O logo americano é formado por cinco bombardeiros B2 juntos, formando uma estrela. Bem bolado, bem bolado...

A Data East Corporation (vulgo DECO… O que foi? É sério! O logo está nos cartazes e cartuchos!) tem uma história curiosa: devido principalmente a seus jogos lançados para NES, sempre foi vista como sendo de baixa qualidade, mas isso não é totalmente verdade. Na realidade, a especialidade dela eram os arcades e consequentemente, estava acostumada a trabalhar com recursos mais poderosos do que os videogames da época 8 bits. Alguns jogos da empresa, como Edward Randy, Robocop, Sly Spy e Dragon Ninja fizeram bastante sucesso, bem como seus títulos envolvendo a guerra como tema.

Aliás, parece que este era um dos temas favoritos da Data East, tendo lançado vários títulos baseados no mesmo: Heavy Barrel, Midnight Resistance, Bloody Wolf… Outra que gostava do estilo era a SNK, com Ikari Warriors, P.O.W, Chopper 1 e mais uma infinidade de jogos, o que gerou problemas com a Nintendo por este motivo. A empresa de Mario Brothers queria diminuir os títulos  que remetessem à violência na época, o que levou a SNK a trabalhar na idéia de ter seu próprio hardware, o idolatrado Neo-Geo que bem conhecemos, mas esta é uma outra história…

Voltando a falar do assunto principal, a imagem ruim da DECO foi parcialmente dissipada no final dos anos 80/começo dos anos 90, pois a empresa “gostou” do Mega Drive e lançou vários ports de arcades feitos por ela, como também títulos originais de qualidade. O processador era o mesmo de sua placa comercial da época, o famoso e versátil Motorola 68000 de 16 bits, que também era o “motor” de vários computadores japoneses e europeus. Inclusive a DECO mostrava uma técnica de programação de som excelente, muitas vezes superando a qualidade de seus arcades em ports caseiros.

Tem um amigo meu que fica bravo se falarem mal de B-Wings (um jogo antigo da Data East) perto dele...

Justamente nesta época, surgiu uma série criada pela Data East que foi chamada pelos fãs de “trilogia Fang”. Esta fez relativo sucesso no oriente e foi lançada também nos arcades dos Eua, mas teve apenas o primeiro título distribuído em forma de port caseiro somente para o Sega Genesis por lá, com o nome de Vapor Trail: Hyper Offense Formation (1989). O título original japonês era Kuhga – Operation Code: Vapor Trail, sendo que a primeira palavra significa “presa (no sentido de dentes de um animal) aérea” ou Air Fang, em inglês. A sequência Rohga/Wolf Fang teve ports para Playstation 1 e Sega Saturn a cargo da Xing, e o terceiro e último jogo, Skull Fang, foi portado somente para Sega Saturn (responsabilidade da desconhecida Aisystem Tokio).

Vapor Trail/Kuhga foi lançado em 1989 nos arcades e é um shooter vertical com alguns elementos bem legais, como seleção de aviões com características diferentes e módulos especiais de armamentos. A história é a seguinte: uma organização chamada DAGGER (Ragnarok no original) invade a Nova York de 1999, corta todas as comunicações e ainda hackeia o comando de mísseis nucleares, colocando o mundo todo em perigo. Para isso é formada uma unidade especial de ataque aéreo composta por três aviões experimentais:

Silph: Pertencente à marinha, este caça é o mais balanceado dos três. Tem uma configuração de asas chamada “delta-compound”, como o caça Hal Tejas indiano (isso mesmo, existe um caça feito na Índia) ou o sueco Saab 37 Viggen.


Valkyrie: Este vem do exército e é o mais lento, porém com o armamento mais pesado. Seu design é quase idêntico a um A-10 Thunderbolt II americano, que voa estavelmente em baixa altitude e velocidade, para realização de ataques ao solo.


Seylen: da aeronáutica, é o mais rápido e mais fraco. O estranho deste caça é que seu tiro é mais concentrado atrás do que na frente e possui asas em configuração invertida (voltadas para a frente, como o SU-47 russo e o experimental X-29 americano). Isso é tecnicamente correto, pois caças feitos desta forma tendem a ser mais rápidos para manobrar.

Valkyrie e o chefe da primeira fase, subindo o arranha-céu gigante em construção.

Aparentemente todos eles podem decolar verticalmente (apesar disso ocorrer em uma pista de porta-aviões no jogo), pois existem momentos, como na ocasião em que se enfrenta o chefe da primeira fase, onde jatos abaixo do avião são ligados e a ação ocorre subindo um arranha-céu gigantesco em construção que literalmente vai até as nuvens (passando-as até).

Um fato interessante: os nomes dos caças vieram todos de figuras femininas da mitologia de regiões diferentes: Silph (sílfide) é uma elemental do ar na mitologia ocidental, Valkyrie (valquíria) é uma guerreira mitológica nórdica que decide quem vive e quem morre em batalha e Seylen está escrito errado (um engrish: erro comum nas traduções de japonês para inglês), na verdade é Siren (Sirene), proveniente da grega. Significa mesma coisa que as sereias, para nós, brasileiros.

Silph com seu módulo acoplado atirando em "V". Demorei para acostumar com este tiro...

Fora o armamento normal obtido através de itens (um tiro para frente um pouco expandido, um concentrado explosivo e mísseis), existem itens de aumento de velocidade, energia (felizmente o jogo não é 1-hit death) e um módulo especial, que acopla na fuselagem. Cada módulo é relativo a apenas um avião, fazendo com que o mesmo fique com um tiro poderoso (um rapid fire em forma de V para o Sylph, um forte canhão duplo de chamas para o Valkyrie e um verdadeiro festival de mísseis teleguiados para o Seylen), porém, torna a tarefa de desviar de projéteis mais trabalhosa devido ao aumento de tamanho do caça. O módulo especial também pode ser explodido, o que gera uma bomba estilo “socorro, vou morrer” de jogos como Raiden e Aero Fighters, porém de uso único.

O barrel roll cria um escudo protetor enquanto está acontecendo, mas não dura por muito tempo.

Além de tudo isso, existe ainda uma manobra estilo barrel roll: o avião gira em torno do próprio eixo, deixando rastros de si mesmo que resultam em invencibilidade temporária, dependente de uma barra abaixo da tela que, quando cheia, mostra “roll ok”. Depois de usada, ela recarrega lentamente para ser usada novamente. Acredito que esse tempo seja o do piloto limpar os vidros da cabine depois de girar tantas vezes tão rápido (iéco!).

Os gráficos são bem legais na versão arcade, mas a versão para Mega Drive lançada em 1991 perdeu vários detalhes relacionados à eles e às vozes digitalizadas, apesar dos 8 mega e de ter sido programada pela própria Data East (mas distribuída pela Telenet/Riot). Uma das coisas que mais senti falta é a sequência de posicionamento e lançamento dos aviões, logo após a seleção feita pelo jogador (que é bem empolgante, com várias vozes digitalizadas e uma música muito boa). Ainda sobre as vozes: tudo bem que no arcade elas são meio incompreensíveis (os programadores quiseram passar a idéia de que a comunicação estava sendo feita via rádio), mas na versão caseira elas são muito piores (roucas e em menor quantidade). Realmente uma pena…

A capa americana do Genesis é medíocre como poderia se esperar...

Falando em música, este jogo possui um número pequeno delas, mas de qualidade, tanto no arcade quanto no Mega (eu particularmente prefiro as do último). A do lançamento dos aviões, por exemplo, começa como um tipo de sinal de emergência (o chamado scramble), mas rapidamente você percebe que este faz parte dos instrumentos da melodia, muito bem idealizada. Esta sequência pode ser vista aqui, bem como o gameplay dos estágios 1 e 2 (apesar do jogo ter velocidade inconstante por efeito da emulação e isso influenciar diretamente no som). Outro bom exemplo é a música in-game: eu não consigo pensar em nenhuma outra que combine melhor com um ataque aéreo feito por aviões de elite, por mais que esta se repita por várias fases. Conferiram a versão do “meguinha” aqui.  Ah, o final desta também é melhor do que o do arcade, na minha opinião.

A organização Ragnarok ainda vai enxer muito o seu saco em Wolf Fang...

Conheci este jogo em fliperama, mas em sua versão caseira. Como isso é possível? Bom, o Mega Drive foi lançado no Brasil com um preço proibitivo (como infelizmente já é tradição por aqui), mas os técnicos em eletrônica criaram um procedimento (vulgo gambiarra) que permitia a instalação de vídeo-game dentro de um gabinete de arcade. Existiam pontos bons e ruins nisso: o bom é que a cada semana apareciam jogos novos no fliperama que eu costumava freqüentar e deixava todo mundo maluco. O ruim é que depois que se colocava a ficha, o jogo ficava dando o comando de start até começar, e no caso de Vapor Trail, isso significava a escolha automática do primeiro avião sempre (o Silph).

Todo mundo queria jogar com os outros, até porque eles apareciam durante a demonstração, mas ninguém nunca conseguiu. A situação gerou até uma lenda na região, que prometia tornar possível selecioná-los, mas no final era tudo invenção da garotada… Só fui encontrar a máquina original muito depois, quando fui para Presidente Prudente visitar uma parte de minha família.

... e em Skull Fang.

Kuhga/Vapor Trail é um bom início de série e, enquanto se pensava que sua sequência também seria um shooter vertical, a Data East resolveu fazê-la um jogo de ação lateral com robôs (Rohga/Wolf Fang) também muito bom. Já Skull Fang voltou a ser de igual gênero ao primeiro “episódio”, porém, com mecânicas diferentes incorporadas… Deixarei para matérias futuras estes outros jogos, pois são bem distintos.

Sobre a ótima capa japonesa, a primeira vez em que a vi de longe, pensei que o desenho se tratava de um tipo de comprimido gigante ou um submarino (tudo a ver um com o outro, não é?) mas na verdade é a parte inferior do cockpit do Seylen, voando baixo em torno de um míssil nuclear ICBM, junto com o Silph e o Valkyrie logo acima. Fiquem com ela para relembrar e mais um presentinho: a versão com instrumentos reais do tema in-game, que ficou excelente! Até a próxima semana!

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