vitor

gordons-wine-bar-londres-4

“Mortos?”, pedi enquanto olhava uma das cartas em minha mão. No rosto de Napoleão Dinamite surgiu um sorriso escarnioso, safado. Ele arrumou o chapéu e falou tão próximo de mim que mesmo através da máscara eu pude entendê-lo well.

“Epidemia de Fome e Seca na China-ina no Século XIV”, ele respondeu lendo sua carta. “Mortos: 9 milhões!”, riu atirando-se de volta para sua cadeira de praia maltrapilha já confiante de sua vitória.

“Epidemia de Varíola no México-Chilli de 1520”, respondi amuado, fella, acredite. “Mortos: 4 milhões…”, entreguei minha carta aborrecido. Traguei meu tryptophan tão fundo que queimou duma vez até o filtro.

“Ano?”, sorriu como uma criança levada e obesa para sua nova carta.

“1937 — Acidente do Dirigível Hindenburg em New Jersey”, respondi.

“Explosão do Ônibus Espacial Challenger”, ele leu não se agüentando de rir, pronto a urinar por toda parte. “28 de Janeiro de 1983. Ganhei novamente!”, me-tripudiou-me, fella, sem vergonha ou compaixão.

Em um acesso de raiva, taquei minhas cartas restantes no chão. Olhei para longe e perdi o olhar naquela névoa-gasosas-maluca-putamente-infinita. Estávamos jogando há várias heures… talvez seis ou sete, e o maldito do slang-arbore não dera sinal de que precisava subir para respirar. Mas daria. Era preciso paciência-gafanhoto-paciência. Ele era forte, mas uma heure teria de ceder, e quando subisse, nós o pegaríamos de porrada e pipoco! Tentei me acalmar, sabe como é?, acendi dois tryptophans dependurados nos lábios rachados. Recolhi minhas cartas do chão enquanto Napoleão tentava se recuperar dum acesso de tosse e olhei para a primeira carta aberta.

“Prejuízo?”, pedi, querendo muito ganhar. ‘Tava satisfeito com minha carta dessa vez. Não haveria como ganhar de trinta bilhões de dólares em prejuízo da Quebra da Bolsa de Valores de New-Iorque de 1939.

Mas ele explodiu em felicidade mesmo antes deu contar meu valor, me mostrando sua carta e gritando. “Peste Negra! Super-trunfo! Ganhei de novo, seu merda! Peste Negra! Super-Trunfo!, porra!”

Estiquei a mão para a bota, ávido por pegar minha navalha monotretante e alargar o sorriso do escroto, fella, juro para você. Porém…!, repentinamente, um baque tão forte que quase partiu o barco ao meio estremeceu todo o Mammonboot!

No susto, Napoleão caiu pela amurada da barca e ficou segurando-se dependurado por ali. Tom Tabaco voltou para os instrumentos de guerra e eu para os controles do guindaste. ‘Tava na heure. Certamente o slang-arbore ‘tava sufocando tendo estado ali embaixo por tanto tempo. Rumava para o alto nos arrastando juntos. Comecei a recolher a corrente do guindaste parando por alguns instantes quando a tensão ficava grande demais. Ao meu lado, Tom babava e esmurrava os botões, disparando freneticamente contra o slang-arbore que urrava de dor quando os projéteis ainda quentes o acertavam em cheio atirando farpas-splintéricas de wood-wood para todo lado.

Porém, os duzentos quilos de Napoleão ‘tavam inclinando a barca, fazendo o Mammonboot desviar para a esquerda e errar a maior parte dos disparos. Abandonei meus controles e corri até o desgraçado. Chutei seu rosto algumas vezes, mas o crânio de cerebrânio do ex-boxeador não sentiu o impacto. Vendo aquela infrutífera tentativa, puxei a navalha da bota e decepei com um só golpe os nove dedos do meu ex-timoneiro. Ouvi seu grito rouco no interior da mascara abaixar até por fim sumir no gás junto com ele e seus quilos. No cu com a Peste Negra, é ou não é, fella, diga aí? Acendi mais três tryptophans, traguei tudo que podia e segui atrás do monstro de madeira que revelou-se atrás de air-gás quando saímos para a superfície. Seu corpo ‘tava todo rachado e quebrado pelos tiros — gavetas, armários, criados mudo, cabideiros…, devia pesar mais de dez toneladas de madeira. Jackpot!

Enquanto as metralhadores giravam com as pontas vermelhas em brasa devido ao calor dos disparos, eu diminuía cada vez mais a distancia entre nós e o slang-arbore com o motor do guindaste quase despirocando. Quanto mais próximo ‘tava maiores eram os fragmentos de madeira afiados que soltavam-se do bicho e atiravam-se em alta velocidade contra nós, rasgando as roupas e arrancavam faíscas do casco do Mammonboot. Ocasionalmente, o bicho quase exausto atirava-se contra as ruínas de algum prédio em um ato desesperado — desesperado, eu disse, fella!, desesperado! — que causava mais dano a si mesmo que a barca. Após vários fracasso, desisti de tentar acender os tryptophans e passei a só a mastigá-los, frenético, frenético, o bagulho. Sem Napoleão para fazer peso, o barco seguia mais rápido e o slang-arbore ‘tava tão próximo que se estendêssemos as mãos podíamos tocá-lo. Por toda a extensão do bicho, seus espinhos se partiam e as gavetas dos criados-mudo e cômodas se sacudiam nos batentes quase atirando-se para fora. Falei a Tom Tabaco — Brother!, vai para lá — para que deixa-se o armamento e fosse ao timão. Precisávamos controlar aquele bicho ou talvez ele ainda pudesse dar um jeito de forçar a corrente até brokê-la. Faltava pouco para ganhar aquela grana, fella, faltava pouco! Tom Tabaco tentava levar a barca para fora da espessa névoa de gás filha da puta para onde o slang-arbore havia nos levado. Aproximei-me com o arpão em mãos e golpeei várias vezes o bichão, eita!, eita!, e ele urrou de dor. Virei o cabo do arpão e com o gancho da outra ponta comecei a puxar o maldito para dentro da barca. Golpeei mais algumas vezes para que se calasse, batendo até que ficasse em completo silêncio pendurado pelo guindaste que soltava sons pesados de engrenagens e ferro. Tomei em mãos minha navalha e me aproximei do bicho. Pelas aberturas próximas da cabeça , entre gavetas e a porta de um armário, meti a lâmina buscando sempre ficar fora do alcance das patas da criatura onde garras afiadas podiam dilacerar com um movimento meu corpo de pele-osso-e-Mob-Messiah. Puxei duma vez a lâmina sentindo a seiva fria correr para o chão e o bicho ficou ali, pendurado e pescado, flip-flopando e gorgolejando até morrer. Aquele puto era gigantesco, valia uma puta grana!

Tom puxou outra alavanca e começou a trazer o barco para cima. Ali podíamos ver uma lua gigante, cheia e branca, uma quase esfera clara pendurada lá em cima parcialmente explodida dum lado contra um céu alaranjado pontilhado de inúmeras pequenas luzes — barcas distantes. Porém, Mammonboot perdeu força, ‘tava sem combustível. Embicou de volta lá para baixo. Houve o mergulho e então com algum esforço conseguimos horizontalizar o barco que chocou-se contra um terraço dum prédio deslizando e atirando fragmentos de concreto para todo lado até parar. Havíamos chegado à luz, mas novamente voltamos àquela escuridão iluminada apenas por alguns lâmpadas incandescentes intermitentes e pela velha telephunken que quebrada soava repetidamente buy it, use it, break it, fix it, trash it, change it, mail, upgrade it, fella.

Tom levantou após empurrar o armário que caíra sobre ele para o lado. Espanei a roupa, me levantei e ambos fomos até o slang-arbore que permanecia ali, preso pelo gancho do guindaste. Me levantei na ponta dos pés até alcançar um de seus espetos e o puxei até quebrar, crack!, ouvindo o som do estalar da madeira. Parecia a perna duma mesa pequena. Passei a língua pela madeira sentindo seu sabor e sorri. “Perfeita”, contei a Tom.

Sentamos-nos nas cadeiras de praia de ferro-bad ouvindo o som de chiados elétricos vindos do interior daquele prédio abandonado. Não tenho idéia do que havia lá dentro, fella, nem me pergunte. Tom e eu abrimos umas Mob-Messiahs, brindamos e bebemos pelas traquéias irritadas goles gulosos. Em seguida, um sigarot para cada. Nossa fumaça misturava-se com tranqüilidade àquela nuvem tóxica na qual estávamos metidos de olhos ardendo. Tom foi o primeiro a falar após o brinde.

“Caímos motor arruinado”, disse esforçando sua mente estilhaçada para formar uma frase. “Precisamos sair de aqui.”

“Então, brother?…”, perguntei, esperando uma solução.

“Ligamos guincho buscar.”

“Não conheço nem um guincho. Os que conhecia estão na cadeia.”

“Um conheço”, disse Tom Tabaco mostrando que ainda tinha alguma memória.

“Ótimo”, respondi e Tom levantou-se. Caminhou na direção do telefone preso a parede da cabine. Me levantei em seguida e no caminho, abaixei-me com tranqüilidade e tomei em mãos a perna de mesa que havia quebrado do slang-arbore. Tom já pousava o gancho de volta no telefone, dizendo com um sorriso simpático que logo uma barca-guincho viria nos resgatar.

No primeiro golpe que dei ele caiu para a frente, deixando um pouco de ar sair do pulmão em um grito fraco e curto. Tentou proteger-se com as mãos, mas de nada serviu. Aos poucos o contato com a madeira arrancava os cabelos da pele, então a pele esmigalhava-se sobre o osso e o crânio aos pouco se partia. Revelei o seu morno-intra-interior, e parte dele escorreu pelo assoalho. Continuei batendo, espalhando respingo de suco-humano e pedaço de bones por toda parte até que nivelasse com o chão o que antes fora sua retardada cabeça. Logo chegaria o guincho. Eu disse que era bom em cortar custos, fella — eu disse.

Perdi minha tripulação…, mas essas coisas acontecem, sabecomé? Tragédias inevitáveis que me deram um bom dinheiro. Mas o que me diz de vinte e cinco por cento? Te ofereço vinte e cinco por cento a mais do que ofereci a eles, fella. Você não veio ao Sahasrara atrás de jazz-balanseer e Mob-Messiah, veio? Não. Você veio atrás de grana-money para comprar teu woodrose e empoar essa nariba entre os olhos. Contei algumas de minhas histórias e você ainda está sentado aí, coçando essas narinas grandes demais entre e piscando esses olhos vidrados de pupilas de tamanhos diferentes. Posso lhe oferecer um bom lucro, grana alta. Você precisa de dinheiro, dinheiro fácil, e o Mammonboot, por coincidência, precisa de tripulação. Lhe ofereço 25% de aumento no pagamento. E assim que receber você pode ir correndo comprar sua dope com seu pusherman. Vin-te-e-cin-co-por-cen-to. Sei do que você gosta, sei do que precisa. Sei que não tem outro lugar para ir, do contrário não estaria aqui. E então, fella, o que me diz…, temos um acordo?

O post Sahasrara Jazz – Parte III apareceu primeiro em Mob Fiction.

Comente pelo Facebook

ARTIGOS SEMELHANTES