Empty-House-by-Sean-Christensen-1

– Como um amputado.

– Hã?

– É. Isso mesmo que você ouvir. Eu me sinto um amputado, mas não do jeito negativo.

– Mas, por quê? Entre tantas metáforas para escolher por que justo essa? – As latas vazias já estavam amassadas e se misturavam com as garrafas geladas e o cinzeiro já bem sujo em cima da mesa. Um deles brincava com uma tampa entre os dedos.

– Quando você sofre um acidente e tem que retirar um membro é normal ter como “sequela” essa síndrome. Por mais que você veja que uma de suas mãos, braços, pernas ou pés não esteja mais lá, você ainda sente como se o seu corpo estivesse completo. Como antes. Em alguns casos você chega até a sentir coceira ou dor no lugar onde estava seu membro.

E foi então que o outro entendeu. Era o vazio que o amigo sentia. A ausência que previamente fora preenchida por 3 anos. O calor, o conforto, a companhia e até mesmo as brigas. Não estava mais lá. Fora removido cirurgicamente e sem anestesia, como nos procedimentos médicos de antigamente.

Ela. Ele sentia falta dela.

O outro permaneceu em silêncio num sinal para que o amigo continuasse. Sabia o quão difícil era para e outro conversar sobre esse tipo de coisa. Ocasião rara e que não deveria ser interrompida com conselhos retirados de filmes ou baladas românticas dos anos 90.

– Era bom sabe? Você acorda cedo, vai trabalhar, aguenta merda dos outros durante horas, enfrenta a hora do rush, passa fome, cansaço e raiva. Você gira a chave na fechadura, vira a maçaneta da porta e tem alguém ali. Tão cansado quanto você, tão puto com terceiros quanto você, tão exaurido e desesperado por uma refeição decente quanto você. Sabe, traz uma espécie de conforto sádico.

– Por um lado você fica contente de ver que não é o único que se fodeu o dia todo. Mas pelo outro, você se sente bem porque tem alguém ali quando você chega morto em casa. Traz felicidade.

Ele deu um trago no cigarro e exalou a fumaça olhando o cômodo em que se encontrava. Tudo parecia vazio. Até sua voz projetava um eco que reforçava o isolamento e amplitude do lugar. Era uma casa muito bonita.

Uma casa pra dois.

Três ou quatro futuramente.

Mas isso, ele nunca iria saber.

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Jornalista. Fã de gore, terror e todas as bizarrices da internet. O pessoal daqui diz que eu sou um Shinigami.

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