of Us, temos uma trilha sonora sempre melancólica, que combina com o clima depressivo e de viagem que o jogo propõe.

7978451G1The Las of Us

Produtora: Naughty Dog

Plataforma: PlayStation 3

Nota: Obra de Arte

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Felipe Storino é carioca, criado na Zona Norte do Rio de Janeiro e radicado no Espírito Santo. Possui três grandes paixões: o Flamengo, cinema e games. Sobre os games, começou nessa vida ainda na época do Atari e do Odyssey e nunca mais largou os joguinhos. Quando não está jogando, está assistindo filmes, séries ou lendo gibizinhos. Recentemente virou grande entusiasta dos jogos de tabuleiro, comprando mesmo quando não tem com quem jogar. É orgulhoso possuidor de um Super Nintendo e um Master System 3 originais.

10 COMENTÁRIOS

  1. Gente, não sabia que aquele fungo existia mesmo!!! Terrível… Lendo a resenha fui relembrando de várias coisas e percebendo outras que nem tinha reparado, pra ver como esse jogo deixa um legado. A minha parte preferida foi jogar com a Ellie, ela passou por poucas e boas mesmo, tadinha. Só no final do capítulo inverno que ficou óbvio (pra mim) o que aquele fdp queria com a Ellie, foi horrível mesmo…
    Como eu sempre jogo no modo fácil, não tive muitos problemas com munição e artefatos. Jogabilidade ótima, e trilha sonora perfeita, como vc disse. Aquela música Alone and Forsaken se tornou uma das minhas preferidas.

    ^^

  2. concordo com cada palavra felipe, tenho trinta anos de “”jogos”” e esse
    realmente mexeu comigo..excelente jogabilidade, historia, personagens,
    enredo..um jogo a sempre ser lembrado, a fase da chuva na janela é
    onde vc vê o capricho da produtora..parabéns pela analise!!!

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