E aí galera retrogamer! Nesta segundona, vamos relembrar o passado dos games e suas histórias às vezes não muito conhecidas, como este jogo, que é um exemplo do termo americano “underrated” (o significado é parecido com “incompreendido”, ou “não reconhecido”), e que infelizmente passou meio desapercebido por estas bandas também.

Vice foi analisado pela famosa Nintendo Power

Nos tempos do Nes, a Sammy não era que o podemos chamar de uma boa empresa (pronto, falei), mas até que “dava seus pulinhos” (Ninja Crusaders, Michael Andretti World GP), ou seja, vez ou outra lançava títulos razoáveis. Porém, em 1991, a desenvolvedora soltou uma surpresa nas lojas japonesas, chamada Gun-Dec (rebatizado de Vice: Project Doom na terra do tio Sam). A Sammy sabia do relativo sucesso no Japão e investiu pesado na publicidade do título antes do lançamento nos Eua, afim de construir uma expectativa nos jogadores (o famoso hype). Os anúncios saíram em praticamente todas as revistas de jogos da época (Eletronic Gamming Monthly, Nintendo Power, Gamepro, Computer & Video Games, para exemplificar algumas).

 O que quase ninguém sabe, é que Vice não foi desenvolvido pela Sammy, mas pela Aicom (a primeira só o distribuiu), por sinal, a mesma empresa que futuramente faria o excelente shooter para Neo-Geo chamado Pulstar (com uma abertura simples mas show de bola, aproveitando a deixa). Na verdade para quem acompanhou os jogos anteriores da Sammy no Nes, essa diferença de empresas fica bastante clara, pois o título é anos-luz superior aos que foram realmente desenvolvidos por ela.

Hart não usa espelho para se pentear...

Seguindo a fórmula estabelecida em Ninja Gaiden, Vice é também um jogo de ação lateral com plataformas, mas existem estágios onde o personagem usa seu carro e a visão passa a ser superior. O gameplay então se torna uma espécie de shooter meio maluco com obstáculos diversos na pista, uma boa quebra da regra geral deste estilo de jogo. Existem ainda fases de tiro em primeira pessoa, onde se controla uma mira, não muito diferente de arcades antigos, tais como Operation Wolf e Mechanized Attack.

 A história, como muitas outras nos jogos de Nes, se passa em um futuro próximo: o jogador é um detetive “linha dura” chamado Quinn Hart da unidade Vice, que está investigando a mega corporação B.E.D.A. (produtora de armamentos militares e dispositivos eletrônicos), seu envolvimento no desaparecimento de seu parceiro Reese e também com uma nova droga altamente viciante chamada Gel. Hart é ajudado pela namorada Christy (que também é agente) e por uma conhecida dos dois, Sophia (está bem servido o sr. Hart hein…).

A partir daqui existem spoilers, então se você quiser continuar lendo a matéria sem saber da história, pule para o parágrafo seguinte… Acontece que na verdade B.E.D.A é regida por uma raça de alienígenas e o tal Gel foi feito por eles como um alimento para consumo próprio, mas nos humanos, a substância tem efeito viciante. Fora isso existem outros “plot twists” (vulgo reviravoltas), mas vou ficar por aqui mesmo para não estragar as surpresas.

...e aparentemente é baladeiro também.

Vice usa cutscenes para contar a história (que por sinal é acima da média para jogos da geração 8 bits), que progride em passos pequenos como se deve ser. De pista em pista, o jogador é levado pela mesma curiosidade de Hart, e nada é divulgado prematuramente, tornando a experiência de se derrotar chefes bastante recompensadora, afinal irá ser desvendada mais uma parte da trama após fazê-lo.

Quando a pé, nas fases de ação lateral, Hart se mostra um cara bem armado: carrega consigo um chicote laser (de curto alcance, rápido e de uso ilimitado, funciona como a espada de Ninja Gaiden), uma pistola Magnum .44 e granadas de mão (as duas com munição limitada, necessitando de itens deixados por inimigos derrotados para recarga). O detetive também é um cara bastante ágil apesar da meia-idade, com controles precisos, inclusive adicionando uma ação inédita no estilo, que é a de correr abaixado (segurando uma das diagonais inferiores), mostrando que é possível sim, envelhecer com dignidade. As animações dele também são bem feitas, e um ponto diferente é o de que Hart sobe e desce escadas lateralmente, diferenciando-se da tomada normalmente usada (focada nas costas do personagem).

Vice tem 3 tipos de gameplay, esse é o em primeira pessoa.

O controle nas fases com o carro é basicamente o mesmo de shooters superiores, mas sem o botão da “bomba salva-vidas”, que foi substituído pelo seletor das 3 marchas ( servem como as diferentes velocidades de controle que uma nave do estilo de jogo mencionado possui, já que o carro acelera sozinho).  Já nas fases em primeira pessoa com a mira, um botão atira e outro fazem Hart jogar granadas. O controle nestas fases não é ruim, mas existem alguns slowdowns nas seções com o carro, devido ao limite de objetos na tela do Nes e, quando em primeira pessoa, a mira é um pouco lenta para o meu gosto, fora isso, tudo funciona muito bem.

Se eu precisasse destruir um tanque, minha primeira opção de armamento também seria um chicotinho.

Os gráficos de Vice/Gun-Dec são escuros, mas excelentes (o cartucho tem incomuns 3 mega, o único jogo de que eu me lembre com esta capacidade é o clássico Super Mario Bros. 3) e fazem uso de vários planos de scroll (parallax, meio incomuns no Nes) que aumentam a percepção de profundidade. O problema é a parte sonora… Não estou falando dos efeitos, mas as músicas mesmo.  Nenhuma delas é memorável e os instrumentos usados são estranhos, meio ríspidos se comparados aos de títulos de empresas mais famosas. Porém o jogo vale bastante à pena, tendo uma dificuldade desafiante (as primeiras fases são bem fáceis, servindo como um aquecimento para as “arranca-cabelos” de mais além).

As artes das cutscenes de Vice/Gun-Dec são um pouco inferiores às de Ninja Gaiden, não que atrapalhem a história, mas torna evidente a diferença de qualidade que uma empresa tradicional e de recursos como a Tecmo disponibilizava em comparação a uma de porte pequeno como a era a Icom (que depois foi comprada pela SNK, virando Yumekobo, e depois faliu junto com a “mãe”, não sendo reativada com pela SNK/Playmore atual).

Mão na cabeça rapá!

Como era costume da Konami copiar astros de cinema nas capas de seus jogos, A Aicom (ou talvez a Sammy mesmo) mandou alguém desenhar um sósia de Bruce Willys, apontando uma arma para alguém e fazendo cara de quem está prestes a sentir em primeira mão os efeitos de um desarranjo intestinal poderoso. Hilária a capa da versão japonesa… Gostaria de ter conhecido o “artista” responsável e pedir um autógrafo no cartucho.

Horripilante essa capa!

Mas pior ainda é a capa da versão americana… Nesta, o detetive Hart foi desenhado como sendo o ator Martin Kove (o mestre dos Cobra Kai, John Kreese, no filme Karate Kid), aparecendo com a camisa meio detonada. Já a mulher que aparece abraçada com ele, aparentemente foi inspirada na musa asiática oitentista/noventista, Tia Carrere. Os dois “astros” posam em um cenário com vigas de metal, eletricidade e fumaça, na tentativa de passar a impressão de ação e emoções fortes (não diferente dos cartazes dos filmes da época). Clássico instantâneo, juntamente com a capa americana do Megaman original (que rendeu até uma versão tosca do personagem no recente Street Fighter x Tekken).

Joguei Gun-Dec/Vice: Project Doom em sua versão japonesa “alternativa”, em um cartucho verde-bebê (destoando fortemente da virilidade aparente do gêmeo mal formado de Bruce Willys na capa, que insistia em me apontar a arma), pois fez parte da biblioteca do videogame Super Charger, clone chinês de nintendo 8 bits que veio para o Brasil e vendeu bastante (graças ao merchandising que aparecia em revistas da época, como a SuperGamePower). Aliás, muitos dos jogos de Famicom exclusivos do Japão foram disponibilizados no acervo de jogos deste videogame, fazendo a alegria de muitos (eu incluso), pois eram relativamente baratos e encontrados facilmente em lojas de departamentos (como a “falecida” Mesbla). Mesmo assim, só vi este cartucho para vender uma vez, o resto, só originais americanos nas locadoras e de gente que trazia de lá.

Estive pensando sobre o título japonês que aparentemente não faz sentido (vocês devem estar se perguntando como isso é relevante, não é mesmo?) e cheguei a uma conclusão: “deka” em japonês quer dizer “tira” (no sentido da gíria direcionada a policiais em filmes americanos). Logo, “Gun-Dec” quer dizer algo como “tira armado” ou algo parecido, já que a capa mostra um cara apontando uma arma. Pelo menos é essa a hipótese que cheguei… Se você tiver alguma outra opinião, por favor comente a respeito mais abaixo e contribua na solução deste grande mistério :D

Bons gráficos e controles nas fases de ação.

Houve também um fato curioso em relação a este jogo: a Sammy americana processou a ID Software alegando que várias idéias de Vice foram copiadas descaradamente em Doom, mais precisamente os elementos de terceira pessoa, uma arma chamada BFG (que em vice se chama Bio Forge Gun) e algumas similaridades na história. Quem jogou Doom sabe que os jogos não têm absolutamente nada em comum e o processo eventualmente foi cancelado.

No final das contas, Vice/Gun-Dec foi um bom exemplo do que se podia fazer no Nes/Famicom, e, na minha opinião, um jogo que cabia como uma luva naquelas tardes chuvosas depois do colégio, de preferência se fosse jogado em uma daquelas TVs grandes de tubo da Telefunken que faziam barulho até esquentar (e depois deixavam um ponto branco no meio quando desligavam). Fiquem a capa americana refeita decentemente pelo talentoso ilustrador Michael Walsh e até a próxima semana (ficou parecendo até Max Payne)!

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4 COMENTÁRIOS

  1. Vlw Ernesto! Sempre existe um ou outro jogo que passa batido ne… Tem q ficar atento a esses mais obscuros tmb hehe

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