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Por mais que o pantanal já fosse conhecido como a palma da mão, todos aqueles que subiam o rio Paraguai de barco acabavam deixando os olhos e os pensamentos se perderem na mata densa ao seu redor, talvez levados pelo som monótono do motor da embarcação, ou apenas por que vez ou outra, no interior do verde, naquelas matas ciliares ao redor da água, pudesse ser visto quase que como um vulto, o passar apressado de algum animal atrás de seu alimento, ou, muitas vezes, fugindo do som do maquinário humano que deslizava rio acima.

Nos idos de dezembro e março, chovia quase todo dia, e o aumento da umidade costumava tornar o clima esfriado e pesado, seguido por uma névoa rala matinal que impedia de ver apenas se os olhos buscassem uma grande distância. Haviam partido do porto de Corumbá pela manhã, antes de o sol nascer por detrás do horizonte cumprido daquela região pouco escarpada. Subiam o rio há quase cinco horas e logo teriam de parar para abastecer ou para comerem, pois não parecia a Eli que alguém ali possuísse comida.

Ao seu lado, conduzindo o barco, estava um nativo da região, do lado boliviano do rio da tribo zamuco, uma das muitas que bem relacionavam-se com os latifundiários da região, tendo-se quase que completamente sido absolvidos pela cultura miscigenada européia sul-americana, guardando para si pouco de sua cultura natal; uma ou outra palavra que repetia por vezes sem que ninguém entendesse, hábitos alimentares — como um certo desgosto por talheres — em uma pequena lasca de bambu trespassando o septo. Seus olhos negros vez ou outra olhavam Eli de cima abaixo, e embora ela não soubesse exatamente o porquê, sentia um frio correr a espinha.

De seu outro lado e a sua frente, sentavam-se sujeitos da Cia. Pantanal Madeiras que, a julgar por seu porte e rudeza, faziam o serviço sujo de ameaça e terrorismo contra povos da região, em conflitos centenários entre latifundiários e nativos ignorados pelo estado devido a forte presença dos fazendeiros no governo. Eli Corrales evitava lhes olhar, embora respondesse sem problema as perguntas que lhe eram feitas. Não sabia ao certo por que estava ali, por que deixara a UFMS e fora para Corumbá lhes encontrar a pedido da diretoria da Cia., que lhe prometera em carta e telefonema uma quantia grande de dinheiro para mediar uma situação problemática com povos nativos de uma região explorada pela Cia. Eli não duvidava nem um pouco que uma tentativa de assustar algum índio tenha saído do controle e trazido a morte de alguns deles, não era a primeira vez e nem seria a última. No entanto, sabia pouco e disseram que só lhe dariam mais informações no local do incidente, e fora a menção daquela palavra em específico que a deixara tão interessada quanto preocupada. De qualquer forma, antes de sair de sua cidade, deixara bem claro para conhecidos para onde estava indo. O seguro morreu de velho, sua mãe espanhola costumava dizer, e não havia por que subestimar aquele ditado.

“Como disse”, continuou ela lhes explicando o que haviam lhe perguntado; “como aconteceu nas culturas mediterrâneas em muitos outros lugares, lendas e mitos se aglutinaram e modificaram, gerando estórias semelhantes em lugares diferentes. No caso dos povos aruaques, dessa região de MS, nunca de fato existiu algo semelhante ao mito do curupira, sinto informar, mas há, no entanto, uma cantiga de roda que conta uma estória semelhante, mas ao mesmo tempo aterrorizadora, o que não é comum entre esse tipo de canção, o que nos faz pensar que talvez de fato tenha ocorrido. Não sou especialista nos aruaques, acredito que haveriam especialistas, inclusive conhecidos meus, na FUNAI, que poderiam ser uma melhor escolha para mediar essa… situação, porém entendo que não queiram contatá-los”, explicou, forçando um pouco a situação para talvez extrair deles alguma informação, mas nada disseram, como se esperassem que continuasse a contar o que dizia. “Certo, bem… é, a cantiga eu não vou cantar, mas posso resumir a estória, embora não entenda exatamente o porquê desse interesse de vocês… está aí algo que não se vê todo dia. Mas bem, dizem que havia em uma tribo aruaque, se não me engano uma awatinga, onde havia um garoto jovem, em plena adolescência que sempre atravessava algumas horas de distância entre sua tribo e os domínios de um fazendeiro. Diz-se que este garoto apaixonou-se pela filha do fazendeiro e que vez ou outra lhe visitava, esgueirando-se fazenda a dentro durante a noite, sem nunca ser pego pelo capataz do fazendeiro, para encontrar sua filha. Diz-se que assobiava e imitava animais próximos de sua janela para lhe acordar, então saíam os dois para dentro da mata para se encontrar. Por muito tempo continuaram repetindo essa escapada para a mata até que, por fim, após algum tempo a garota engravidou e seu pai, descobrindo tudo, enfureceu-se de tal maneira que tomou seus homens, sua filha e foram até a tribo atrás do tal rapaz. Sendo o fazendeiro muito temido pela tribo devido as coisas que já havia feito a ela, a tribo entregou o garoto como oferenda de paz, temendo que o fazendeiro pudesse lhes fazer mal como punição. Ali mesmo, dentro da tribo, os jagunços do fazendeiro torturaram o garoto de toda maneira possível; com ferro quente, chicote, pancada, enfim, com tudo, e, por fim, para ensinar a tribo a não andar por onde não deviam, tomaram o rapaz e amarram-lhe em um tronco e lá quebraram seus pés e o torceram para trás, o deixando sofrer de dor no tronco por vários dias, até que, quase morto, o tiraram de lá, e o enterraram ainda vivo. Por fim, desonrado pela filha estar grávida de alguém que não era de direito, era só um índio, o fazendeiro matou sua filha e a atirou no rio Paraguai.”

Nos olhos de ambos os homens, e até mesmo no do condutor do barco recaiu uma sombra e por vários minutos ficaram todos em um silêncio incômodo e denso, não quebrado nem mesmo pelo som do motor, como se ele por si só não tivesse força para abrandar aquele clima. Eli achou interessante aquela reação, talvez por fim houvesse colocado compaixão pelos nativos naqueles peles brancas. Ela, Profª. Eli Corrales havia resolvido — em uma escala bastante reduzida — um problema que já existia há tantos séculos apenas com um conto de terror indígena. Não conseguiu não rir daquela situação com os cantos da boca. Mas tentou lembrar-se de que estava ali para resolver um problema diplomático entre eles e uma tribo que não sabiam dizer qual. Esperavam que ela chegasse lá, descobrisse de que tribo e cultura se tratava e resolvesse o conflito? Aquilo poderia levar anos e requerer muito mais pessoas. Mas sabia estar se precipitando, não sabia nem ao menos do que se tratava. Era melhor esperar chegar para onde iam para por fim tirar alguma conclusão… esperava não ter que contatar a FUNAI ou a polícia por que algum fazendeiro ou madeireiro havia matado um indígena. Não queria se envolver naquele problema, mas não queria deixar de ajudar os nativos, também.

À noite a pequena embarcação parou e Eli imaginou que teriam que andar pela escuridão da mata para encontrar a tribo, porém, lhe disseram que o local para onde iam, um pequeno acampamento de madeireiros ficava a apenas dez minutos de caminhada dali, onde haviam uma estrada de chão que subia para outro estado, onde as toras de madeira seriam trabalhadas e vendidas com o selo de madeira de replantio, o que era uma prática comum após o suborno das autoridades. Após o trajeto que deu-se, para sua surpresa e contentamento, de maneira bem fácil, por fim, chegaram até uma clareira, onde um homem aparentemente da Cia. os esperava.

“Boa noite, Profª. Eliana Treviño Corrales. Treviño é sobrenome boliviano ou espanhol?”, perguntou o sujeito sem muito jeito. “Perdão à pergunta, é que… não sei, talvez uma descontração antes de tudo que precisamos ver e… bem, esqueça. Podemos ir? Preciso lhe mostrar algo e depois iremos conversar em minha casa”, disse apontando para uma construção de madeira feita meio que temporariamente naquela localidade.

Assentindo, levaram Eli para o que era como que uma cantina dos madeireiros, ao lado de muitos caminhões estacionados. Havia luz em seu interior vinda de muitas lâmpadas passadas pelas vigas que sustentavam o teto, alimentadas por um gerador à diesel. Antes mesmo de adentrar aquele lugar, Eli já podia sentir um cheiro forte e lúgubre. Mas por fim, ao adentrar no grande barracão e ver a cena deixada, seu estômago se contraiu em um aperto agressivo e seu sangue pareceu congelar dentro do corpo. Não haviam indígenas doentes ou massacrados, mas sim madeireiros, homens brancos, comuns, vestido em camisetas que mostravam nomes e números de deputados, ensopadas — em uma maneira de dizer — em sangue seco. Cada um dos madeireiros estava morto, atirados por todo o chão de forma que não seria possível andar ali dentro sem tropeçar em alguns deles, todos com faces de horror e medo, fedidos da decomposição que já começara, rodeados de ratos selvagens que aproveitavam da carne, em uma cena dantesca. De toda aquela barbaridade o que mais chocava era que todos os madeireiros estavam de pernas e pés quebrados, completamente torcidos para trás.

Por algum tempo Eli só conseguia chorar e soluçar, não sabia se por medo ou por choque. Em seu peito repousava um sentimento pesado e ruim, aliado a uma incredulidade frágil que pouco a pouco ia se desfazendo, dando lugar a um torpor traumático. Ao seu lado, os três empregados da Cia. a olhavam, sem parecer ter tato para lhe acalmar, mas esperando que logo ela ficasse melhor e pudessem conversar sobre a situação. Quase duas horas se passaram com a professora olhando para um ponto distante da cabana de madeirite. Repetia para si mesma que deveria contatar a polícia, mas perguntava-se se aqueles sujeitos deixariam. De qualquer forma, ninguém poderia ajudá-la prontamente, estavam muitos quilômetros rio acima, ninguém chegaria a tempo de coisa nenhuma. Acabou por desistir da possibilidade de contatar alguém, polícia, FUNAI… nada daquilo daria certo. Embora esses órgãos ajudassem ocasionalmente, se em vista do todo e de tudo que acontecia nos interiores do país, era como se tentassem curar uma doença grave com um analgésico. Aquelas políticas indigenistas não arranhavam a superfície do problema. Eli respirou fundo, levando novamente o chá à boca. Um último gole no líquido já esfriado e por fim seus olhos encontraram-se com o dos sujeitos. Queria ouvir o que tinham a lhe dizer e o porquê dela ter sido chamada.

“Estes homens que morreram não eram ninguém”, começou um deles, colocando mais chá no copo de Eli. “Não havia carteira assinada nem nada do tipo. Maior parte não tinha família ou mal falava o português. Muitos eram imigrantes bolivianos ilegais. Acredito que esteja entendida de como as coisas funcionam no negócio madeireiro, não é novidade para ninguém. Dessa forma, os diretores não querem envolvimento da polícia ou de mais nenhum órgão do governo. Não queremos nenhuma publicidade ou atenção para o assunto. Esse acontecimento não deverá nunca sair daqui.”

“O que realmente aconteceu?”

“Toda noite os homens se reuniam naquela cantina para comer e conversar antes de dormirem para trabalharem de novo no dia seguinte. Nós da organização ficávamos por aqui. Ouvimos certa noite, um mês atrás, mais ou menos, uns sons de gritos e confusão vindos de lá, tomamos os revólveres e fomos ver o que era, imaginando que havia sido ataque dos índios merdeiros que vez ou outra vem para cá assustar os homens para que partamos daqui. Chegando lá estavam todos atirados para todo canto, pés quebrados para trás. Não sobrou ninguém. Parece que morreram todos asfixiados. O problema é que daqui para lá são cinqüenta metros. Não daria tempo de matar eles assim, e eram todos fortes, mãos pesadas, homens brutos, por assim dizer. Queríamos ter certeza de que foram os índios da região.”

“Para se vingar”, Eli completou.

“Isso não é coisa nossa, dona. Se quisermos nós entramos lá e matamos tudo que respira. Essa é a primeira vez que vamos ter cautela. Queremos que vá falar com eles, perguntar por que fizeram o que fizeram, e como fizeram.”

“Isso é um absurdo, não irei participar disso de forma alguma. Gostaria de voltar para Corumbá ainda hoje, se possível.”

Um deles, de nariz adunco e com uma cicatriz pequena nos lábios tirou o revólver e botou para cima da mesa. “Você não vai sair daqui, dona. Porém, se fizer o que queremos, vai ter trinta mil reais em sua conta.”

Eli sentia o coração no pescoço. As mãos tremiam e novamente começou a chorar. Naquela noite dormia na cabana junto com os homens, pois disseram que partiriam na manhã seguinte para encontrar a tribo, onde Eli conversaria com eles por saber sua língua. Tomaram-lhe o celular e disseram que devolveriam quando tudo acabasse e lhe dessem o dinheiro prometido. Porém, nenhum deles conseguiu dormir direito, tendo um sonho instável onde diversas imagens da cantina banhada de sangue e ossos quebrados passavam a todo o tempo e do lado de fora, os cães latiam sem parar enquanto o cheiro de podridão espalhava-se por toda parte. No mais, embora houvesse tela na janela para manter fora a maior parte dos insetos, tinham a impressão de que alguém lhes observava, embora sempre que olhassem, nada encontrassem. Havia apenas a noite lhes encarando de volta e a sensação de que o que quer que estivesse lhes olhando, não estava somente lá fora.

Não houve mais que um café-da-manhã rápido. Embora não estivesse sobre a mira de arma nenhuma, Eli sabia que poderia estar a qualquer momento, e essa noção lhe fazia sentir da mesma forma uma prisioneira. Não queria ter qualquer participação em genocídio indígena, era como se toda sua vida e suas idéias estivessem sendo traídas por ela. Mas havia sido ameaçada. Quando saíram para a mata, abrindo caminho com facões e bengalas de apoio de madeira, já não chorava mais.

Vez ou outra ouviram na mata espessa barulhos diferentes do que ouviam a todo o tempo. Um deles disse para ficar tranqüila, que se fosse pintada, nem mesmo teriam ouvido ela se aproximar. Aquilo deveria ser capivara ou qualquer desses bichos grandes e ruidosos. Pela trilha mal formada vez ou outra encontravam comida de gente jogada em um canto; fosse uma fruta mordida, um resto de tapioca ou espinha de peixe. Vez ou outra encontravam mesmo trabalhos em barro, fosse um pote ou tigela, pintados bonito com as formas aruaques, quebrados e revelando em seu interior um resto de carne já apodrecida de algum bicho, dando algum indicativo do tempo que ficara ali.

Após quase três horas de caminhada, já de rosto e braços esfolados pelos espinhos e folhas das árvores e arbustos, pararam algum tempo para encher os cantis e por fim prepararam-se para atravessar um tronco sobre um rio pedregoso e perigoso. Na frente foram os três sujeitos, meio inclinados para manter o equilíbrio, em passos curtos e contidos. Por fim foi a vez de Eli. Porém, um som vindo de trás lhe arrebatou a atenção. Virou-se por acaso, e viu uma árvore grande. Porém, ao seu lado, em um entroncamento, seus olhos encontraram outros olhos lhe olhando de um ponto escuro. No susto, gritou alto e caiu para trás, mas então não havia mais olho nenhum lhe observando. O coração batia tão forte que Eli achou que fosse ter um ataque cardíaco ou desmaiar. As pernas ficaram completamente bambas e de forma alguma ela conseguiria atravessar o tronco. Porém, estando sozinha daquele lado da margem, não agüentando o pavor que sentia, atravessou mesmo assim, ameaçando cair pela tontura a cada passo. Quando seus pés por fim tocaram a terra e o cascalho do outro lado, caiu fraca sobre o chão, chorando copiosamente, completamente assustada.

Dali para frente, quando sob ameaça os sujeitos conseguiram fazer com que voltasse a andar, tudo só piorou. Encontravam pedaços de carne pelo chão que já não sabiam dizer se era de bicho ou de gente, e várias lanças de ponta de pedra presas no chão, donde dependuravam-se artefatos que ela reconhecia como sendo tiquis usados nas entradas de cemitérios indígenas, para que os mortos não caminhassem de volta pra a tribo por engano. Eram como placas dizendo que andassem para o outro lado e voltassem para a mata fechada, onde viviam os espíritos. Aquilo só indicava que estavam aproximando-se da tribo, fosse ela qual fosse, pois por aqueles indícios não poderia especificar bem qual era, embora fosse da cultura aruaque. Naquele ponto, poderia muito bem ser uma do lado boliviano, o que gerava ainda mais problemática se aquele caso fosse para a mídia, despertando conflito diplomático de um nível muito mais complexo. Porém, aquilo preocupava pouco Eli. Sentia-se observada agora permanentemente e não havia um momento em que não sentisse-se ruim e com arrepios gelados na espinha como se alguém respirasse próximo de sua nuca todo o tempo, a seguindo de perto. Com medo de ver novamente aqueles olhos escondidos pelas árvores, temia virar para trás e mantinha os olhos fixos na roupa do sujeito que caminhava a sua frente, temendo cada curva e entroncamento que faziam. Talvez houvesse sido apenas ilusão de sua mente  perturbada. Mas não havia romantismo que lhe fizesse sentir-se confortável ali, no mato, daquela maneira. Sentia pavor, e não queria meter-se de forma alguma com aqueles nativos ou com aqueles senhores da Cia. Queria voltar para casa, sentar-se frente a TV; assistir à novela, ao jornal, ler alguma revista, fumar um único cigarro da carteira que deveria durar todo um mês, como vinha fazendo para acabar por fim parando de vez. Nada daquilo parecia estar ao alcance. Voltara à pré-história, ao começo do mundo, com tribos brigando entre si; uma de homens brancos e machados, outra de indígenas de pele escura cobertos de urucum. Logo viria a noite, mas por fim, pareciam estar chegando à clareira.

Para seu terror ainda maior, os homens disseram que dali para frente não iriam mais lhe acompanhar pois não era seguro, e que ela deveria resolver tudo sozinha. Perguntar quem era o culpado pelo massacre e por fim pedir aos índios de forma pacífica que se retirassem daquela terra ou haveria retaliação. Eli sentia-se entre o corte de duas lâminas, sem saber para onde ir. Pelo que via enquanto caminhava até a clareira onde assentava-se a tribo, tratavam-se de awatingas, um povo extremamente hostil. Seus pés e mãos tremiam de sobremaneira, e acostumados a reverenciar o mais forte, certamente não lhe levariam a sério naquelas condições. Eli respirou profundamente tentando ficar mais calma enquanto caminhava tribo a dentro com as mãos levantadas para mostrar que não carregava arma.

Logo nativos altos de pele avermelhada pelas tinturas a haviam cercado e ela nem ao menos notara sua aproximação. Enquanto repetia que não queria problema na língua awatinga — ou no pouco que lembrava-se dela —, via nativas de seios gordos amamentando duas crianças com cinco ou seis anos, uma em cada teta. Ao seu lado uma índia passava uma pasta de ervas, certamente de propriedade antibiótica, sobre a ferida onde antes havia seu clítoris. Sabendo um pouco sobre sua cultura, Eli imaginou que contasse com dezesseis anos ou um pouco menos, idade em que começavam a menstruar e os homens lhe arrancavam o clítoris para que não envolvesse-se em uma relação antes do casamento. Porém, nessa idade, as índias envolviam-se em diversas relações anais com membros da tribo. Imaginava-se que fosse para que os homens testassem as companheiras antes de decidirem toma-las em casamento.

Embora aquilo não fosse comum, Eli não assustou-se quando os homens que a seguiam começaram a sussurrarem cânticos vocais desprovidos de letra, sendo apenas sons seguindo uma escala própria muito semelhantes aos cantados pelos xamãs quando entravam em contato com a natureza pura e deixavam de falar a língua nativa, comunicando-se por sons aleatórios, alegadamente imposições do espírito com o qual os xamãs conversavam.

Logo que toda a tribo, algo em torno de duzentas pessoas, havia atentado-se para a presença de Eli, ela foi conduzida sem muita conversa e com bastante rudeza para uma cabana de pedra e palha, algo incomum entre indígenas do centro-oeste e norte do país, mas bem comum no sul. No interior iluminado apenas pela luz que vinha da entrada, um velho xamã e pajé cego a olhava com as órbitas brancas pela catarata. Fumava um cachimbo de barro, e o cheiro lembrava o de acácia.

“Quem cometeu o massacre dos lenhadores?”, perguntou Eli com a voz completamente embargada e fraca, fazendo os indígenas que estavam atrás dela rirem não somente de seu sotaque, fazendo-a sentir completamente desconstruída para continuar.

“Há muito vem e mata e vai, o espírito do menino. Vem e mata e vai, e leva um gente para mata que a fome não passa com a oferta da mata. Há muito vem e vai”, disse o xamã rindo. “Mulher branca acusa awatinga, fede mais que capivara. Não matamos ninguém, fedor de capivara. Vem e vai, o menino, vem e vai, mata, cospe, morde. Vem e vai mata  homem branco ladrão de madeira, awatinga nem vem e vai. Awatinga chora, chora, perde outro filho.”

“Entendo, entendo”, começou Eli preocupada querendo ir embora dali o quanto antes. “Preciso contar isso aos homens que me acompanharam, para podermos resolver esta situação. Preciso… desculpe, preciso ir embora. Peço permissão para ir embora!…”

Tragando fundo o cachimbo, o Xamã ri ainda mais alto. “Não vem e vai, fedor de capivara. Não vem e vai. Fica que menino vem da mata. Fica que ele vem e vai. Come, come que é festa, come.” Logo trouxeram comida, uma pasta da farinha e ervas que Eli começou sem sentir o sabor, completamente aterrorizada e sentindo-se ameaçada. Não se entra em uma tribo awatinga daquela forma. Perguntava-se como tudo havia chegado àquele ponto. Perguntava-se como podia ter sido tão descuidada.

Minutos após ter terminado a refeição abaixo do olhar de todos que a encaravam, começou a sentir-se tonta e enjoada. A vontade de vomitar vinha, mas nada saía, e permanecia o mal estar. Logo entendeu que havia sido drogada, pois uma euforia tomava conta de seu corpo e o coração já acelerado batia ainda mais forte, fazendo-a suar de sobremaneira. Agarraram-na pelas pernas e braços e arrancaram suas roupas, levando-a para fora, para a clareira. Um nativo não tão velho, aproximou-se e lambeu suas partes íntimas divertindo-se com a agonia da mulher branca que gritava rouca tentando debater-se sem nenhuma força. Logo trouxeram um líquido oleoso, talvez um fermentado de alguma raiz, e lhe jogaram por todo o corpo, fazendo a pele reluzir no sol que pouco a pouco descia para o horizonte. Vieram então com as tinturas de cheiro forte e lhe passaram no rosto, nos seios, abdômen, virilha e nos joelhos e calcanhares. Então levaram-na para uma mesa de rocha natural inclinada, onde foi deitada e segura nos quatro membros por índios, deixando-a de pernas abertas em direção à mata. Completamente tonta, Eli via um verde vivo nas plantas e um azul profundo no céu. Logo começaram as alucinações, fossem vários insetos por toda parte, fosse algo se mexendo na vegetação a sua frente. Tremia-se e contorcia-se de toda maneira que podia, urrando de pavor de forma que sua garganta começou a arranhar.

“Menino vem e vai”, recomeçou o xamã ao seu lado, passando as mãos em seus seios. “Menino culpa awatinga. Menino diz que não honramos. Awatinga não atacou homem branco e defendeu menino. Menino morreu, mas vem e vai, e vem e vai. E vem da mata. Triste com awatinga, triste com a traição. Triste com homem branco. Menino assobia na mata. Vem e vai, pega awatinga e some na mata. Mata awatinga. Menino quer mulher branca que foi morta no rio. Se não não descansa, menino. Não descansa não. Vem e vai. Agora mulher branca acaba com tristeza awatinga.”

Logo as alucinações tornaram-se fortes demais, e da mata Eli pode ver sair uma figura escura. Porém, não havia nada quando olhou de novo. As folhas tremiam agitadas pelo vento e tudo parecia ter uma eternidade. Quando viu, a figura estava aos seus pés, na pedra. Então não estava mais lá. O tempo era estranho. Logo ali estava a figura, sem contorno, borrada. Os olhos eram brancos, a íris negra. Seus dentes verdes de podre deixavam escapar a língua que correu por seu corpo. Das partes íntimas ao umbigo, de lá aos seios e dos seios a boca. O toque da figura negra e borrada era gélido de tal maneira que sempre que suas peles se tocavam Eli sentia o frio e a dor espalharem-se por todo corpo de maneira que a fazia gritar de desespero e sofrimento.

Após algum tempo, os cânticos que os índios professavam afogavam o ambiente ao seu redor, não deixando que qualquer som da mata pudesse ser ouvido. A noite chegava aos poucos e a fogueira no centro da tribo era a única coisa que iluminava seu sofrimento enquanto a figura negra buscava passagem entre suas pernas. O falo gélido logo lhe invadiu com violência e Eli contorceu-se de dor tão fortemente que sua espinha quase se rompeu. A figura negra do garoto continuou a lhe violentar sobre a pedra e vez ou outra dizia que ela seria mãe de seu filho, mas Eli negava e a figura se contorcia e agitava-se, perdendo foco e espalhando-se para os lados como se não tivesse muita forma definida, mas logo voltava ao seu formato usual, de cabelos avermelhados, dentes verdes e pele negra e borrada. Os pés, completamente virados para trás davam ao seu semblante um ar demoníaco e absurdo. Novamente, quando Eli negou que seria mãe de seu filho, a negra criatura torceu seus pés até que se quebrassem com um estalo alto do osso se partindo que pareceu correr por todo o corpo, seguido pelo grito de agonia de Eli, que não desmaiou por muito pouco. Novamente, quando a figura disse que ela seria pai de seu filho, Eli não mais respondeu, pois encontrava-se em um estado catatônico. Após algum tempo, a figura negra urrou em um gozo alto, e por fim, deixou Eli e caminhou de volta para a floresta, sumindo borrado antes de entrar na mata enquanto os nativos de olhos profundos e em outro estado de consciência terminavam seu cântico proferido pelas bocas de dentes amarelos.

Como toda manhã, o cheiro de café e tapioca inundava a cozinha. Sobre a geladeira, jazia uma estátua de barro de uma negra. Com um sorriso no rosto, a criança levava a comida à boca e mastigava divertindo-se cantarolando a música de um comercial de brinquedo que cantava desde que o relógio despertador berrara agudo para acordá-las. Seus cabelos negros caídos para as costas ainda úmidos do banho recente lhe davam uma aparência simples e bonita. Não conversavam. Porém, lhes interrompendo a falta de diálogo, ouviu-se o som da buzina vindo da rua, lá fora.

Eli mastigava a comida sem muito gosto, sem muito prazer. Haviam partes de sua vida, partes escuras que não contava a ninguém, nem mesmo os mais próximos, o que com o tempo lhe fez distanciar-se deles. Vivia agora quase que sozinha em seu mundo, acompanhada somente pela presença de sua filha. Também não lhe contava nada, não lhe dizia que após tudo que passara os awatinga haviam por fim movido-se de lugar, algo incomum, para dar espaço as exigências da Cia., que abafou todo o caso do massacre. Mas ali estava ela, viva, contra todas as probabilidades, e os remédios que tomava, fossem os antidepressivos ou estabilizadores de humor, não deixavam que fosse em frente com obsessões problemáticas.

Girando as rodas externas da cadeira de rodas, empurrou-se até a porta, e abriu a chave onde jazia um chaveiro de um personagem de desenho, ganho num lanche feliz de uma lanchonete. Sua filha veio trotando pelo corredor com a mochila de rodinhas, quase esbarrando nos pés inúteis de Eli, com ligamentos em frangalhos, mas ao menos sem a aparência grotesca de estarem virados para trás. Vez ou outra lembrava-se de ser carregada pelos sujeitos que a levaram a clareira, mas tentava não lembrar, tentava botar algo nos pensamentos, fosse uma pintura, um livro ou mesmo uma música insistente de comercial de brinquedos.

Por fim, a garota passou pela porta. Voltou-se para Eli e disse, com um tom carinhoso: “Te amo, mamãe”, e ficou a olhando com um sorriso de dentes de leite onde alguns faltavam. Eli engoliu seco. Levou a mão aos ombros da menina e a puxou vagarosamente para um abraço, pois não queria dá-lo. Sentia atrás de si um olhar que ela não podia ver, mas sabia de quem era. Ele estava ali, sempre, a todo o tempo.

“Também te amo. Boa aula”, Eli disse à criança que por fim saiu e correu na direção do ônibus escolar. Eli ficou ali ouvindo o som do veículo seguir pela rua indo embora. Novamente estava sozinha, não havia ninguém em casa, mas como todos os outros dias desde que voltara da clareira, sentia — e não podia nem conseguiria dizer a alguém —, que havia mais alguém ali, lhe observando atento. Não podia vê-lo, mas sabia que estava ali, sentia sua presença sempre que havia um espaço entre seus pensamentos, sentia seus olhos negros e profundos lhe seguindo e, vez ou outra, um hálito gélido em sua nuca.

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