O Paraíso dos Insanos faz uma entrevista com Anders de la Motte, autor da trilogia The Game, que começou a ser publicada recentemente pela nossa editora parceria, a Darkside Books.

A Trilogia The Game conta a história de Henrik “HP” Peterson, um pequeno trambiqueiro que está só contando o tempo necessário para largar o subemprego e voltar a receber o seguro social, que encontra um celular perdido em um metrô e passa a receber através dele, desafios com missões inusitadas pelas ruas de Estocolmo. E a cada tarefa cumprida, e devidamente compartilhada na rede, ele tem a sensação de que a brincadeira está ficando séria demais. (confira a nossa postagem sobre o livro aqui).

Anders de la Motte é um ex-policial e diretor de segurança de informação de uma das maiores companhias de TI do mundo. Está desenvolvendo uma série para a TV americana com o produtor executivo de Homeland e 24 Horas. Sem mais delongas, vamos a entrevista.

Anders de la Motte
Anders de la Motte

1- Hoje em dia se fala bastante sobre a gamificação em diversas áreas, tais como educação e trabalho. Pois ela é uma excelente forma de conseguir o engajamento das pessoas em diversas tarefas. No cinema e na literatura esse tema já foi bastante abordado também. Você poderia citar para nós algumas das que te inspiraram a criar O JOGO?

Os vídeo games que mais inspiraram provavelmente foram Counter-Strike, Call of Duty e World of WarCraft: eu coloquei vários easter eggs sobre eles no livro. Mas também me inspirei em vários Jogos de Realidade Alternativa (ARGs) que eu adoro como Bees e Perplex City, só para citar alguns exemplos. Também há um jogo mental chamado simplesmente de “The Game” que me deu uma certa inspiração, bem como o filme de mesmo nome dirigido por David Fincher.

Eu tentei combinar a ideia de um ambiente comum e familiar visto de uma nova maneira (como um campo de jogo), com a experiência proporcionada por jogos FPS (Tiro em Primeira Pessoa), nos quais você avança por fases diferentes e cada vez mais difíceis, e a sensação de ser o protagonista de seu próprio filme. Esses três elementos resultaram na fórmula certa que fez HP se levantar do sofá e mergulhar de cabeça na minha aventura. :)

2 – Eu diria que o Henrik Pettersson é um típico anti-herói do século 21. Um cara carismático, de bom coração, geek (que gosta de tecnologia, jogos, séries, filmes…), mas que não dá a mínima para as leis. Já a Rebecca Normén é praticamente oposta, bem mais reservada e fiel as leis. O quanto esses personagens têm de você neles?

Haha, boa pergunta! HP certamente é a minha criança interior, a vozinha na minha cabeça que tenta me convencer a apertar o botão de emergência do elevador. Ele também representa uma parte da minha personalidade que eu mais me esforço para controlar.

Rebecca é o meu lado prudente e seguro. Ela não gosta de correr riscos desnecessários, odeia perder a linha e gosta de estar sempre no controle da situação. Assim como eu, Rebecca nunca entra em um quarto de hotel sem verificar as saídas de emergência pelo menos duas vezes.

Uma vez um jornalista disse que HP parecia muito com ele entre seus 18 e 25 anos (e com a maioria das pessoas nessa faixa etária), quando ele era egocêntrico, impulsivo e achava que sabia de tudo e que Rebeca parecia com ele aos 30 anos, quando se tornou mais responsável, experiente e não pensava mais apenas em si mesmo em todas as situações. Acho que há um fundo de verdade nessa afirmação.

3- Uma das coisas mais divertidas durante a leitura foi achar os easter eggs espalhados na história. Como por exemplo as pílulas de Matrix, a primeira regra do Clube da  Luta, o little friend do Scarface, o espaço de Alien onde ninguém pode nos ouvir gritar e tantos outros. Como é o processo de adicionar isso na história? Essas são obras que você de fato gosta ou é mais uma forma de conseguir empatia dos leitores?

Fico muito feliz que tenha feito essa pergunta! Eu tentei construir o enredo da trilogia The Game em camadas, mais ou menos como a série de TV Os Simpsons.

Você pode vê-la como um simples desenho animado, como os meus filhos fazem. Você pode vê-la como algo maior e mais profundo como eu faço… e há uma terceira camada mais interna de humor em que você consegue captar as pequenas e sutis referências que só os roteiristas e os mais aficionados pelo seriado vão entender.

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The Game (1997)

The Game funciona de uma forma um pouco similar. A primeira camada do livro é um thriller de ação com muitas reviravoltas no enredo. A segunda camada é a ideia geral de como as pessoas reagem às mídias sociais e que mecanismos nos impelem a postar fotos do nosso almoço ou fazer outras coisas igualmente estúpidas só para conquistar a aprovação de pessoas estranhas e de como as empresas tiram proveito disso para nos transformar em commodities.

E então há uma terceira camada com os easter eggs mais geeks que você mencionou, como referências a filmes, séries de TV, livros e vídeo games. Eles são puramente baseados em meu interesse e consumo de cultura pop e eu fico muito feliz quando as pessoas os descobrem. Por exemplo, há uma cena com HP e um avião que é inspirada em um clássico thriller chamado “North by North West” (Intriga Internacional, na versão brasileira.) em que HP diz que “correu feito o puto do Cary Grant”. Eu tenho um pôster com essa cena do filme no meu escritório! Você também vai ver que o nome de HP em seu novo passaporte é Nick Orton, uma referência ao personagem Nicholas van Orton, interpretado por Michael Douglas em um filme chamado… é, você acertou: The Game (Vidas em Jogo do David Fincher)!

4- E afinal de contas, porque ninguém respeita a primeira regra, seja no Clube da Luta, seja aqui (ainda que aqui haja consequências para a quebra dela)?!

Haha, bom… regras existem para serem quebradas. Essa também é uma das primeiras regras da escrita. :)

5 – O interessante do livro é que THE GAME é perfeitamente cabível em qualquer teoria conspiratória. O Naufrágio Estônia, o assassinato do Kennedy e o 11 de setembro foram alguns casos reais citados nessa primeira edição. Aqui em São Paulo por exemplo, não faz muito tempo, houve um caso em que uma pessoa empurrou a outra na linha do metrô sem nenhum motivo aparente. Um caso desse caberia facilmente a alguma tarefa delegada pelo Mestre do Jogo. Enfim, o que podemos esperar para os dois volumes finais? Teremos mais casos verídicos citados na obra? As missões do Mestre do Jogo ficarão mais sinistras?

Outro assunto que eu adoro! Vocês são demais!

Eu sempre fui muito fascinado por teorias da conspiração. Quando pedi demissão de meu emprego como policial e comecei a trabalhar com segurança internacional eu viajei para muitos países diferentes e uma coisa que todos esses lugares tinham em comum, independente de cultura, idioma ou religião, eram as teorias da conspiração. Cada país parecia ter muitas delas e todas tinham mecanismos parecidos. A maioria delas eram grandes eventos inexplicáveis ou cuja explicação parecia ser simples demais para a complexidade de suas características (como pode um homem insignificante como Lee Harvey Oswald ter encomendado um rifle pelo correio para matar o homem mais poderoso do mundo?).

Lee Harvey Oswald
Lee Harvey Oswald

Eventos de grande magnitude como o assassinato de um presidente simplesmente precisam de uma explicação de magnitude equivalente, caso contrário se tornam difíceis de aceitar. Deve haver uma conspiração aí!

Em grande parte das conspirações sempre há o problema do timing: “dirigir a essa distância não leva 9 minutos como afirma o relatório da polícia. Eu cheguei nesse mesmo lugar em apenas 4 minutos! O que aconteceu durante os outros 5 minutos?”, fora todas essas pessoas à espreita falando em telefones ou walkie-talkies!

Se você procurar bem, vai encontrar muitas coisas um bocado estranhas, da mesma forma que HP, quando ele começa a ler as notícias. Algumas coisas parecem não ter explicação. A menos que façam parte de algo maior, algo que não é facilmente visto pelas pessoas comuns… parte de um Jogo em escala global, talvez… :)

6- Na minha opinião, o estilo dinâmico da narrativa do livro seria facilmente adaptável para as telas. Por acaso, alguma produtora já entrou em contato contigo propondo isso? Teríamos em breve um filme baseado na sua Trilogia, talvez com James Franco ou Ryan Gosling no papel do HP? =P

Sim, estou muito feliz em anunciar que a produtora Gaumont (que atualmente está produzindo a brilhante série Narcos para a Netflix) e sua parceira dinamarquesa Good Company Films (os responsáveis pelos filmes de Stieg Larsson) estão planejando uma série de TV baseada nos livros. Com um pouco de sorte, logo essa série também chegará ao Brasil.

Anders: Tanto James Franco quanto Ryan Gosling seriam excelentes escolhas para interpretar HP. E quanto a Rebecca? Quem você acha que seria boa para o papel?

Resposta minha (Chaves): Olha, vou te dizer que a Rachel McAdams (que fez a Bezzerides em True Detective me lembrou bastante a Rebecca), mas a Evangeline Lilly caberia no papel também. =P

7- Pra finalizar, como é para você ver seu livro sendo publicado no Brasil? Já visitou o nosso país alguma vez ou pretende vir para cá, talvez para lançar o restante da Trilogia?

Eu sempre fico muito animado quando meus livros alcançam novas audiências. As edições brasileiras parecem ótimas (bom trabalho, Darkside Books!) e estou muito feliz por ver The Game conquistar um lugar no coração dos leitores brasileiros. Eu ainda não visitei o Brasil (AINDA!) mas eu espero ter a chance de visitar seu lindo país e encontrar os leitores brasileiros em um futuro próximo.


– Um grande abraço para a Raquel Moritz da Darkside Books que nos possibilitou o contato com o Anders de la Motte. ミ◕ฺv◕ฺ彡
– Um duplo abraço para o Giancarlo e para Bia que traduziram a entrevista para nós.

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Para participar do sorteio de uma edição de Trilogia The Game – Volume 1, basta clicar AQUI e seguir as poucas regras. Boa sorte!

RESULTADO:

A vencedora do sorteio foi a leitora Ana Júlia. Obrigado a todos pela participação e até a próxima!

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Designer (gráfico e web), viciado em séries e em filmes, colecionador, rockeiro, torcedor do Tricolor Paulista...

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