Em 1997, o cineasta Paul Verhoeven nos apresentou uma visão um tanto inusitada de Tropas Estelares, clássico da ficção científica escrito pelo americano Robert A. Heinlein, publicado em 1959. Muita gente torceu o nariz para o tom meio galhofa do filme e a sua crítica ao militarismo talvez não tenha sido bem compreendida na época (afinal, não foi o Facebook que inventou esse negócio de não entender ironia).

Quem já havia lido a obra, provavelmente se surpreendeu não apenas com a sátira corrosiva, propositalmente caricata, como também com o enredo, já que elementos essenciais do livro, como as armaduras fodonas, foram simplesmente deixadas de lado (creio que por uma questão de economia). Pra estes que já conheciam a história também deve ter ocorrido o seguinte questionamento: que porra de historinha de amor é essa?

O caso é que livro e filme são opostos em seus propósitos. Se de um lado Verhoeven sacaneia uma sociedade que tem tesão por armas a ponto de deixar criancinhas manuseá-las, de outro Heinlein, graduado na Academia Naval,  nos apresenta uma visão pró-militar, cheia de heroísmo e pensamentos reacionários. Mas calma amiguinho com camiseta do Che Guevara, Heinlein tá longe de ser um Bolsonaro, e ainda por cima escreve bem pra caralho.


A Editora Aleph lançou uma nova edição do livro no ano passado, com ótima tradução do Carlos Angelo (tá aí um cara que manja de Robert A. Heinlein) e o leitor brasileiro tem novamente acesso a esta história fantástica que mistura política, ação e filosofia.
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Tirando o pequeno detalhe de que os soldados estão no espaço lutando contra aranhas gigantes, Tropas Estelares faz lembrar o filme Full Metal Jacket (Nascido Para Matar), de Stanley Kubrick (adaptação do livro de Gustav Hasford). Temos aqui o jovem Juan Rico que, influenciado pelo melhor amigo (e não por uma garota, como no filme), resolve largar o conforto da casa dos pais para se alistar no exército para enfim se tornar um cidadão com direito ao voto. Naquele universo, apenas aqueles que cumprem o seu dever cívico por meio da violência da guerra é que estão capacitados a escolher seus comandantes políticos.

Rico sofre os diabos durante o humilhante treinamento e enquanto está lá se fodendo como soldado novato, aos poucos o seu caráter vai sendo moldado. Ele deixa de ser um Maria-vai-com-as-outras e começa a perceber aptidão para a coisa, conseguindo se destacar cada vez mais. O livro acompanha o personagem desde os seus testes iniciais, passando pelo uso das armaduras especiais que saem quicando por aí (tipo um Homem de Ferro mais bombado que dá saltos gigantes como o Hulk) até o conflito contra os bichões medonhos que vivem em planetas esquisitos e ameaçam a humanidade.

Robert A. Heinlein insere os questionamentos políticos e morais em flashbacks que tomaram o período escolar do personagem. Nestes trechos, nos deparamos com afirmações bem impactantes sobre a punição e educação:

“’Delinquente juvenil’ é uma contradição em termos. ‘Delinquente’  significa ‘o que falhou no dever’. Mas dever é uma virtude adulta […] Este foi o ponto fraco que destruiu aquilo que foi um cultura admirável. Os arruaceiros mirins que vagavam pelas ruas eram sintomas de uma doença maior; seus cidadãos glorificavam a tal mitologia dos ‘direitos’… e perderam de vista os deveres. Nenhuma nação, assim constituída pode perdurar”.

“Mitologia dos direitos”, é mole? Mas a articulação é bem boa, vai.

Nem tudo é preto-e-branco na mente deste autor, já que ele pode ser bem prafrentex em algumas situações, isto fica claro quando vemos que aquele universo não é predominantemente masculino, umas vez que as mulheres ocupam posições superiores e são especialistas em matemática. Fora isso, os personagens possuem várias etnias, pois nem só de loirinhos americanos vive uma guerra espacial.

Muitas das questões morais vão sendo inseridas nas diversas situações em que os personagens precisam tomar decisões difíceis e, em geral, todas elas são heroicas, numa possível tentativa de mostrá-los como detentores de valores mais elevados que as pessoas comuns.

Há trechos em que o autor faz longas explanações sobre as hierarquias de patentes (se fulano morrer quem assume o seu lugar, etc) e aí é necessário ser um fã bem hardcore de narrativas militares pra não perder a paciência.

Por outro lado, o livro passa longe de ser chato, já que num geral o ritmo é sempre muito intenso. Heinlein é extremamente hábil em desenvolver um universo crível, cheio de estratégias de combate e rico em violência. Após acompanharmos todo o treinamento dos soldados, ele joga os personagens no meio do conflito sem dó. E aí é como se o autor pegasse a mão do leitor e o levasse lá para o meio da treta.

É claro que Tropas Estelares permite inúmeras leituras, muitas delas polêmicas e algumas com um viés bastante ideológico, mas ele é também uma aventura muito divertida e me parece uma obra fundamental para compreender a ficção científica.


tropasestelares_capaTropas Estelares (Starship Troopers)
Autor: Robert A. Heinlein
Editora: Aleph (2015)
Páginas: 352

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Professor de língua portuguesa e literatura. No meio tempo entre um e-mail de aluno reclamando de nota e uma partida de Battlefield, escreve algumas groselhas sobre filmes e livros.

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