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Se a literatura de Philip K. Dick possui uma síntese, um corpus que envolva em seu interior todas as ideias que ele já enfrentou e discorreu ao longo de seus livros, essa obra provavelmente é Um Reflexo na Escuridão.
A paranoia futurista está lá, os questionamentos psicológicos, assim como as relações humanas em níveis deploráveis, apenas acentuadas pela tecnologia. É uma sopa de ideias fervilhante, um exemplo perfeito de ficção científica de primeira.

A trama envolve o Agente Fred, em uma Califórnia futurista, um infiltrado em meio a traficantes de uma droga da pesada, a Substância D. Mas Fred é também Arctor, justamente a personalidade que ele usa para se infiltrar em meio aos criminosos e descobrir como é produzida essa substância.

O ponto é que estamos diante de um thriller psicológico, não apenas sobre os efeitos da droga, mas de um derretimento da personalidade, já que a certo ponto Fred e Arctor escapam das fronteiras limitantes e se misturam perigosamente. Parte do problema envolve o fato do agente se esconder até de seus colegas, para impedir que sua missão seja descoberta. Ao ocultar o próprio rosto (com uma roupa misturadora visual, feita de forma exemplar na adaptação para os cinemas, A Scanner Darkly,  que colocou Keanu Reeves no papel principal), Fred sublima sua própria personalidade original e apenas dá vazão a segunda delas, a criminosa.

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É um jogo complexo, bem similar aos dilemas morais e psicológicos de séries de espionagem, a exemplo de The Americans, em que pessoas precisam viver uma nova personalidade por décadas. Em outras palavras: qual delas é real? A que veio primeira ou simplesmente a que melhor se ajusta à sua realidade?

Mas estamos falando de Dick e ele consegue ir além nessas questões. Primeiro por desenvolver um panorama típico da rotina de viciados em drogas. E, mais importante, de viciados em drogas da Califórnia, mais especificamente de Orange County. Esses detalhes demonstram o que Um Reflexo na Escuridão realmente é: uma narrativa auto-biográfica acerca dos efeitos das drogas, aliado a questionamentos básicos sobre a realidade. Principalmente a segunda questão é inerente em suas melhores obras, como as que deram origem a Blade Runner e Vingador do Futuro.

Além de Arctor e de toda a trama que gira ao redor dele, temos coadjuvantes que fazem as rodas girarem e ambientarem a trama. São todos viciados ou traficantes, amigos paranoicos cujas maiores preocupações é estarem sendo enganados pela polícia ou serem descobertos pela Receita Federal. Um deles, por exemplo (que estrela uma cena inicial angustiante) pensa estar coberto de piolhos por todo corpo, enquanto uma menina é uma espécie de par romântico mal resolvido de Arctor.

O livro é também um tipo de crítica velada às estruturas estatais e burocráticas, que cria uma série de instâncias para funcionar, quando no fundo todas elas são apenas formas de auto-legitimação. Assim como os drogados só pretendem sobreviver em um mundo sem leis, o Estado busca controlar os criminosos e não acabar com eles. É esse quadro preocupante que é responsável não apenas pela falência psicológica do protagonista, mas o leva a nem mesmo entender o que está fazendo ali.

O resultado é um só: paranoia. Enquanto os criminosos têm medo da própria sombra, os agentes da lei necessitam do disfarce até entre eles para evitarem que as operações não sejam destruídas.

Philip K Dick

Isso não é distopia ou futurismo especulativo, mas um quadro da realidade como ela é — e é há muito tempo, não apenas numa era em que o virtual controla o real. É exatamente nesse detalhe que reside a importância imensa de Philip K. Dick na literatura, que diz ver-se não apenas na dicotomia da personalidade de Arctor/Fred, mas também nos coadjuvantes pirados.

Em um sentido mais literário, Dick merece aplausos por manter suas ideias integradas ao clima sufocante do livro, que parece habitar um canto escuro de uma megalópole onde a única alternativa é ser um criminoso, pois do contrário será moído por uma máquina sem personalidade.

A edição da Editora Aleph ainda ganha pontos pela boa tradução das referências e jogos linguísticos de Dick, e por inserir entrevistas e material acadêmico acerca de disfunções psicológicas como a do protagonista.

aleph_umreflexodaescuridaoUm Reflexo na Escuridão

Autor: Philip K. Dick

Editora: Aleph

Páginas: 356

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Guerrilheiro Ontológico conhecedor das técnicas filosóficas sofistas. Anarquista individualista sem nenhuma preocupação de mudar o mundo! Mago do Caos! Dissidente da Verdade pronto para dar nós em todos os cérebros! Libertário! Jornalista especializado em games, quadrinhos, ocultismo e mind hacks! @VozdoAlem

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