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Poucos e bons vão ler esse manifesto, mas eu não me arrependo. Estou sentado na frente de um iMac, financiado pelos insumos da minha faculdade particular, matando aula e ouvindo System of a Down, vestindo uma camiseta do Clube da Luta. Um desavisado pensaria: “que hipócrita! Que contradição! System of a Down é uma banda de protesto anticapitalista, e não se fala sobre o Clube da Luta!“. E talvez eu seja mesmo.

Mas a primeira regra que você deve aprender, jovem Padawan, é: você e o Poder são inimigos. O Governo é o adversário do povo, para a manutenção do Poder. Mas calma, eu vou explicar.

Em 2002 eu tinha 11 anos, quando um amigo muito barbudo do meu pai perguntou por que eu bebia Coca-Cola. Ele disse que o refrigerante financiava a Guerra do Iraque: “vocês ficam tomando essas merdas, comendo no Mc Donald’s, usando Nike! Esses produtos todos pagam impostos que são revertidos em equipamentos bélicos! E o Bush só tá interessado no petróleo! Não há terroristas! O 11/9 foi uma farsa!“. Eu acreditei em tudo aquilo. Parei de beber Coca-Cola. Parei de comer no Mc Donalds.

No mesmo ano, conheci o System of a Down através da MTV numa madrugada em que estava na internet. Eles tinham acabado de lançar o clipe de Chop Suey! Eu achei muito louco o jeito que aqueles caras tocavam, e também era muito louca a maneira que eles atravessavam os corpos uns dos outros, no palco. Procurei mais e encontrei o álbum “Toxicity” deles numa feira do centro da cidade que vendia produtos piratas. Foram os cinco reais mais bem gastos da minha vida.

Passei a difundir o anticapitalismo. Falava pros meus amiguinhos da escola que eu era anti-americano, que eu não contribuia para a Guerra no Iraque, que eu não comia no Mc Donalds e não tomava Coca-Cola. Nas festinhas de aniversário, só tomava Guaraná Antarctica: “é da Ambev!”.

Foi assim até os meus 15 anos, quando meu pai me encaminhou para a vida metalúrgica através do SENAI. Comecei a ganhar meu primeiro salário com essa idade e, já mais maduro, pensei que não havia mais sentido não consumir os produtos americanos, porque eu trabalhava numa multinacional – quer coisa mais capitalista que isso?

Eu nunca fui muito rebelde. Jamais bateria o pé para as decisões do meu pai. Tentei reivindicar, mas confesso que a ideia de ter um PlayStation, garotas, poder pagar minha passagem e meus CD’s sozinho, enfim, uma graninha só pra mim no fim do mês, era muito tentadora. Me vendi.

Nessa época eu ainda ouvia SOAD, mas menos. Eles lançaram os gêmeos Mezmerize e Hypnotize, antes de dar uma longa pausa nos trabalhos da banda. Em 2006 a internet banda larga estava começando a ganhar força e popularizar no meu grupinho. Só eu ainda não tinha. No bairro que eu morava não tinha nem asfalto, quanto mais internet banda larga. Eu ouvia meus CD’s piratas do System num radiozinho que eu comprei com meu dinheiro, mas não sentia muito orgulho do que eu tinha feito. Eu havia traído o movimento.

Depois de um longo intervalo, em 2011, a banda veio tocar no Brasil pela primeira vez. Eu, com 20 anos, uma namorada, um carro e estabilidade financeira, fui ao show. Foi lindo, me emocionei muito. Quem abriu foi uma banda muito boa, chamada Macaco Bong. Os fãs xiitas criticavam e gritavam pra eles saírem do palco, porque queriam ver a banda que moveu multidões e foi a voz do repúdio à guerra.

Apesar de emocionante, rolou uma pequena decepção. Parecia que a banda não estava tão animada. Serj cantava firme, fazia poucos movimentos e não se envolvia muito com o público. Pelo menos era isso que eu conseguia ver pelo telão, lá no fundo da pista. O mosh estava bem violento pra encarar com minha garota. No dia seguinte, vi exatamente o mesmo show, televisionado pelo Canal Multishow, no Rock in Rio. Os mesmos movimentos, as mesmas músicas, e até a mesma camisa! Parecia reprise, mas não era. O System repetiu o enlatado para os dois shows, Rio e São Paulo. Justo.

E por que eu contei essa história romântica entre eu, o System, o Sistema e o Movimento? Simples: a banda envelheceu exatamente na época em que ela necessitava de juventude, e quem era fã dos caras lá no ápice, como eu, naquele momento, já não era mais tão fã assim. Até os próprios fãs xiitas que reclamaram do Macaco Bong. Eles só estavam bêbados e queriam se bater por diversão. Poucos foram os que prestaram atenção naquele show. Entre 2010 e 2012, uma onda de protestos tomou conta dos noticiários. Você com certeza ouviu falar da Primavera Árabe. O mundo vibrava ao redor desse movimento, que foi quase todo comandado e organizado através da internet. O povo se virou contra seus líderes, e tomou as ruas para derrubar as ditaduras! A principal ferramenta do processo foi o Facebook. Começou na Tunísia e se espalhou pelo oriente médio. E cadê o System nessa hora? Cadê a banda de instrumental pesado e letras afiadas e sarcásticas, com integrantes armenos que gritavam por liberdade na televisão e indagavam: “Why don’t presidents fight the war?“. Ninguém sabe.

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Eles provavelmente estavam fazendo alguma coisa. Heróis não tiram férias. Mas sumiram da mídia. Não tinham tanto destaque como em 2002. Mas, mais importante que isso, onde estavam os fãs do System? Onde estavam os discípulos dos ensinamentos libertários de Serj Tankian? Todos com 20 anos ou mais, com seus carros e namoradas, cansados e viciados em seus gadgets, cervejas importadas, videogame e UFC. Enquanto a pipoca começava a vibrar para explodir bem no núcleo do planeta, todo o resto estava interessado apenas em usufruir a internet e suas ferramentas da melhor forma possível. Esquecemos nossos ideais, justamente porque eles nos foram ensinados muito cedo.

A Primavera Árabe foi o fim de uma era. Foi o último grito de liberdade de um povo. E nós, ocidentais, nem ouvimos, afinal, já somos livres. Todo mundo conseguiu o que queria. Vivemos todos em democracia (salvo raras exceções), todos somos livres para fazermos o que quisermos. Então por que não tá nada conforme o planejado? Jovem Padawan, a história se inverteu. Lembra o que eu falei lá no começo do texto, sobre o Governo e o Poder, e que eles são nossos eternos inimigos? Então. Agora temos tudo o que precisamos. Anteontem, pegando o trem de volta pra casa, eu desafiei mentalmente um policial, folheando uma revista sobre a legalização da maconha. Uh, que badass! Minutos depois, um vendedor de balas foi mais radical que eu e anunciou seus produtos na frente do oficial. Viva a liberdade de expressão! Mas nós ganhamos? Não, nós seguimos perdendo.

O policial estava tão cansado quanto eu e o vendedor, e a última coisa que ele queria fazer naquele momento era questionar o certo e o errado perante a lei. Isso porque o Poder não estava investido nele naquele momento. Ouça, Padawan, a repressão está acontecendo! Agora, nesse momento, enquanto você lê esse texto extenso e cansativo. Na verdade, eu não sei nem se você vai ler esse texto, porque eu sou apenas um redator de blog, e quando eu terminá-lo, ele vai passar por um moderador que vai dizer se ele cabe ou não na linha editorial do veículo. Ele está com o Poder. Ele decide.

E pode ser que esse texto nem chegue até o moderador, porque estou escrevendo-o na caixa de texto do Gmail. Você leu os termos de utilização do Google? Nem eu. Pode apostar que ao mesmo tempo em que eu digito isso aqui, um macaco de alguma ilha perdida do Pacífico, que precisa sustentar seus cinco filhos e sua mulher lê e reporta alguma irregularidade para a Matriz. Onde estão os servidores do Google? Onde a nuvem que você armazena seus arquivos está hospedada? Você deve estar pensando: “mas o que isso tem a ver com repressão? Ninguém está me privando de nada!”. Não sei onde eu tomei conhecimento disso – e por isso vou me tomar como exemplo – mas ouvi algo sobre “punir e vigiar”. Dê uma pesquisada rápida aí. Vigiar e punir, Michel Foucault. O arquivo da wikipedia é pequeno, dá uma conferida. Vê se não tem a ver com o que tá acontecendo hoje.

Hoje todo mundo pode fazer o que quiser. A internet é livre. Você pode ouvir música, baixar arquivos, compartilhar fotos de cachorrinhos abandonados e mais uma porrada de coisas que, na real, não são importantes para o futuro da sociedade. Atualmente somos escravos do presente. É tudo instantâneo, momentâneo, efêmero. Contribua com seu compartilhamento para achar uma pessoa desaparecida. Mas amanhã vai ter outro desaparecido, outro cachorro perdido, outro mendigo com fome. Remediamos tudo momentaneamente, ao invés de curar o mal na raiz.

E sabe por que isso acontece, Padawan? Porque nosso inimigo descobriu que não é a cerca que prende o cavalo, mas a grama. O Inimigo conseguiu Poder através da liberdade. Quando todos falam ao mesmo tempo, ninguém consegue entender nada, e aí não acontece nada. Quantos tweets você faz por dia? Quantos posts? Quantos compartilhamentos? Quantos likes? Tudo isso é esquecido por nós no próximo minuto, mas registrado pelo Inimigo. Se bobear, o diretor de marketing do Facebook te conhece melhor que a sua mãe, a julgar pelos likes que você dá diariamente. Ele sabe o que você quer comprar, e assim, ele te tem na mão. E o Poder nas mãos dele vai fazer com que ele apenas invista para que você continue curtindo e compartilhando. Mas ele não tem culpa, é o trabalho dele.

Então, concluindo finalmente, se você conseguiu chegar até aqui, você é um dos poucos que tem salvação. A guerra não acabou, e nem vai acabar. Eu não sei o que devemos fazer, mas estou fazendo o que eu sei, que é o que eu tenho me especializado durante todos esses anos, desde os 11 até agora. Os Árabes usaram bem a ferramenta dada pelo próprio inimigo. Se você perdeu seu tempo lendo tudo isso, provavelmente entendeu que, na real, o tempo não foi perdido. Esse é o estopim para aquele jovem metaleiro cebeludo e rebelde que você era quando ouvia System of a Down se rebelar e se especializar em alguma coisa. A margem não ajuda em nada. Quase tudo serve. Use sua criatividade.

Acho que depois de tudo isso, não sei se traí o movimento. Às vezes, pra seguir em frente é preciso fazer algumas curvas.

Lucas Panoni Oliveira, 17 de maio de 2013

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5 COMENTÁRIOS

  1. Eu sempre me senti da mesma forma, a ansia de se rebelar era maior,de afrontar, e talvez seja todo esse comodismo que nos prende,e faz sermos escravos não só do Sistema mas de nós mesmo, daí o consumismo a insatisfação e as tais depressões.

    Esse era o texto que eu precisava ler pra saber que minha pré adolescencia foi bem servida. E que não vamos parar aqui.

  2. “Porque nosso inimigo descobriu que não é a cerca que prende o cavalo, mas a grama. O Inimigo conseguiu Poder através da liberdade.” Lendo esse manifesto me lembrei do Grande Irmão, parece que no mundo real ele é bem mais sutil… Ótimo texto, me lembrou anos de ~rebeldia~ adolescente.

  3. =

    Ah minha adolescência de volta ae
    simplesmente adorei o texto, só quero ressalvar
    que, pra mim, não existe esse lance de se vender e talz
    apesar de não beber refrigerante algum ((primeiro por punkismo, depois por saúde))
    Não discrimino os “roqueiros” que bebem.

    Bom, excelente texto
    e sim…mais pessoas deveriam ler ele!!

  4. Mesmo com essa onda de protestos pelo Brasil é fácil visualizar, como você disse no texto, “Quando todos falam ao mesmo tempo, ninguém consegue entender nada, e aí não acontece nada.”. E nada tá realmente acontecendo e nem vai. Por um instante eu acreditei que ia, até fui pras ruas, mas agora eu sei que não vai mudar, não por esses tempos pelo menos.
    Outra coisa que gostei, “Tudo isso é esquecido por nós no próximo minuto, mas registrado pelo Inimigo.” Ele registrou assimilou e já utilizou contra nós, fez parecer que ir no protesto pra tirar foto é legal e quem já tirou suas fotos já nem sai mais pra rua, fizeram-nos acreditar que temos só de mostrar e falar “eu participei, eu tava lá”, mas mudar que é bom, nada. O tempo de mudar chegou, mas ninguém realmente mudou.

    Ótimo texto cara!

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