– Uma festa de bicadas? [….]

– Ora, então deixe que eu lhe explique. – McMurphy levanta a voz, embora não olhe para os outros Agudos que o estão ouvindo, atrás dele, é a eles que se dirige.

– O bando avista uma mancha de sangue numa galinha qualquer e todos eles começam a bicá-la, sabe, até que estraçalham a galinha em pedaços, sangue e ossos e penas. Mas normalmente um par das aves do bando ganha também sua ferida na confusão, então é a vez delas. E mais algumas ficam machucadas e são bicadas até a morte, e mais outras e outras. Ah, uma festa de bicadas pode acabar com o bando inteiro em uma questão de horas, companheiro, eu já vi. A única maneira de impedir que isso aconteça com as galinhas é meter antolhos nelas. De forma que não possam ver.

Em 1962, Ken Kesey publicou o estrondoso sucesso de vendas Um estranho no ninho. O sucesso deste livro foi tanto que quase a totalidade de suas outras obras foram relegadas ao esquecimento. Um estranho no ninho só não conseguiu apagar aquilo que considero a principal criação de Ken Kesey: sua própria personalidade.

Kesey costumava dizer que era novo demais pra ser um beat e velho demais pra ser um hippie. Isso é verdade, ele foi o elo entre a contracultura beat e o surgimento do movimento hippie dos anos 60, regado à LSD e a idéia da revolução espiritual. Kesey foi um exemplo de pessoa lutando contra o sistema para os hippies, pois por alguns anos “liderou” um grupo chamado Merry Pranksters (Festivos Gozadores, numa porca tradução brasileira), que viviam dentro de um ônibus escolar pintado de forma psicodélica, viajando por todos os cantos dos Estados Unidos realizando Testes do Refrescos do Ácido Elétrico (livro do Tom Wolf que em breve ganhará uma resenha aqui também), com objetivo de conduzir as pessoas a libertação da mente através do uso do LSD dentro de bebidas cítricas.

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O contato contundente de Ken Kesey com as drogas se deu através da sua participação como cobaia do projeto MKULTRA (projeto da CIA que visava definir cientificamente a capacidade de controle da mente através da administração de psicoativos no corpo humano).

Todas as terças-feiras pela manhã eu me encaminhava para o hospital em Menlo Park, Califórnia. Era levado pelo médico para um quartinho, tomava umas pílulas ou bebia um suco amargo e era trancado lá dentro. A cada quarenta minutos ele voltava para checar se eu continuava vivo, aplicava uns testes, fazia algumas perguntas e saía. Nos longos intervalos entre essas visitas, eu ficava observando o funcionamento da minha mente ou olhando pela janelinha gradeada da porta.

A imaginação é capaz de atravessar qualquer prisão.

Após meses como cobaia, as experiências que Kesey participava acabaram e ele se candidatou ao trabalho de assistente. Foi admitido e passou a trabalhar com a mesma equipe que o acompanhava em seus testes. De suas observações do funcionamento da estrutura psiquiátrica de submissão dos pacientes aos doutores e seus estudos do uso do eletro-choque e lobotomia para normatização do sujeito considerado anormal, ele começou a esboçar idéias do que seria Um estranho no ninho.

O livro nos conta através da visão de Chefe como a chegada de McMurphy, um prisioneiro que se supõe fingir ter problemas psicológicos graves para fugir do trabalho forçado do presídio e viver como paciente no hospício, desestabiliza o funcionamento da estrutura social estabelecida no hospício.

Ao chegar no hospital, McMurphy acha que fez uma boa troca, chega mesmo a dizer que a vida no hospício é como estar em um hotel se comparado à prisão. Ele organiza jogatinas onde tira o dinheiro dos outros pacientes, come bem, não precisa ficar dentro de uma cela e pode mesmo provocar os funcionários sem temer represália direta. A personalidade de McMurphy é impulsiva, observador e inteligente, ele nota que dentro das regras jogadas no hospício se ele não agredir ninguém, se não perder o controle de si mesmo, os funcionários não podem fazer qualquer coisa contra ele além de provocá-lo de volta, diferente da prisão onde os guardas e outros funcionários podiam judiar de qualquer preso sem se preocupar já que estavam fora da vista das leis.

Chefe narra que McMurphy era diferente de todos, e não demorou muito para que ele mesmo notasse isso. Todos os outros pacientes nutriam um sentimento de admiração e temor pela enfermeira Mildred Ratched, a responsável por aquela ala do hospital. E ele a considerava apenas uma senhora de meia idade sem muitas opções de diversão na vida. Rapidamente McMurphy percebeu que a principal peça da engrenagem daquele grupo era a “Chefona”, a enfermeira Ratched, ela era a guardiã das normas e responsável por manter tudo na linha. Todos a obedeciam incondicionalmente, mesmo em situações absurdas como fazer os pacientes dedurarem uns aos outros e dizer que isso era parte do processo de “cura”.

“Ela não acusa. Ela precisa apenas insinuar, insinuar qualquer coisa, entende? Não reparou hoje? Ela chama um homem até a Sala das Enfermeiras e lá o interroga sobre um lenço de papel que foi encontrado debaixo da cama dele. Nada mais, apenas interroga. E ele se sentirá como se estivesse mentindo para ela, qualquer que seja sua resposta. Se alega que estava limpando uma caneta, ela diz ‘Eu sei, uma caneta’, ou se ela afirma que estava resfriado, limpando o nariz, ela diz ‘Eu sei, resfriado’, e balança a cabecinha grisalha bem penteada e sorri seu sorrisinho limpo e vira se perguntando apenas para que diabo foi que ele usou o lenço de papel. – Ele recomeça a tremer e os ombros tornam a se dobrar em sua volta. – Não, ela não precisa acusar. Ela é um gênio em insinuações.”

Sempre aparentemente calma, bem vestida, tratando bem os pacientes, convencendo através do discurso, como manda o figurino liberal de uma instituição psiquiatra experimental… essas atitudes impediam que os pacientes se revoltassem contra Ratched, porque eles sentiriam uma culpa enorme caso sequer discordassem dela. McMurphy percebeu a hipocrisia por trás de tanta delicadeza, percebeu que ela manipulava a todos para fazer exatamente aquilo que desejava, percebeu principalmente que os outros pacientes nunca iriam querer mudar por que estavam acostumados àquela situação, só alguém de fora poderia fazê-lo. Então fazendo uma aposta com os outros pacientes (McMurphy não é um altruísta, ele tinha que se dar bem de alguma forma) ele decide tentar tirá-la dessa posição de matrona sagrada do hospício, começa a provocá-la no intuito de derrubar sua máscara de serena e delicada para revelar a verdadeira face da enfermeira Ratched.

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Para McMurphy a maioria dos doidos do hospício eram pessoas normais como qualquer uma do lado de fora, eram apenas pessoas com problemas comuns que, por não saberem como lidar, acabaram procurando ajuda e terminaram presas dentro do ciclo de culpa da enfermeira Ratched, aquilo o dava repulsa.

Na cabeça esquizofrênica do Chefe, que é quem está narrando a história, todo o mundo é submisso à Liga. Uma organização secreta que, através da manipulação da realidade, coloca medo nas pessoas e as faz agir dentro das suas leis mesmo a contragosto. Ratched é só uma funcionária da Liga, e quando a Liga se sente ameaçada ela joga fumaça em todos os lados para isolar as pessoas dentro de suas próprias cabeças e colocá-las de volta no seu lugar. Para o Chefe, a Liga lhe absorveu todas suas energias, de um índio forte como um touro ele se tornou apenas uma pessoa pequena qualquer, mas McMurphy é grande como um dia ele mesmo já foi, não só grande como capaz de enfrentar a Liga, mesmo depois de meses a desafiando ele não foi vencido. Era a esperança de dar fim ao medo causado pela Liga.

Logo McMurphy compreenderia que diferentemente da prisão sua estadia no hospício não tinha data para acabar. Ele ficaria lá até o médico o considerar curado de uma declarada psicose, e o médico só fazia o que a enfermeira Ratched dissesse. McMurphy se viu preso em uma armadilha, por um momento ele achou que os outros pacientes haviam se aproveitado de seu desconhecimento desse fato para se divertirem às suas custas, mas logo notou que não, pois a maioria estava no hospicio voluntariamente, eles eram simplesmente conformados com a situação em que estavam. E dessa vez se ele quisesse sair dali teria de se conformar também. Depois disso o motim comportamental dos pacientes foi enfraquecendo até desaparecer. Quando Ratched numa jogada consegue tirar a sala de jogos dos pacientes como punição pelo trabalho de limpeza que McMurphy não estava fazendo, ele retorna ao jogo do conflito. Fingindo que não estava vendo a janela de vidro do balcão ele enfia a mão dentro da salinha para pegar cigarros, prontamente se desculpa e começa a limpar como se tivesse sido um acidente, a enfermeira entende o recado. Daí em diante o livro é um relato de proporções épicas sobre um marginal americano dentro de um hospício e um índio esquizofrênico apelidado de Chefe contra o sistema psiquiátrico.

Um estranho no ninho não fez sucesso a toa, além da narrativa maravilhosa, alucinada e do conteúdo subversivo, é um livro que está em sintonia com a retomada do movimento anti-psiquiátrico com livros como “O mito da doença mental” de R. Laing e “A História da Loucura” de Foucault. Além das campanhas de Allen Ginsberg contra a opressão nas instituições psiquiátricas, principalmente o tratamento de choque e lobotomia que inutilizavam completamente o funcionamento mental das pessoas. É um livro que embora tenha momentos cansativos, tem personagens marcantes e um enredo redentor. Vale muito a pena ler lentamente.

Autor: Ken Kesey

Páginas: 418

Nota: 9,0

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Anarco-parasita; místico urbano; aprendiz na arte-sabotagem; divulgador dos beneficios do DOUBLE VEGETTA; historiador perdido na cozinha do caminho entre a antiguidade e a contracultura; outsider caçado pelo Diretório da interzone; sempre de olho nos arcontes do cosmos e nos UFOs que eventualmente aparecem, além de muitas outras coisas sem sentido que se tem por aí. @Agrt

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