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Em 1928 a revista norte-americana de horror e fantasia Weird Tales (Contos Estranhos) publicaria um dos contos mais icônicos da literatura fantástica, que influenciaria toda uma geração (e um gênero) e se tornaria um dos pilares da nossa cultura pop-alternativa-rpgista hoje: The Call of Cthulhu (O Chamado de Cthulhu) de H.P. Lovecraft. Misturando questões cósmicas ao horror, a trama mostrava o culto a um ídolo de argila, o Cthulhu, que traria catástrofes ao mundo caso despertasse. Cthulhu possui traços humanoides e inúmeros tentáculos que percorrem seu corpo, em outras versão é uma criatura totalmente amorfa e octópode. Foi com ele que Lovecraft criou toda uma mitologia própria, que reverbera até hoje. Uma prova disso é o álbum O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos, publicado em 2016 pela editora Draco, reunindo 8 histórias produzidas por autores e desenhistas diferentes, todas interpretando (cada uma à sua maneira) algo relacionado aos Mitos de Cthulhu.

É a segunda coletânea de terror da editora, sendo a primeira O Rei Amarelo em Quadrinhos (relacionada ao universo de Robert W. Chambers), e segue o mesmo estilo gráfico da primeira: impressão em duotone, com preto (ou tons de cinza) + uma cor. Se antes foi o amarelo, agora temos um verde cósmico para dar mais consistência ao universo grotesco de Lovecraft, com muito sangue, gosma, vômito, tentáculos, secreções, mistérios, cidadezinhas do interior e assassinatos. Uma coletânea de terror que não sofre do mal das coletâneas: todos os contos são acima da média e mantém a qualidade e coesão da proposta. Claro que um e outro se destacam, mas não há azarados.

Review especial sem spoilers!

O SALMO DO SANGUE ANTIGO

A história que abre o álbum é “O Salmo do Sangue Antigo“, de Dudu Torres, que traz alguns pontos interessantes que permeiam todo o Despertar de Cthulhu em Quadrinhos, que comento daqui a pouco. Nela, um rapaz visita a mãe de seu amigo que acabara de se suicidar. A mãe, que é uma velha sinistra, acaba por levar tanto o rapaz quanto o leitor pra uma outra realidade. A arte é boa, com duas ótimas sequências, sendo a primeira em duas páginas quadriculadas, mostrando a conversa e o olhar do rapaz e da senhora na mesa, fazendo um bom uso do “verde cósmico”, além da cor preta. É uma cena que me lembrou a história Fachada de Sandman, em ambas há a revelação à mesa, quando as máscaras caem (literalmente em Sandman, aqui mais no figurativo). A segunda sequência, quando finalmente podemos ver um vislumbre da criatura com tentáculos, deixando nas entrelinhas o seu corpo. É um conto que conversa com o gore japonês e esse é um dos pontos interessantes de se comentar. Apesar dos contos serem inspirados no universo de Lovecraft, que foi um autor norte-americano, boa parte deles bebem muito do horror oriental, seja na temática ou no estilo.


OS TAMBORES DE AZATHOTH

Ambientada em meio à Segunda Guerra Mundia, “Os Tambores de Azathoth” traz um pouco mais de complexidade e toneladas de referências reais. Oppenheimer, um dos criadores da bomba atômica, com medo de ter liberado algo terrível na explosão, visita o mago Aleister Crowley na Inglaterra, para sanar suas dúvidas. Unir Lovecraft aos horrores da guerra, às cenas grotescas de Hiroshima, foi uma decisão bastante ousada e acertada no roteiro de Antonio Tadeu. Há também, no subtexto, uma metalinguagem com o próprio H. P. Lovecraft, unindo ficção à realidade. A arte de LuCAS Chewie não traz o verde cósmico tão delimitado quanto a anterior, mas mantém um traço com um pé no gore japonês, com cenas bem chocantes (como pele soltando do corpo) e algumas oníricas de página inteira que são show. Os autores provavelmente são fãs de Raul Seixas e sabem do que estão falando: há uma certa lenda que Crowley possui uma ligação com Lovecraft, assim como também teve certa influência em Raul, sendo citado na música Sociedade Alternativa; numa determinada sequência de “Os Tambores de Azathoth”, os textos lembram muito a música Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás. “Eu vi a sombra da morte impregnada nas ruas. Eu vi pessoas desesperadas para fugirem das chamas […]. Eu vi…”. Coincidência? Acho que não! As conexões que o conto abre são tantas, que eu mesmo viajei bastante.


MACIO

Saindo um pouco das terras nipônicas, “Macio” é ambientando numa cidadezinha brasileira, provavelmente do sertão. Uma epidemia toma conta do lugar e as pessoas enlouquecem sem saber o que fazer. O roteiro é de Airton Marinho e aposta numa narrativa sem muitas explicações, o leitor precisa mergulhar na história, mas sem questionar muito. Como boa parte da mitologia Cthulhu, temos que ir preenchendo as lacunas. Imaginar. A arte de Fabrício Bohrer é mais tradicional, com traços grossos, mas traz balões de fala e onomatopeias que fogem do comum, dando maior flexibilidade aos quadros. O que é muito bom. “Macio” é interessante por trazer um gore à brasileira: muitos vermes, moscas, corpos em decomposição e gente explodindo. Um dos personagens, um bode pai-de-chiqueiro, é quase que a representação da própria Peste, o Cavaleiro do Apocalipse, caminhando pela estrada e disseminando o caos numa excelente sequência.


SOB A INSANA LUZ

Dois detetives chegam numa pacata cidade para investigarem o possível desaparecimento de um outro agente e de uma equipe científica, mas acabam descobrindo que a cidade não e tão pacata assim. Talvez esta história, “Sob a Insana Luz“, seja uma das mais carismáticas do álbum. E também uma das que mais se aproximam do estilo de H. P. Lovecraft, trazendo a veia policial. Caiuã Araújo é o roteirista, criando um ambiente rico e expressivo em poucas páginas. Apesar de seguir um percurso já conhecido das histórias policiais, ainda reserva algumas surpresas ao leitor. Os desenhos são de Marcio de Castro, num estilo mais “rabiscado”, cheio de hachuras e cartunesco, como uma animação. Seus personagens parecem bonequinhos, um charme. Também há efeitos de luz e sombra incríveis, utilizando do verde cósmico. Um dos pontos que deixam o conto fechadinho é o detalhe à outras personagens e locais (como um Hotel Arkham), que vão aumentado a tensão de “cidade pequena onde todos são suspeitos“. Como deu pra perceber, a maioria dos autores optaram por trazer a figura de Cthulhu nas entrelinhas, surgindo aos poucos.


CLHITHMAEK’ TYIVH

Esse conto de nome impronunciável mostra uma dupla de arqueólogos entrando em contato com um tribo estranha, mas o encontro dá errado quando os nativos iniciam um ritual macabro para invocar uma criatura. Lucas Pereira é o roteirista e desenhista, num estilo mais hollywoodiano de narrativa e também mais americanizado no traço, com direito a mulher pagando “bundinha” e vários recordatórios de pensamento. Filmes como Canibal Holocausto e Alien (ambos de 1979) provavelmente serviram de inspiração. A ilha é cheio de gente empalada e canibalismo, criando uma tensão legal no leitor, que corre junto da protagonista. O estilo gráfico do autor se destaca por ser mais “colorido”, não havendo praticamente preenchimentos brancos, tudo em tons de cinza ou verde.


A LÍNGUA DA FÉ

Com roteiro do próprio Raphael Fernandes, que é o organizador da coletânea e editor da editora Draco, em “A Língua da Fé” temos o encontro dos cultos de Cthulhu ao missionarismo e fanatismo de certas religiões atuais, que dominam a TV e manipulam seus fiéis. O protagonista é um homem fracassado que se une a um desses cultos, mas descobre que as coisas não são bem o que parecem ser. Um conto de suspense que poderia funcionar como um episódio de Arquivo X, com direito a muito delírio, sequências embaralhadas e perda da noção de realidade. A arte de Samuel Bono também é recheada de hachuras, com destaque ao uso de manchas verdes e texturas diferentes, gerando sequências de sonho incríveis. Além da crítica à essas religiões, é um conto que traz vários questionamentos, como até onde vamos para se redimir? Ou para salvar a família?


O CASO DA TRUTA SALMONADA

Dos 8 contos que fazem parte de O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos, este é sem dúvidas o mais estranho. E também o meu preferido. Jun Sugiyama nos mostra uma história repleta de nonsense, onde um sushiman passa a receber estranhos clientes com rosto de peixe e percebe que, ao cortar os filés para preparar os pratos, todos gritam como se sentissem na pele a dor. É uma interpretação dos Mitos de Cthulhu bastante peculiar, onde a entidade (ou entidades) possuem certa conexão com estes outros seres marinhos. É cômico por um lado, pois é como se o Studio Ghibli encontrasse a Fenda do Biquini, mas por outro é bastante aterrorizante, bizarro e grotesco. Todo mundo gritando é perturbador! O final guarda uma surpresa, com mais tentáculos surgindo de maneira discreta. Um conto muito carismático!


O QUE DORME

Fechando a coletânea, temos Bárbara Garcia escrevendo um conto sobre uma cidade que passa a feder insuportavelmente e onde nenhum cidadão consegue mais dormir. Uma ambientação perfeita para reinar a loucura e o vale-tudo entre as pessoas, colocando pra fora o que há de pior em cada um. A arte de Elias Aquino é bastante bonita, com trechos mais aquarelados e com personagens também no estilo “bonequinho”, conseguindo mostrar o clima pacato e cotidiano dessa população. O final é um pouco abrupto, mas faz uma ótima ponta ao Cthulhu, sendo uma das histórias que mais tem essa pegada de “invasão alienígena”, do fim do mundo sendo anunciado pela vinda da entidade cósmica.


O Despertar de Cthulhu em Quadrinhos é um álbum muito bonito e essencial para fãs tanto do gênero terror quanto aos fãs de H. P. Lovecraft. Todas as histórias são boas e mantém a consistência da coletânea, um bom trabalho do editor Raphael Fernandes. A editora Draco vem publicando diversos quadrinhos nesse formato, abrindo editais para que roteiristas e desenhistas enviem seus trabalhos, dando maior visibilidade aos criadores independentes e também movimentando o mercado nacional de HQs. O terror nacional, mais especificamente, ficou lá na década de 1980, morrendo nos anos 1990. Até pouco tempo atrás, não tínhamos muita coisa do gênero, com exceção de um ou outro gato pingado ou republicações. Assim, a editora vem retomando essa nossa tradição e no melhor estilo, com contos de qualidade. A capa feita por João Pirolla é linda e também a retratação mais categórica de Cthulhu, que faz aparições menos explícitas no miolo. O acabamento da edição é em capa cartonada, com orelhas e reserva em verniz, papel de qualidade e com uma pequena biografia dos envolvidos. Só senti falta de uma introdução ou de algum texto falando sobre o trabalho de H. P. Lovecraft e da mitologia de Cthulhu, pra melhor contextualizar o leitor.

Aproveitando o embalo, algumas HQs de terror que indico: as também nacionais e excelentes Vigor Mortis Comics e Prontuário 666 e os mangás The Ring e Panorama do Inferno. Clique na capa pra ler a resenha.

 

 

 

 

 

 


 

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Estudante de Artes, consumidor compulsivo de HQs, amante da psicodelia, sonhos, nonsense, teorias da conspiração e colagens. Um mutante.

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