Em seu novo longa-metragem Rifle (2016), Davi Pretto desdobra a articulação entre ficção e realidade, já presente em seus filmes anteriores. Porém, ao invés de retomar a mescla entre documentário e fábula, como já havia realizado em Castanha (2014), Pretto optou por tensionar uma espécie de realismo baziniano com uma variação eisensteiniana dos westerns de Anthony Mann. Assim, há em Rifle o interessante conflito formal entre a o uso experimental do realismo e a herança de um cinema de narrativa clássica.

Entre Eisenstein e Bazin

O filme é protagonizado pelo personagem Dione, interpretado por Dione Avila de Oliveira. O elenco é composto por uma mescla de atores profissionais e atores estreantes, que podem ser identificados por serem homônimos aos seus personagens. Pretto buscou em populações sertanejas, uma família que pudesse “interpretar-se” frente às câmeras. Trata-se do método de seleção de elenco eternizado por Eisenstein. O cineasta soviético acreditava que as melhores performances brotavam de qualidades tipológicas já presentes na pessoa que se dedicava às interpretações. Nesse sentido, não se trata de dirigir um ator com o intuito de  transformá-lo na personagem desejada, trata-se mais de encontrar alguém que tenha muito da personagem desejada em si e transformá-lo em um ator.

Apostando na estereotipia, Pretto recorre à ideia de encontrar seus personagens naturalmente incrustrados nos maneirismos de pessoas comuns. O efeito deste método ressoa violentamente na experiência dos espectadores. Por exemplo, devido a esta aposta, ocorre que em geral os diálogos são indecifráveis. Entretanto, isso não se refere a um problema de captação sonora de maneira alguma. Lembremos que além de insistir no uso de não-atores em seus filmes, Eisenstein também resistiu ferozmente ao cinema-sonoro, por algum tempo. Dentre os vários motivos pelos quais a resistência se sustentava, um deles era a ideia de que “verbalizar” no cinema é “verbalizar-se corretamente”, ou seja, em última instância, “falar como falam as elites”. Não entendemos os diálogos em Rifle porque eles não estão endereçados aos espectadores da elite. Quando um colega de Dione lhe conta sub à luz das estrelas o “causo” de um rapaz que foi jogado no poço, não há quarta-parede. Não há o esforço extra-diegético de se fazer entender. Diegéticamente basta que Dione e o colega compreendam-se. É esta relação de exclusão do espectador que estamos chamando de “realismo”.

Mas não é no cast estereotipado que reside o realismo deste filme. O realismo está no vento forte balançando as árvores e a folhagem, na tempestade de raio a quilômetros de distância e nas ovelhas que resistem ao abate, por exemplo. São imagens captadas de acontecimentos não planejados, que não são efeitos especiais ou resultado da montagem. Não que a montagem esteja proibida, mas Pretto acolhe o inesperado, pós-decupando-o, isto é, transformando-o em algo que parece ter sido “planejado desde sempre”. Assim, o cenário torna-se uma espécie de personagem em improviso, privilegiado aos olhos da câmera, assim como prezava Bazin.

Os objetos e Mann.

Rifle é um filme sobre objetos. Em uma cena particularmente interessante, vemos Dione revirar um amontoado de objetos dentro da choupana. O primeiro que se destacar é uma serra-elétrica. O segundo, em meio a vários não reconhecíveis é um computador empoeirado. Por fim, o terceiro objeto é aquele que dá o título ao filme, o Rifle. A serra-elétrica nos lança àquela outra narrativa sobre uma família vivendo em uma zona deserta no interior. Àquela família que tem um filho esquisito, muito preocupado e agressivo com os viajantes que atravessam a estrada na porta de sua casa. De Craven à Hitchcock, Pretto tangencia esta narrativa como uma potencialidade nunca executada. Dione poderia se identificar à serra-elétrica, mas não o faz. Assim, este primeiro objeto funciona tanto como um foreshadowing, quanto como um objeto proustiano capaz de lançar o espectador há outras memórias sobre outras narrativas.

O computador aparece como um objeto desproporcional. Ele não devia estar ali, pois sua aparição no campo é profana. Nos perguntamos: “o que faz esse computador ai?”, e o filmes responde: “nada, não devia estar aqui.” e o problema dele é que ele está. Com o avançar da película, conseguimos identificar que o esse objeto inadequado é uma projeção de Dione. Como se os sentimentos e pensamentos da personagem tivessem materializado sob a forma de computador invasor. Esse objeto insólito é o mediador entre a serra-elétrica e o rifle, representando ao mesmo tempo à “urbanidade” que tanto ameaça Dione e uma esperança de um futuro que já havia sido abandonado naquela família.

Já o rifle que dá nome ao filme é o objeto/herói manniano por excelência. Dione é a versão graciliana de Lin McAdam vivido por James Stuart em Winchester 73. Preso dentro de um amplo espectro que o qualifica como justiceiro, vilão e até mesmo bandoleiro reformado, tem como característica principal o “não-pertencimento”. Dione não pertence à zona rural, não pertence à vida niilista de Mariano e não pertence à pacata cidade onde mora Vitória. Ele pertence a “lugar nenhum” e não possui função social definida. Não é dono daquela terra, não é fazendeiro milionário, não é um ermitão, não é filho, não é marido. Sabemos que foi militar e que foi pai, mas não entendemos o que defende. Dione faz coisas, mas sem propósito, é como o rifle que somente atira para onde apontarem.

É por isso que para o espectador, a narrativa sem desenrolada de maneira bastante clássica no primeiro ato. Apesar dos atravessamentos contingenciais do ambiente externo e dos atores não convencionais, a história é simples. Dione e a família que o acolheu recebem uma proposta por sua terra. Evaristo e sua família estão tendenciosos a aceitar, mas Dione revolta-se contra isso. A continência de sua revolta, o leva ao segundo ato do filme e ao desamarrar da narrativa clássica. A partir do momento em que Dione “desenterra” seu rifle, não estamos mais diante de uma sequencia lógica entre “começo, meio e fim”. Dione é o rifle.

Rifle, 2016

Duração: 1h 28min

Diretor: Davi Pretto

Tokyo Filmes; Vitrine Filmes (distribuidora).

Elenco:  Dione Avila De OliveiraEvaristo Pimentel Goularte,Francisco Fabrício Dutra dos Santos.

 

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