Unknown

— Bom dia, dona Silvia! Como vai?

— Tudo bem, seu Josias. Me vê aquele de sempre?

— Está com a receita?

— Claro! Toma!

Dona Silvia tirou de sua bolsa um papel amassado com palavras quase ilegíveis. Seu Josias, com anos e anos de experiência, decifrou o rabiscado e foi direto ao assunto. Em dois passos, moveu-se para a prateleira da direita. Letra C. Terceira caixa. Tarja preta. Com prática, pegou a cestinha colocada estratégicamente sob a mesa e pos o remédio dentro.

— Mais alguma coisa, dona Silvia?

— Não, é só isso.

— Obrigado. Volte sempre!

Dona Silvia caminhou até o caixa, entre prateleiras cheias de cosméticos, esmaltes, shampoos e camisinhas. Seus cinco passos entre os produtos a levaram a adicionar dois condicionadores, uma tintura, luvas de silicone e um pacote de absorventes. “É para minha filha”, ela diz à caixa. Tanto faz, é mais uma cliente na Farmácia QueDroga.

O farmacêutico, Josias, trabalha há vinte anos no mesmo local. Conhece quase todos os clientes e já viu quase de tudo. Também criou suas técnicas. “Farmacêutico, pras pessoas, é médico. Pra empresa, é vendedor”, diz Josias, em sua infinita sabedoria.

— Amanda — a caixa, sempre maquiada demais e sorridente de menos — você lembra daquela vez que o rapaz chegou aqui com dores no pé?

— Aquele esportista?

— Isso mesmo, filho da Dona Márcia.

— Humpf, aquela perua…

— Amanda! Não fale assim da dona Márcia! Pois bem, lembra-se de quando o filho dela entrou aqui com dores no pé, e com toda a pose de jogador de futebol, me pediu um frasco de GILó?

— Hahahah! Você fez uma cara séria e respondeu pra ele que a feira é na rua de trás!

— O rapaz saiu bufando. Pelo menos comprou o spray certo…

— E ainda levou dois chicletes…

 

A vida de Josias é simples. Trabalha seis dias e folga dois. Com a correta matemática, é fácil chegar a conclusão que Josias trabalha em alguns domingos. Ele odeia domingos.

— Em um desses domingos um cara me chega e vem falar comigo todo nervoso: “Até que enfim uma farmácia aberta! Todas estão fechadas” — disse Josias, inflando o peito e imitando o homem. — É claro que não tinha nenhuma farmácia aberta, era domingo. Mas sorri e perguntei o que ele queria. “Quero um remédio pra cabeça”. Sorri mais uma vez e perguntei pra que tipo de problema. “Fiquei três horas no hospital esperando um médico me atender”. É domingo, animal, hospitais lotam. “Cansei de esperar e vim pra cá nesse trânsito caótico”. Trânsito do quê? De domingo.

— Perguntei de novo. “Ah, estou com uma dorzinha chata”. Respirei fundo e indaguei se era dor de cabeça, dor de contusão, dor do que. “Na cabeça ué! Sei lá se foi batida! Só sei que a cabeça está doendo”. Cabeça doendo, não lembra se bateu, no domingo? Deve ser ressaca.

Josias, com a paciência adquirida em milhares de horas de trabalho, alcançou o remédio mais próximo e estendeu ao rapaz. O cliente, sem agradecer, pagou no caixa e saiu, cantando pneu. Amanda olhou estranho para Josias e, vendo o sorriso no rosto do vendedor, não perguntou. O homem nervoso acabara de comprar o remédio mais caro de dores de cabeça da farmácia.

— Amanda, nunca discuta com a pessoa que te vende remédios.

— Mas eu nunca dis… ah! Entendi!

 

Tem de tudo na farmácia de Josias. É claro que ele não é o proprietário, mas seu nome é mais importante que a fachada. Houve uma época que o dono da Farmácia QueDroga dispensou Josias e contratou outro farmacêutico mais novo (e barato). Foi o pior mês da existência do estabelecimento. Josias logo voltou e nem conta essa pausa como uma demissão. Para ele, foram férias.

Histórias curiosas todos tem, mas ninguém conhece mais pessoas curiosas que Josias.

— Tem aquele velho que veio comprar viagra. Tinha receita e tudo. Uma semana depois me vem a esposa dele comprar remédio pra depressão. O que aconteceu? O velho morreu, de ataque cardíaco, ao fazer uso do medicamento.

— Mas Josias, isso não te deixa triste? — perguntou Amanda.

— Triste nada! A receita parecia verdadeira! Olha, eu sou farmacêutico, não médico. As pessoas acham que o cara atrás do balcão é o doutor, mas não é.

— Mas se eu pedir um remédio, você me vende?

— Não sendo ilegal, vendo sim. Afinal, sou vendedor, mas não sou besta. As pessoas que são bestas quando tomam qualquer coisa que o farmacêutico dá. Tem muito profissional picareta.

— Que nem o Aurélio?

— Isso. Que nem o Aurélio. As pessoas pediam remédio de gripe e ele vendia de queda de cabelo. Já vi um cara pedir remédio pra dor no estômago e ele vender suplementos alimentares pra quem faz academia. Ele dizia que era uma pesquisa. “Quero saber quantas pessoas de fato leem a bula do que estão comprando”.

— O que aconteceu com ele?

— Vendeu remédio errado pra alérgico. O cara processou a farmácia e Aurélio acabou demitido.

A Farmácia QueDroga vende remédios há vinte anos. Josias é o farmacêutico responsável. Ele é correto, não faz picaretagem, sorri e brinca com os clientes. É médico e vendedor, dependendo do ponto de vista. É contador de histórias e ouvinte também. É homem, solteiro, humano. É quem te vende remédios.

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