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Não pode sentar aí, fella, vou logo avisando. Você pode ser morto por sentar aí. Vão puxar teus interiores pelo cu e vão te virar do avesso. Não vai querer sentar aí. Quer sentar aí? Não quer. É novo aqui? Tem cara. Eu ‘tava brincando, relaxa. Pode sentar aí. Deixa eu te apresentar o lugar; aqui no balcão você pode pedir um Mob-Messiah a preço de contrabando. Tem gosto de ressaca e cor de xarope. Não é da melhor qualité, mas fazer o quê? Hoje mais cedo a garçonete me cuspiu fumaça de sigarot e me-mandou-me eu ir me foder. Todo mundo é meio hostil por aqui, jungle-treta, melhor colar comigo. Na musiek-box ‘ta sempre tocando algo esquisito — fusion, uns batuques, uns trompetes, umas lombras, Pimp Soil Sessions, uma loucura, só balanseer. Nos fundos, atrás do índio, por ali assim, uma galera cheira baby woodrose havaiana enriquecida geneticamente, LA-111, tremendo pó de voodoo. Curte? Vejo que curte… seus olhos não mentem, fella, tem cara de curtidor. Seu tipo sempre dá as caras por aqui, uma heure ou outra, pode apostar. Este boteco nunca foi melhor que isso. Vai precisar de um brother por aqui. Acontece d’eu estar disponível e conhecer bem a área.

Nasci aqui pela região quando ainda nem era cidade, sacomé? Eu era apenas um pequeno filho de puta e havia aqui apenas um pequeno puteiro, se pá pouco mais que isso. Mas a região virou rota de comércio de madeira-wood-wood, conhece? É natural. Nada sintético. Difícil acreditar? Eu sei. Mas é verdade. Um dias as putas acordaram — o elástico velho das cintas-liga quase se rompendo para estalar aquelas bundas de meia idade — e da noite para o dia, plow!, o puteiro não era mais a única barca na boa vizinhança. Veio de tudo para cá. Dinheiro de verdade começou a passar pela região…, dinheiro que não dá para ganhar só balançando as tetas e nem contar nos dedos. Ao menos não nos meus, mas vejo que tem todos os seus e isso é good — muito good. Anda precisando de dinheiro, não é? Sei que anda. Deixa eu te contar uma história. Puxa uma cadeira, toma teu trago, acende esse teu tryptophan sigarot que o Sahasrara Overload Strip Club Jazz Balanseer Pub Boteco e Tudo Mais não tem heure para fechar. Gosto de uma boa história, sabe? Não consigo negar a classe. Mas onde estão meus modos de merda? Esqueci de me apresentar. Trabalho no negócio da madeira há muitos anos, sou brother empreendedor, sacomé?, tenho um barco, o Mammonboot. Sou pescador de slang-arbores. Meu nome é Freda Hepburn Nitro-Foucault Brachiossauro Jean Baudrillard. Mas relaxa, sem treta, sem pressa, pode me chamar de Freda Seis-Dedos.

Lembro bem, ironicamente… Enquanto o resto da tripulation ‘tava no Sahasrara tomando todas, me recuperava de uma ressaca na minha cabine no Mammonboot injetando peróxido-de-sei-lá-o-quê na espinha com um injetador de tempero, sentindo os neurônios estalarem em curto-circuito da cabeças aos pés. Imaginei que fosse heure de partir para a pesca, mas não achava de forma nenhuma os dados da encomenda que recebera no dia seguinte e que desencadeara em mim um frenesi de comemoração que culminara naquela leve ressaca. Revirei tudo. Espalhei os papéis na mesa, mas não havia nenhum um número, nenhum telefone, nem mesmo um desenho que fosse. Como eu saberia quem era o interessado na compra do slang-arbore que fora avistado? Deveria ficar gritando na rua até aparecer um comprador? Pagariam preços baixíssimos, sacomé? Poderiam aparecer tiras querendo me prender por contrabando de madeira. Me-emputeci-me. Irritado, tirei o pinto para fora e liguei a pequena bomba de pressão ligada à bexiga. Não tenho idéia do por que urinei sobre tudo, mas acredito que seja por que tenho como mãe a mesma pessoa que é minha irmã e como pai o meu próprio avô. Dizem que essas coisas bagunçam sua cabeça for real…

Devo ter ido morar com meu pai por volta dos treze. Ele era tão gordo quanto bem alimentado. Era dono de uma barca-cassino. Nos fundos dela rolava uma estufa e lá um jardim que ele cultivara. Eu e meu pai nos odiávamos, como as pessoas costumam fazer, saca? Um dia lhe roubaram dinheiro e ele foi atrás dos ladrões com uma seringa cheia d’água, um gato, um baralho e vaselina. Era um cara criativo, admito. Mas de qualquer forma deixara a estufa aberta. Aproveitei sua ausência e corri para seu jardim para exercitar meu ódio; pisei sua horta e defequei nas orquídeas. Cagado de medo escalei a única árvore que conseguira crescer em uma estufa merda daquelas, separada do ar intragável lá de fora por uma grossa redoma de vidro. Já viu uma árvore de verdade? Imaginei que não. Mas bem, quando ele viu o que eu havia feito disse para eu descer da árvore para que pudesse me abater. Família, sacomé? Ficamos ali por alguma heures, falávamos pouco. Eu em cima. Ele embaixo. Embora ele tivesse um machado em mãos eu sabia que ele não iria cortar sua coisa preferida no mundo, uma que dera tanto trabalho e custara uma fortuna para crescer. Às vezes a gente se engana. Ele cortou sua árvore favorita com a lâmina do machado e com o cabo me quebrou de porrada, não sei se pelo que eu havia feito ao jardim ou se por que tivera de cortar a própria árvore.

Não morri, fella, como dá mais ou menos para ver, não é?, mas alguns dedos esmagados não puderam ser reimplantados quando ficaram pretos e mortos depois que ele os amaçou na porta de ferro pantográfica. Fiquei só com seis deles, uma treta só. Tive descolamento de retina no olho esquerdo, rachei a bacia, rompi um ligamento do joelho e perdi todos os dentes além da sensibilidade em muitas partes do corpo. Todo natal chega uma carta do veado me cobrando os gastos que dei com o hospital e o preço da árvore. Família é foda. Tem família? Sabia que não. Mas onde caralhos estávamos?

Isso mesmo. Quando a urina derreteu os papéis pude ver por fim riscos feitos à faca no tampo de ferro da mesa. Havia um nome, algumas indicações e direções e números. Todas as informações que eu precisava para a venda do slang-arbore. Na minha cabeça, fiz as contas: preço do pescado vezes o peso do pescado. Subtraia daí a propina dos fiscais, uma centena de Mob-Messiahs, uma ou duas putas, custos da viagem, as iscas, combustível e o pagamento da tripulação. Não sobrava quase nada para mim, mas eu sei cortar custos. E como sei. Acendi um tryptophan, traguei fundo, soltei a fumaça pelo nariz e sorri.

Fui para o bar. Assim que abri a porta do Sahasrara vi pelo olhar dos dois recém-membros de minha nova tripulação que merda havia borbulhado naquelas cabeças. Era um motim, acredite se quiser, fella, ou um pré-motim, se posso chamar assim. Tom Balzac Ouro-de-tolo Tabaco era um cara meio magro, um tanto quanto retardado. Quando mais jovem queria ser um gênio, pelo que sei, mas sua cabeça explodiu depois de uma overdose de downloads. É por isso que sempre digo que conhecimento é um puta perigo. Tem que se ter cuidado com esse tipo de coisa. Quando se entra nesse mundo todo cuidado é pouco.

“Gente história embora”, Tom tentou falar, não tendo muito sucesso.

“Freda, estávamos aqui, bebendo, sabe qual é?”, começou Napoleão Dinamite dando continuidade. “E daí, assim, sem mais nem menos, decidimos que não queremos mais ir atrás do slang-arbore com você. Lembramos daquela história que nos contou sobre a antiga tripulação e como você quis cortar custos e nos pareceu uma boa idéia recusar sua proposta. Pode ser perigoso, sacomé?”

“Ofereço 25% de aumento no pagamento”, falei tragando um acid-rapé pela narina. “Dinheiro fácil, brother.”

“Nesse caso…”, Napoleão Dinamite assentiu, voltando atrás na decisão. “Vamos pescar dinheiro”, disse animado.

‘Tava tudo resolvido. Fácil assim. Caminhei até a musiek-box e a chutei do lado certo. O disco atirou-se na bandeja enquanto o braço coberto de couro-de-cobra desceu a agulha que arranhou o início do vinil com som dum gato fazendo uma labioplástia com um prego. Mop Mop Top terminou e Smoking Karma começou a tocar — guitarras sem distorção, um ou dois tambores, alguém declamando poesia hindu, muita loucura. Longe o suficiente das strippers para não sentir seu cheiro de suor e maquiagem, uma criança comemorava seu aniversário de fabrication com seus pais em uma mesa afastada, onde haviam deixado sobre ela algumas fotos da concepção. Um bolo branco fora espetado por uma vela preta de esquina de macumba — talvez ainda tivesse gosto de frango. Sem muito jeito, acenderam a vela e a criança assoprou, fazendo-a se-apagar-se geral.

Napoleão, que tinha mais de vinte nome, mas era mais conhecido só como Napoleão Dinamite, um ex-boxeador desesperado por dinheiro para financiar seu vicio em metaglicóse, deu a garota uma bela nota de dez dinheiros por aquele bolo no qual enfiou a cara mais do que realmente comeu. Sonhos custam pouco por aqui. Estamos sempre dispostos a trocar nossos sonhos por qualquer pedaço de lixo que seja reluzente — esse foi o presente final da seleção natural para nós, não foi? É o que digo.

Quando Napoleão ficou satisfeito, tive por fim oportunidade de perguntar àquele maldito timoneiro de duzentos quilos se havia comprado as mudas que usaríamos de isca. Aquela bola calva coberta de glacê sintético balançou de cima para baixo confirmando. Jackpot. Tínhamos as mudas, estávamos prontos para a pesca. Na saída, lambemos os peitos grátis de mamilos com sabor oferecidos aos clientes e chegamos ao pátio do Sahasrara, onde muitas outras embarcações ‘tavam ancoradas. Você passou por lá, não passou? Pois é. Sempre há uns sujeitos fedidos negociando por ali — explosivos, carcinaration, documentos falsos, doenças in vitro, escravos, minas-dood, crianças e todo tipo de porcaria alimentícia sintética, como em uma feira livre. Subimos à bordo do Mammonboot prontos a buscar o maldito slang-arbore. Na barca ao lado, um casal de velhos hippies new new neo-age fumavam um narguilé-psychodrone de ferro azulado enquanto me olhavam com olhares analíticos, buscando em mim alguma espiritualidade. Tive de segurar um riso histérico. Não tinha tempo para aquela gente.

Era heure da pescaria. Já viu um slang-arbore? Você não sabe o que está perdendo. Esses fodinhas são bastante raros, estão quase extintos. Não há sensação melhor que matar um com as próprias mãos, e isso, fella, eu te digo com. toda. a. puta. certeza.  Com tudo pronto, nós zarpamos.

O post Sahasrara Jazz – Parte I apareceu primeiro em Mob Fiction.

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