Quem é que nunca levou porrada ou presenciou uma grande injustiça/sacanagem/safadeza nessa vida e desejou fortemente ter super poderes, nem que fosse “super coragem”, para poder fazer alguma coisa a respeito? Não tão longe: quem nunca vestiu uma máscara do Batman e uma capa quando criança e ficou se achando o tal? A simples presença de super heróis fictícios destituídos de super poderes representou um grande incentivo para a cabeça do homem comum, seja na prática como no surgimento de novas obras de ficção baseadas na “fantasia”. A prática vale, para alguns, tanto para fazer justiça como para se vingar ou simplesmente ser o herói admirado, respeitado e, quem sabe, pegador.

O último tópico foi especialmente atraente para Dave Lizewski, protagonista de Kick-Ass, HQ de Mark Millar e John Romita Jr., que resolveu comprar uma roupa de mergulho no eBay e sair provocando delinquentes pelas ruas,  levando muita porrada e se ferrando bastante no processo. As consequências por si só provavelmente já respondem a pergunta do referido personagem em dada página da HQ: “Por que todo mundo quer ser a Paris Hilton e ninguém quer ser o Homem-Aranha?

“Ninguém” seria um exagero compreensível. Mas eles existem. E não apenas existem, como se unem, se organizam e até mesmo se registram. Organizações como a Iniciativa New York, praticamente uma Liga da Justiça, sem falar nas constantes aparições na mídia desses heróis da vida real estão aí para provar que esses caras fantasiados, que lutam pelo amor e pela justiça, ou por seja lá o que for, de fato existem. O documentário de Michael Barnett, Superheroes, mostrou alguns desses heróis mais de perto. Lançado em 2011 pela HBO, com direito a exibição na San Diego Comic-Con, o filme apresenta alguns dos heróis da vida real dos Estados Unidos e do Canadá. Ao acompanhar um pouco da rotina de patrulha deles, mostrando o modo como eles pensam e o que os motivou, escolha do nome, da fantasia, treinamento, entre outras coisas, o documentário dá um vislumbre dessa realidade ainda excêntrica de pessoas que encontram coragem para saírem pelas ruas fantasiadas e bancarem os heróis.

Alguns, infelizmente, só tem o super poder de fazer as pessoas rirem. Ou, quem sabe, a super vergonha. Como em qualquer outro setor de ocupação dominado por seres humanos, é lógico que há aqueles que se destacam por se desempenharem excepcionalmente mal, proporcionando nada mais que vergonha alheia (muita). Nisso o filme peca e logo no começo, colocando na introdução justo um dos heróis que serve no máximo como o super piada. Em alguns momentos, inclusive, enfatiza pontos especialmente vergonhosos, como o fato de não terem vida social ou namorada, terem possíveis problemas com álcool e pouca ou nenhuma habilidade física, sem falar na inteligência duvidosa. Se fosse esse o objetivo até não seria tão ruim (o objetivo é que seria), mas intercalar partes apresentando caras dignos de pena, em tom de deboche, com histórias tratadas com mais respeito e seriedade, de pessoas realmente dignas do título de herói é um pouco confuso. Especialmente no que se refere ao objetivo do documentário, que não fica muito claro. Não há, tampouco, uma conclusão.

Muitos deles levantam uma bandeira e apresentam razões para fazer o que fazem. Mas uma história que coincide nos relatos é a de Kitty Genovese, moça que foi esfaqueada até a morte em Nova York, nos anos 60, com cerca de 30 testemunhas, que preferiram fechar as janelas e ignorar os gritos dela. A indiferença das pessoas nas ruas quanto a outras em situação de perigo e moradores de rua também é motivação para muitos deles, em especial Thanatos, herói de 62 anos do Canadá.

Em geral as histórias são bonitas, pra quem consegue ver além do começo sarrista e superar o primeiro impacto que impregna a coisa toda com uma sensação de que todos os envolvidos são um tanto ridículos. Mas não são. Não todos. Alguns servem como fonte de inspiração, mas só aqueles que estão além das idéias e motivações iniciais de Dave Lizewski.

Trailer:

 

 

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10 COMENTÁRIOS

  1. Excelente. Eu sabia da existência desses voluntários, mas nem imaginava que houvessem se organizado como um grupo para intercâmbio de informações. Não vi o documentário (estou curioso por fazê-lo), mas o fato de ser inconclusivo não incomoda. Doco não deve mesmo ser parcial ou demonstrar as tendências ideológicas do idealizador, diretor ou financiador (embora isso ocorra bastante), sob pena de tornar-se panfletário e autoral. A mera circunstância de reportar já é suficiente. Abraço, Kiara, e boa sorte na profissão de jornalista!

  2. Não incomoda, mas o que não fica claro é a intenção do documentário. O fato de intercalar ridicularização com “estamos levando estes caras a sério” realmente confunde. Quando eu disse que o documentário é inconclusivo eu me referi ao fato de várias pontas ficarem soltas a respeito de alguns dos caras mostrados. Acho que é muito difícil exercer jornalismo (ou seja lá o que for) sem manifestar qualquer tipo de opinião, por mais que se busque fazer isso. :)

  3. Gente que não fode.
    Gente que fode mal.
    Gente que não sabe meter direito e fica estressada e inventa essas paradas para dar sentido a suas vidinha de merda mas que acaba por deixar outras pessoas constrangidas por colecionar gibi.
    Gente esquizofrênica que precisa de remédio.

    • Não é esse o ponto. Comer muita ou pouca gente não te torna mais ou menos nobre, mais ou menos louco, só alguém que comeu mais gente. E se você realmente acha que é isso que dita qualquer tipo de ação metafisicamente baseada, VOCÊ é a pessoa com certos probleminhas, pois VOCÊ é quem está deixando uma coisa influenciar na outra.

  4. Esse eu queria ver!
    Agora fazer trabalho voluntário com roupas normais ninguém pensou, né?!
    Tenho que concordar com o Zé da Fiel, até porque acho que para ajudar o próximo existem outros meios menos ridículos.
    Mas fiquei curiosa para assitir, será que passa atualmente na HBO?

  5. Acho que numa parte do artigo, Kiara você se colocou um pouco da tendencia dos super-heróis clássicos, super-herói e insensível imune a sentimentos segue a justiça comum;
    Antes de ser super-herói eles são humanos,tem sentimentos, angustias,onde em Watchmen Alan Moore mostrou isso muito bem.
    E posto me a rir,com o infeliz comentário do “Zé da Fiel”, mais um tolo que tende a seguir os padrões impostos pela sociedade atual.

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