O próprio eu criminoso desvenda aos olhos do outro o seu crime: o jogo lúdico é mudado em suas regras.

[ARTE DA VITRINE]: Thiago Chaves (@chavespapel)

Segundo B. Narcejac, em sua teoria sobre o romance policial, Édipo ante a Esfinge foi colocado na situação de um policial que deve, sob pena de morte, raciocinar depressa e precisamente. Ele viveu um romance policial, mas tateando, representando, por assim dizer, um mimodrama[3].

Poder-se-ia afirmar que há reminiscências de elementos da tragédia grega nos romances policiais. A cilada que os deuses criam para sua diversão, opondo vidas, enredando-as em suas teias complexas, tecidas, às vezes, com fragmentos de outras existências, destruídas ou parcialmente transmutadas. O primeiro ponto de questionamento seriam todos os mistérios solúveis?

O homem, como ser humano, é de natureza imprevisível, consistindo-se, em essência, em um mistério indecifrável. Todavia, a ciência vê o homem como máquina e, por conseguinte, parte da engrenagem do mundo. Sob o prisma de Narcejac, “o homem é, portanto, desmontável. Seus raciocínios são associações de ideias; suas ideias provêm de suas imagens; suas imagens são espécies de átomos ligados mecanicamente entre si, conforme as leis da semelhança, do contraste e da contiguidade. Quem sabe aplicar corretamente essas leis sabe ao mesmo tempo decifrar o homem. Seria então o ser humano exposto à descoberta. Por ser máquina, não poderia, milimetricamente, ser programado para conceber o “crime perfeito””.

As sutilezas psicológicas podem embaçar a lente da lupa do detetive, condenando inocentes a um flagelo desmerecido (vide Os Irmãos Karamázovi) ou, por mostrar demais, pode desviar a atenção do que é real e literalmente claro (e verdadeiro), como no conto Romance Negro, de Rubem Fonseca, em que se preconiza a existência do crime perfeito… pelo menos na literatura. Não obstante, a vida, esta imperfeição, ainda insiste por imitar a Arte.

Para Narcejac, o verdadeiro romance policial deve prender-nos pela curiosidade, uma curiosidade ferida e dolorosa, agradável porque a esperança de um desfecho satisfatório a sustenta e a excita sem descanso. Segunda interrogação: seria tão “lógico” desvendar um crime/mistério como resolver (mesmo a mais difícil) uma equação matemática? A verdade pode assumir um caráter tão absurdo que soa como inverossímil/paranóia (vide Romance Negro); pode não ser percebida pelos olhares, ouvidos e cérebros (como a morte de Basil Hallward, em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde) ou ainda sequer investigada (como a vingança perpetuada por Montresor contra Fortunato, em “O Barril de Amontillado”, de Edgar Allan Poe).

As graduações da inteligência humana diferem muito, sendo o criminoso, mesmo sem ter consciência plena do fato, por vezes mais “cérebro” que o investigador. John Landers, personagem de Romance Negro, no seu relato do crime, em certa passagem esboça o que seria o ponto falho da investigação. “A polícia voltou sua atenção para pistas falsas, suspeitos inocentes. Mais uma vez eu fora salvo pela estupidez da polícia”.

Assim, não só o criminoso pode falhar em sua busca do crime perfeito, como o investigador, em sua jornada em busca da solução do Enigma, acabando, um ou outro, senão ambos, por ser(em) devorado(s) pela Esfinge. Papin, o detetive de Rubem Fonseca, em “Romance Negro”, é uma paródia de Dupin, de Poe, e de Sherlock Holmes, de Conan Doyle. Os dois últimos usam a lógica e a dedução com mestria enquanto o primeiro se rende à primeira explicação aparentemente plausível que lhe oferecem… a oferta é aceita e não se fala mais nisso.

(Capitular) Desde tempos imemoriais encontram-se as origens do chamado “romance noir” (roman noir, em francês). Os humanos têm sempre de buscar um problema e, ávidos e angustiados, buscam a solução, e partem para outra jornada, usando da semiótica da vida, por um desejo (também imemorial) que não se sacia quando é satisfeito. Daí as Aventuras de Sherlock Holmes”, “A Carta Roubada”, “O Mistério de Marie Rogêt”, “O Falcão Maltês”,  Romance Negro, além de uma série de outros romances policiais… sempre a necessidade da descoberta… até mesmo em O Barril de Amontillado e em Romance Negro, se o crime não é desvendado dentro da história, nós, leitores, desfrutamos o prazer da descoberta, pois sabemos quem é o assassino.

Terceiro questionamento: Lidos uma vez, perderiam estes ‘romances negros’ seu encanto?

Sim e não. Dependerá do leitor: se este busca saber somente o segredo da Esfinge, deverá fechar o livro e condená-lo ao esquecimento, fazendo-o repousar eternamente em uma estante empoeirada pelo tempo. Requiescat in pace. Se o leitor, ao contrário, for um perscrutador, em uma (ou em várias) releitura(s), acompanhará passo a passo a composição do texto, a qual, segundo Poe, deve ter como primeiro passo um efeito. Navegará no rio da narrativa, deixando-se levar pelas águas da leitura, produzir-se-á uma reflexão conduzida de cada sugestão espontânea da imaginação. Entreverá o processo de criação, como se a composição de um ser humano, com células, fibras, ossos, sangue, carne, tão complexo como o mundo da linguagem, reflexo das contingências da humanidade, em um sentido tão amplo quanto o porquê de existirem a luz e as estrelas. Aqui se escaparia da armadilha da leitura. O próximo e decisivo passo: adentrar uma caverna escura, negra como a noite, negra como o romance em questão.

O filho quer saber sua origem – a uma mesa sentam-se apenas perceptíveis vultos.

Narcejac: “Por definição, o romance policial é um problema. É um todo cujas partes estão intimamente ligadas. Que um romance de espionagem proponha um problema, e já se torna um policial.”

Poe: “Minha intenção é demonstrar que nenhum ponto da composição pode ser atribuído ao acaso ou à intuição e a obra marchou, passo a passo, rumo à solução, com a precisão e a rigorosa lógica de um problema matemático”.

Narcejac: “O romance policial é o modelo muito aperfeiçoado da investigação científica. Enquanto não compreendermos, sofremos. Mas, desde que compreendemos, experimentamos uma alegria intelectual incomparável.”

Poe: “O analista obtém sua floria nesta atividade espiritual cuja função é desemaranhar.”

Narcejac: “Produz-se, no leitor, a mesma transformação que no neurótico nas mãos de seu psiquiatra.”

Ouvem-se ecos. Um livro se abre. Metalinguagem: as origens do romance negro no “Romance Negro”:

Poe: “All that we see or seem – Is but a dream within a dream”.

Bille / Rubem Fonseca: “Dizem que para a chamada escola inglesa, crime, criminoso e vitima existem apenas para permitir ao detetive o trabalho de solucionar o Enigma. Segundo esse ponto de vista, os autores ingleses não perderiam muito tempo na descrição dos personagens e de suas motivações. Por outro lado, na escola americana, o Enigma é um pretexto para o crime.”

Landers / Rubem Fonseca: “O objetivo honrado do escritor é encher os corações de medo, é dizer o que não deve ser dito, é dizer o que ninguém quer dizer, é dizer o que ninguém quer ouvir. Esta é a verdadeira poiesis.”

“Ali [em Édipo Rei], também o enigma (da esfinge) não é o essencial, solucionar a charada é apenas resultado de uma cilada do destino para que Édipo, depois de matar o pai, case com a mãe e cometa o outro crime, o mais grave, o do incesto. Freud, o admirador de Conan Doyle, confirma.”

Desvendar um segredo…?

Montresor / Poe: “Contra a parede nova tornei a erguer a velha pilha de ossos. E neste meio século, nenhum mortal desarrumou esta pilha.”

In pace requiescat.

O leitor, se chegou até aqui, apos a tomada da palavra pelos mestres, deve estar se perguntando qual o objetivo deste arremedo de ensaio sobre o roman noir

Os livros que nas estantes repousam devem ser abertos, lidos e relidos. Escrutínio deve ser feito, tal como se examina um cadáver buscando provas do assassinato, indícios do autor do crime. O cérebro humano funciona como se fosse elástico. Inclua mais informações, pense, repense… e você há de se tornar um sábio. [4]

(Texto original – 1995 – revisto e alterado em 04/01/2010)


[3] Ação dramática representada em pantomima.

[4] Poe, Edgar Allan – O Escaravelho de Ouro e Outras Histórias – Ática, 1993

Doyle, Sir Arthur Conan – Um Estudo em Vermelho – FTD – 1994

Narcejac, Boileau – O Romance Policial, Ática

Fonseca, Rubem – Romance Negro e Outras Histórias – Companhia das Letras – 1992

Comente pelo Facebook

1 COMENTÁRIO

Deixe uma resposta