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Acima de mim, indiferentes, muitos prédios iluminavam uns aos outros com seus letreiros pulsantes coloridos. Entrecortavam-se por eles telas publicitárias que alternavam pequenas headlines que não duravam mais que um minuto antes de mudar.  Lembro de ter escrito um ou outra daquela, mas ninguém ligava, ninguém se importava. Nem mesmo eu. Só precisava do dinheiro.

Àquela hora da madrugada não havia quase ninguém na rua que não fosse o tipo de pessoa que não costuma-se querer encontrar. Havia achado aquela via formada por ladeiras numa folga que tive quando fui doar sangue para não ter que trabalhar. Gripes e resfriados nos últimos dias? Doença de chagas, hanseníase, tuberculose, conjuntivite? Atraso menstrual? Não tenho nem uma vagina, minha senhora. Rubeola, erisipela, caxumba, varicela, dengue, herpes zoster? Não, nada. Forte como um touro. Toxoplasmose? Era só responder não para tudo. Malária? Infecção por HBV, HCV, HIV? Efisema? Doenças pulmonares? Doenças cardíacas? Se eu tinha algo daquilo, não sabia. E se soubesse, responderia que não de qualquer forma.

Descendo a ciclovia sobre o skate, bem protegido dos sons da cidade pelos fones de ouvido no máximo, apreciava o vento tocando o suor quente na testa. Na mochila levava um touro vermelho gelado. Aproximei-me veloz deslizando para uma depressão úmida coberta por um viaduto onde passavam trilhos do metrô por entre os prédios. Desci do skate sentindo o sangue correr agitado. Saquei logo um cigarro e um isqueiro para recuperar o fôlego. De fone não pude ouvir os passos atrás de mim, vindos de uma abertura no viaduto protegido por uma escuridão angular onde o néon não chegava. Assustei-me com algum movimento visto no canto dos olhos. Catei depressa o skate e acertei uma das sombras, mas haviam outras, e uma delas me acertou uma pancada de ferro nos braços, me fazendo cair. Tentei alcançar o canivete no bolso, mas era tarde de mais. Fechei os olhos esperando a pancada que iria esmagar meu crânio, mas o que senti foi uma agulha entrar fundo no pescoço. Gritei, mas o som travado de uma boate lá em cima conseguiu me abafar facilmente e meu grito não foi muito longe. Cobriram-me a boca. Logo me veio uma ardência a medida em que me injetava algo, uma ardência que correu queimando pelas veias transformando-se em uma dormência irresistível. Pude ver contra a cidade colorida um coelho com as mãos no bolso e outros animais ao meu redor, um deles tirando a seringa de mim e a jogando para trás com descaso. Apaguei na escuridão.

Meus olhos abriram-se tão doloridos que pareciam não terem sido abertos por anos. Assim que a imagem voltou ao foco e as pupilas acostumaram-se com a iluminação fortíssima que vinha de lâmpadas florescentes no teto, vi um coelho, um porco e um cavalo, todos de jaleco, e um deles, o porco, cobrindo a mascara do animal com uma mascara de médico. Estávamos em uma sala mal pintada em um tom verde-banheiro. Estava atulhada de coisas empilhadas, macas, máquinas de hospital, armários e grandes caixas, como se fosse um depósito, e mais próximo da maca onde me encontrava amarrado, diversos instrumentos médicos, cilindros de gás, e toda uma parafernália de aparelhos, mostradores, tubos e metal branco. Em um dos aparelhos mostrava-se meu pulso completamente acelerado do medo, que não transparecia no rosto, em bipes incômodos. Vi que o Coelho, era a Coelho, pois era fácil ver o volume das tetas sob o jaleco. Ela tirava minha pressão enquanto o Porco passava o estetoscópio gelado pelo meu peito. Notei confuso que estava pelado por debaixo de uma daquelas roupas de hospital que deixam a bunda de fora. Quando notei que podia mexer meu corpo, senti a pressão de lacres de plástico, como aqueles de registros de água e gás, prendendo meus pulsos e tornozelos à maca. Passei vários minutos tentando entender tudo aquilo, constatando pouco a pouco, como que degrau após degrau em direção ao inferno, o que diabos eu podia estar fazendo ali.

“Estou doente”, menti, quando criei coragem para falar.

Pude ouvir o Porco rir olhando para a Coelho e depois para o Cavalo. Fizeram outros exâmes esquisitos em mim por mais algum tempo. Várias horas haviam se passado. Ao meu redor os bichos falavam entre si termos técnicos sobre mim e anotavam de tudo em uma prancheta já extensa, cheia de notas e informações, ignorando quase sempre minhas perguntas sobre o que estava acontecendo e quem eles eram e onde eu estava e…

Pressão, quantidade de plaquetas, pH e todo tipo de coisa ia parar na prancheta. Depois de ter saído por minutos, o Cavalo voltou trazendo uma máquina de aparência velha e usada, mas funcional, com um extenso braço de metal coberto por sessões de plástico branco que jogavam luzes sobre partes de meu corpo e imprimiam num pedaço de papel fino que a máquina cuspia vários números e valores que interessavam aos bichos. Me picaram diversas vezes com agulhas, em geral nos braços, mas também nos pés e uma vez na testa, levando quantidades de sangue de tempo em tempo e voltando com seringas cheias de líquidos coloridos que desciam pela sonda até meu braço e atiravam-se para dentro das veias por uma agulha até minha corrente sanguínea me fazendo ter todo tipo de reação, sendo os espasmos musculares a pior e mais dolorosa delas. Algumas vezes passaram algodões úmidos de todo tipo de coisa colorida sobre minha pele, como pequenas quantidade de substâncias como se procurassem por alergias. Toda vez que alguém aproximava-se de mim para olhar a dilatação de minhas pupilas com uma lente de aumento e um pequeno led que atirava luz ofuscante em meu olho eu me contorcia, tentando mover o rosto para longe, mas outros vinham ajudar e eu acabava perdendo aquela briga de força para os animais.

Eventualmente, todos foram embora, apagando as luzes, me deixando ali, amarrado, com frio e atolado em perguntas e medos pontiagudos. Não consegui dormir e passei uma noite em claro remoendo tudo em minha cabeça, uma tortura lenta e lancinante, tomado de desespero e angustia por antecipação ao que quer fosse ocorrer. A Coelho havia me dito para ficar calmo que tudo ficaria bem com o mesmo tom de quem mente para uma criança dizendo que o remédio não vai ter gosto ruim, ou diz que tudo irá ficar bem mesmo quando tudo irá ficar uma merda, o tipo de tom que mente, embora, de alguma forma, queira confortar seja por qual for o motivo, talvez hábito. Mas era difícil me enganar naquele ponto. Foi fácil relacionar tudo e imaginei que estaria morto no dia seguinte ou no dia depois desse ou em algum momento próximo, não mais distante que uma semana.

Não tinha qualquer contato com parentes, morava sozinho. Se alguém fosse dar minha falta, seria no trabalho, mas quando realmente mandariam alguém me procurar? Não conseguia ir muito longe para arranjar uma resposta. Perdido em pensamentos, metido no escuro, tentava ouvir alguma coisa, mas o lugar era completamente silencioso, nada se ouvia que não o ruído da ventilação das máquinas ligadas a mim e os bipes impessoais que me acompanhavam nos momentos de desespero e choro. Me sentia observado.

Pela manhã, ou ao menos imaginei que fosse manhã, já que não haviam janelas e tudo indicasse que eu estava no subsolo, pude ouvir o som de uma alavanca sendo levantada ou o bloqueio de um interruptor sendo solto, como aqueles enormes interruptores industriais de fábrica e lugares que usam muita energia. As luzes acenderam-se acima de mim como o big bang atirando uma explosão repentina de luz para dentro da minha mente, me fazendo contorcer na cama. Pela porta azulada e larga entrou a Coelho seguida pelo Porco, dessa vez sem máscara de médico, e logo mais o Cavalo e por último um sujeito enorme que levava na cara um rosto de verdade, sem máscara, um rosto cetáceo, com vários queixos que escondiam o pescoço onde um crucifixo de prata pesava sobre o batina negra, enrolada na cintura por uma faixa roxa. Um bispo, um padre? Não sabia a diferença. Pareciam todos iguais para mim. Ele foi o primeiro a se aproximar, vindo até meu lado com um andar difícil e custoso. Me olhou tão próximo que pude sentir o cheiro de colônia e mal hálito matinal. Ele me cheirou algumas vezes. Passou a mão em meu suor e provou o sabor. Logo abriu um sorriso largo e amarelo.

Sentado em uma cadeira colocada no fundo da sala o obeso homem do Senhor debruçava-se sobre as folhas deixadas em sua mão, rubricando cada página a medida em que lia, contraindo o rosto vez ou outra, como que incomodado com uma ou outra passagem do texto. No fim, suspirando, como se aquela fosse a única maneira, assinou e entregou as folhas ao Cavalo que as guardou em um pasta de couro falso que manteve junto de si.

“Sem nenhuma hepatite, pancreatite ou doença infecto-contagiosa”, comentou o Porco lendo o bloco de folhas onde anotaram tudo sobre mim com a voz abafada de leve por sua mascara que possuía furos apenas na altura do nariz de tomada. “Fizemos os exâmes duas vezes para confirmar aquele primeiro feito na doação e tudo bate. Tipo O, negativo, pH sete ponto quarenta. Pelo seu histórico posso ver que nunca teve qualquer doença infeciosa grave e…”

“Tive hepatite…”, tossi as palavras, tirando força não sei de onde.

“Não teve”, o Cavalo atalhou rápido, voltando-se para o padre que abriu olhos preocupados. “Nós checamos não se preocupe. E ficará feliz em saber que nosso amigão aqui ainda é esportista. Saúde de touro.”

“Não quero coração nenhum”, o padre comentou fechando a cara. “Quero é essa lista.”

“Só terminologia médica e…”

“Passe a lista”, o Cavalo ordenou sem meias-palavras.

“Por que usam essas porras de mascara? Querem me causar um enfarto?”, o padre resmungou tomando a lista estendida para ele. “Ele não vai poder falar para ninguém se vir seus rostos, então qual é?”, quando ninguém respondeu o padre olhou em volta, deixando brotar um sorriso de compreensão nos lábios secos e finos. “Entendi. Tem medo de mim? Bem, nunca é de mais ter cautela. Deixe-me ver”, passou os olhos pela lista movendo os lábios como se lê-se. “O que é isso? Traços de psicotrópicos menores em…”

“Ele pode ter usado algumas drogas”, o Cavalo antecipou-se, comentando.

“Muitas”, eu disse, aproveitando. “Sou viciado em heroína e fumante…”

“Isso eu aguento”, o padre interrompeu seguindo um sorriso amarelo. Pude ouvir um exalar aliviado do Porco. “Bem, então está tudo certo. Farei o depósito pelo celular”, comentou o padre e continuou: “O preço combinado pelos rins, fígado e pelas córneas.”

“Não podemos usar os dois rins”, a Coelho explicou; “fica ruim nos relatórios.”

“Entendo. Duas córneas e um rim, que seja. Desde que eu consiga mijar direito está bom”, o padre comentou e então voltou-se para mim. “Você foi mandado pelo Senhor, para eu estender minha missão de pastor aqui entre as ovelhas. Bote um sorriso nesse rosto pálido, garoto.”

“Ele irá te acompanhar até a sala de operação”, disse a Coelha indicando o Cavalo que já esperava na porta. “Logo subiremos com o material.”

“Ótimo”, disse o padre, preparando-se para levantar e acompanhar o cavalo.

A Coelha aproximou-se de mim trazendo uma mascara presa a um cilindro de gás. O Porco segurou-me o rosto.

“Veado”, gritei, usando toda força que me restava. “Sou veado.”

“Cala a boca”, gritou o Porco tentando conter meu maxilar.

“Espera”, disse o padre. “O que ele disse? Deixa ele falar.”

“Sou veado”, repeti assim que o porco soltou minha boca. “Você não quer meu sangue em você. Sou gay, homossexual. Gosto de homens e de sodomia e pau. Sou veado”, repeti. “Bicha.”

Por algum tempo todos ficaram em silêncio e a única coisa que se ouvia era o som da ventilação dos equipamentos e eu mesmo repetindo ‘sou veado’ sem parar. O padre voltou para perto da maca e me olhou bem nos olhos, com uma expressão indecifrável no rosto gordo e suado.

“Arranje outro”, ele disse, por fim, após algum tempo. Caminhou de volta em direção a porta. “Arranje outro”, repetiu. “Não quero esse.”

Irritado o porco atirou um pesado jarro de vidro contra a parede, estilhaçando cacos para todo lado, empesteando a sala com cheiro de amoníaco. Quando me deixaram sozinho, pude ouvir as vozes do lado de fora. Falavam sobre preços, sobre cobrar mais para ir atrás de outra pessoa, sobre o dinheiro do pessoal da coleta de sangue e por fim sobre como me matariam se não encontrassem algum comprador para mim em dois ou três dias. Logo as luzes se apagaram e novamente eu estava sozinho.

Tentei com a mão presa pelo lacre alcançar o pedaço de vidro que caíra sobre meu colo e reluzia o azul da luz dos aparelhos. Não consegui. Movi o quadril tentando empurrar o vidro para perto da mão esquerda. Passei quase trinta minutos tentando, mas era difícil saber ao certo como pegá-lo. Quando por fim consegui alcançar o caco, cortei os dedos algumas vezes e tive a impressão de quase destroncar o ombro enquanto tentava pegá-lo. Com ele entre os dedos, estiquei bem o lacre e comecei a passar o vidro sobre ele. Imaginei que romperia-se logo, mas demorou muito, talvez uma hora ou mais difícil dizer, e as cãibras torturavam com força os músculos da mão. Quando o lacre se rompeu, levei rápido a mão maltratada e contraída em um aperto doloroso para o peito, tentando abrir os dedos duros que apertavam o vidro na carne.

Dessa vez com posição melhor rompi rápido o outro lacre, em poucos minutos. Em seguida as pernas. Toquei o chão devagar, esperando não pisar em nenhum caco e me surpreendi por conseguir ficar de pé depois de tudo que me deram com apenas uma tonteira e mal estar. Tateei o chão atrás de vidros maiores e encontrei um do tamanho de uma faca de sobremesa. Segurei-o o melhor que pude com a mão direita e caminhei até a saída, não pisando por sorte, em nenhum pedaço de vidro grande de mais. Espiei pela porta entreaberta. Entrei para o corredor com cuidado, iluminado por uma luz de emergência no começo dele, do outro lado, após três ou quatro salas daquela. Não havia ninguém em parte alguma. Apenas silêncio e ecos de todo som que eu fazia.

Atravessei as portas vai-e-vem para fora do corredor, dando de cara com uma antesala pequena onde havia um elevador com uma placa de fora de uso afixada no durex entre as portas e uma escada ao lado, além de algumas outras portas largas. Rumei rápido para a escada. Subi algo como dois ou três andares de patamares até por fim encontrar uma porta. Quando a atravessei me vi em outra pequena antesala vazia e olhando para trás vi sobre a porta de onde eu havia vindo os dizeres “RADIOLOGIA”, riscado por uma linha vermelha. Caminhei para fora da antesala dolorido e cheio de cortes nos pés e nas mãos, embora tragicamente só conseguisse pensar em sair dali, deitar num sofá e fumar toda uma carteira de cigarros. Como eu queria um cigarro…

Logo comecei a ouvir vozes. Me encontrei em um longo corredor quase que todo tomado por lonas e baldes de tinta. As paredes mostravam-se metade pintadas do outro lado, e foi para lá que me dirigi. Cruzei as portas vai-e-vem saindo em outro corredor próximo de um banheiro de onde um sujeito de jaleco mostrando no rosto um bigode ralo e traços orientais saiu me olhou confuso.

“Tá tudo bem?”

“Chama a polícia…”

“Enfermeira, ajude aqui!…”, ele chamou. “Ninguém vai ouvir daqui. Vamos, venha, vamos até lá.”

Caminhei firmando tão bem o caco em minhas mãos que o sangue começou a pingar pelo corredor. Ele me conduziu como que para uma sala de descanso onde várias pessoas de jaleco me olharam com olhares curiosos. Me sentaram em uma cadeira improvisada daqueles bancos de tomar injeção já acoplado a um apoio de metal para o braço. Alguns se aproximaram perguntando o que havia acontecido enquanto outros chamavam enfermeiras. Um deles me pegou pelo braço e disse aos outros que me levaria até o ambulatório. Seguimos nos dois por outro corredor, esse cheio de pessoas que nos olharam curiosas. Parecia uma área de consultórios.

“Onde eu estou? Qual hospital?”

“Não importa”, ele respondeu e acabei reconhecendo a voz do Porco.

Empurrei-o para o lado e saltei sobre ele desferindo golpes do vidro que ele aparou protegendo-se com as mãos e o antebraço que encheram-se de cortes fundos, mostrando por debaixo da pele rompida uma fina camada de gordura seguida por músculo e o branco-avermelhado dos ossos. Fugi dali mais depressa que podia. Precisava ir até a polícia. A minha volta diversas enfermeiras gritavam e entravam nos consultórios ou comprimiam-se contra a parede enquanto eu passava. Os gritos atraíram seguranças que me encontraram no fim do corredor. Um deles conseguiu segurar-me pelo braço direito e me fazer abrir a mão, embora o vidro estivesse tão fundo na carne que não caiu. O outro puxou o caco de minha mão cortando a dele mesmo no processo e por fim me atiraram contra o chão e falaram para chamar a polícia. Gostei de ouvir aquilo. Uma médica, porém, se aproximou e injetou algo em minha nuca. Pude ouvir sua voz, borrada pela droga que havia me dado, dizendo que eu era da psiquiatria e que estava tudo bem, que não precisavam chamar ninguém. Também a reconheci pela voz, embora estivesse sem a mascara de coelha. Logo desmaiei. Acordei tonto, não conseguindo me mexer e com alguma dificuldade de respirar, ofuscado pela luz forte que vinha do teto. Quando desci o olhar, vi meu próprio abdômen aberto e mexendo nele com bisturis, fórceps e tubos de drenagem, um coelho, um porco e um cavalo.

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