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vitor

De motor concertado e levando a isca pudemos partir, deixar o Sahasrara para trás com lágrimas nos eyes e entrar em contato direto com a natureza — gás tóxico e ruínas — e talvez encontrar com nosso spirit-animal. Cê tem um espirito animal, fella? Nunca viu um animal? É foda, mas dizem por aí que é coisa séria. De qualquer forma, atravessamos nas primeiras heures de viagem — com o Mammonboot tremendo e esporrando fumaça negra no ar — uma região ainda muita alta onde as nuvens de gás não nos causavam mais que tosse e pigarro constante. Mas era certo que teríamos de entrar nas nuvens espessas lá embaixo em algum momento da viagem, pois é lá que os slang-arbore ficam, embora venham para fora da nuvem respirar de tempo em tempo.

Sempre gostei de viajar. Muito antes de ser pescador de arbore. Com uns vinte e cinco anos passei por um momento de iluminação depois de uma overdose de recheio para pastel e larguei meu emprego. Eu era responsável pela limpeza no puteiro da minha mãe-irmã. Viajei pagando passagens com sexual-favores. Não ter dentes pode te conseguir boas caronas. Encontrei gente de toda treta e de todo pedigree. Por alguns meses viajei com uma banda de cybertango chamada de Jehovah Hermaphrodite Hotel em uma barca chamada Smallpoxboot; vi um corpo que perdera sua mente numa viagem alucinógena dum chip meditativo e agora trabalhava como estátua de rua; vi gente que se matou na fila para um remédio de estresse por não agüentar o estresse da fila e vi putas que cobravam o dobro pelo gato-bola por serem bilíngües. Um dia, quando eu morrer, todos esses momentos vão se perder no tempo…, como urina na chuva, e isso é um pouco triste, fella, se me permite a finesa de ser honesto, agora que estou bêbado de novo. Mas eventualmente me tornei pescador, não por que gosto de contar histórias, embora eu goste — está no meu sangue, ou no que restou dele — mas sim por que um dia eu acordei e ‘tava em um barco pesqueiro sem saber os porquês e os porquêses. Vocês não odeia quando o mundo é que toma as decisões no seu lugar? Fella, peça outro Mob-Messiah para mim. Isso mesmo.

Bem, após mais algumas heures sobre o Mammonboot, avistamos uma barca-hospital encalhada no topo dum prédio como se houvesse caído ali muitos anos atrás — quase afundada no gás — e habitada por crianças sem membros na família ou no corpo. Havia também ali um ou outro mutante refugiado — morloucos — levados a morar ali perseguidos por grupos puristas pregando o protoevangélio de Cyb3r-Chr15tu5 — “Se também um homem se encontrar com um mutante, ambos praticaram coisa abominável”, Levitijaws 20:13B. Não paramos para conversar e logo o Mammonboot inclinou-se, descendo na direção da nuvem de gás.

“É aqui, não é, Freda Seis-Teta?”, perguntou Napoleão Dinamite rodando o timão. “Dedos”, corrigiu.

Assenti enquanto soltava uma grande baforada de fumaça no interior duma caixa de leite e puxava a fumaça de volta para o pulmão. Puxei a alavanca e o motor golfou uma nuvem grossa de fuligem-darkness. Mammonboot deslizou pela região poucos centímetros acima da nuvem de gás levado com calma pelos ventos pesados. “Chegamos”, eu disse me levantando, empurrando uma pilha de latinhas de Mob-Messiah que havia empilhado sobre a barriga. Desliguei a vitrola onde Samsara Renovation Blues Country Count tocava e ouvi o som diminuir até morrer. “Desliguem os faróis, brothers. Peguem a muda, liguem o guindaste e me tragam uma cueca e as máscaras de gás.”

Embora fosse tremendamente desajeitado manter um sigarot dentro da mascara de gás, eu ‘tava me saindo good. Estive sentado de costa para a proa, em uma cadeira de praia. No interior da cabine, Napoleão e Tom assistiam a tevê comum pois ali embaixo não chegava a transmissão para as neurotevês. Com dificuldade, mexiam nas antenas, tentando conseguir um sinal melhor na velha telephunken. Soltei um peidão e ri da onda de arrasto que isso causou no gás. Boys serão boys, sacomé? Atrás de mim, o guindaste do Mammonboot ‘tava descido e no fim de sua corrente que atirava-se para dentro da espessa nuvem de gás uma cueca havia sido presa ao grande gancho de ferro e em seu interior, segura pelos elásticos, o vaso de policloreto onde jazia uma pequena muda de planta — nossa isca. Haviam passado dois ou três dias de espera. Dois ou três freaking dias, brother, esse é o tempo. Pescar só é relaxante por que costuma-se estar bêbado. Não há muita paudurecência em um trabalho como aquele além do money-grana-money, não é? Trabalho por dinheiro, sempre trabalhei. Quem não? Os rugidos guturais que ouvia vindo da névoa de gás só me faziam desejar capturar o slang-arbore que adejava por aquela região. Ouro marrom, madeira, um resquício do mundo antigo, vivo, verde, pronto para ser capturado e vendido.

“If there’s somethin’ strange!… in your neighborhood!…”, soou a telephunken enquanto passava um filme vintage da madrugada. “Who ya gonna call?…  Ghostbusters!” — Sobre o puído sofá na cabine, próxima da tevê e do timão, Napoleão e Tom Tabaco balançavam as cabeças no ritmo enquanto surgia um sorriso infantil nos rostos chapados de BMHSY. “If it’s somethin’ weird!… an it won’t look good… Who ya gonna call?… Ghostbusters!”

Estávamos começando a ficar impacientes, fella. Naquele passo, logo as mascaras parariam de funcionar, pois elas não aguentam aquela carga de toxina por muito tempo, entende? Escolhi beber mais umas e esperar no máximo mais uma heure. Um bom pesca-treta também tem que saber quando foi derrotado. Estávamos há dias ali. Logo a isca estaria tão seca e morta que não atrairia slang-arbore nenhum. Pegaríamos o bicho logo ou teríamos de ir embora. E nós pegamos, fella, nós fucking pegamos.

Enquanto Tom e Napoleão fitavam a tela brilhante de amazing-pixels RGB piscando alternadamente com um brilho quase hipnótico, eu tava pronta para fumar outro tryptophan cancro-free. Prendi a respiração e puxei a mascara pronto para abocanhar o sigarot. Nesse instante, porém, um baque forte sacudiu com toda força o Mammonboot, atirando todos ao chão. No susto respirei aquele ar cinza fazendo a traquéia e o pulmão arderem como se houvessem sido chamuscados por um lança-chamas de déodorant. O Mammonboot começou a ser arrastado fazendo curvas bruscas — ‘tava sendo puxado pelo slang-arbore que abocanhara com tudo nossa isca. Napoleão tomou seu posto no timão tentando manter a visão ainda que sangue doce escorresse por cima da máscara vindo dum corte no cocuruto. Tom ficou ao meu lado nos controles de armamento enquanto me mantive nos controle do guindaste.

Após grandes solavancos e o som gutural do rugir fomos arrastados para cima com velocidade pela criatura pescada. Pudemos ver — naquela região mais bem iluminada pelos videoads de pomada — que o slang-arbore era uma tremenda besta pouco menor que o Mammonboot. Em suas costas, uma série de espinhos pontudos de madeira e pernas de mesas, cadeiras, armários, espetavam-se para fora do corpo cumprido como o de uma serpente. Parecia feito inteiramente de pedaços de árvores, vinhas e restos de móveis. O gancho na ponta da corrente do guindaste prendera-se à bocarra do bicho entre seus dentes afiados formados de splinters-do-inferno! Sem aviso, o slang-arbore mergulhou de volta para seu habitat, as ruínas da humanidade cobertas duma mistura de gases semeados de toxinas e metais pesados, quase irrespirável e que havia matado boa parte da vida vegetal no planeta. Aquelas estranhas serpentes, parte madeira, parte dinheiro, eram a única fonte restante de madeira no planeta e havia gente disposta a pagar muito por ela. Ouro marrom. Jackpot.

Enquanto eu deixava a corrente correr um pouco para então travá-la novamente e prender ainda mais o gancho à boca do slang-arbore, ao meu lado, Tom apertou o botão vermelho e o som das mini-guns na base do Mammonboot invadiram o ar com a máquina cuspindo chumbo grosso contra slang-arbore que gritava e debatia-se, misturando gritos com lamentos chorosos e rugidos enraivecidos. Mas sabíamos como o bicho se comportava, não havia por quê atacá-lo tanto naquele início. Tínhamos de cansá-lo primeiro, fella.

Após vários minutos nos arrastando o slang-arbore mergulhou de uma vez para dentro da nuvem de gás, nos puxando até o fundo, até as antigas ruas das cidades antigas da humanidade antiga, sacomé? Mas mesmo assim não podíamos ver mais que alguns fingers a nossa frente, pois o gás era muito denso e cinza. Mas o slang-arbore por fim parou, como imaginávamos que faria. ‘Tava nos mantendo ali para que sufocássemos quando as máscara deixassem de funcionar. Não bastava apenas o planeta e nós mesmos querendo nos matar, os malditos animais também queriam.

Napoleão desligou o motor. Estávamos flutuando com placidez de um lado para o outro levados pela correnteza dos gases em torno do eixo do slang-arbore que nos ancorava aninhado em algum lugar que não podíamos ver, preso ao guindaste. Minha mascara havia se perdido e a do resto da tripulação logo parou de funcionar. Cada dragada de ar era uma tortura. Caminhei para a cabine procurando a pequena e amarelada estatueta do Ganeshassauro. Encontrei-a e a espatifei no chão com toda força, espalhando porcelana por todo o chão, revelando seu conteúdo ilegal — incenso. Nada daquele estúpido palito em chamas, fella, esse era incenso individual intravenoso criado pelos militares — diminui a pressão sangüínea e o ritmo cardíaco, força o organismo a transformar gordura e nutrientes em oxigênio. Poderíamos ficar ali embaixo por dias com uma dose daquilo até a heure em que morreríamos desnutridos, mas sabíamos que o slang-arbore não poderia ficar tanto tempo ali, pois ele mesmo sufocaria. Agulhei meu braço e tomei uma dose de Mamãe Oxum e outra de Ogun Guerreiro. Napoleão Dinamite injetou Alecrim e Sândalo enquanto para Tom Tabaco restou apenas Sorte nos negócios.

Só nos restava esperar. Esperamos.

O post Sahasrara Jazz – Parte II apareceu primeiro em Mob Fiction.

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