Nayarit-en-el-muelle-de-Sanblas

Morávamos numa ilha afastada de tudo, como se fosse parte de outra dimensão. Não que acreditássemos nisso, mas era algo legal de se imaginar. Todos na vila se conheciam, os mais velhos eram a sabedoria viva e fonte de inspiração para todos nós, os jovens habitantes daquele lugar. Não tínhamos líder, mas nos respeitávamos como se fôssemos todos da mesma família. O que não deixava de ser verdade.

Na primeira sexta-feira do mês, toda a vila se reunia em volta de uma grande fogueira, para fazermos um tipo de festa. As mulheres levavam comidas de vários tipos, os homens compravam as bebidas, e os jovens eram responsáveis pela decoração. Era sempre uma festa diferente de outra, então nunca nos cansávamos daquela tradição que alguém havia criado há muito tempo. Eu o conheci com 18 anos.

Foi numa dessas festas que ele chegou sem avisar. Era um jovem marinheiro, que havia parado na ilha por falta de suprimentos do navio. Logicamente, todos nós ficamos curiosos sobre todos aqueles estranhos em nossa ilha afastada, e eles pareciam surpresos com tanta atenção. E parecendo fugir de todo o burburinho, ele veio até onde eu estava, pedindo um pouco de comida e água.

Eu ainda não havia o observado de perto, e quando nossos olhos se encontraram, senti como se toda a festa tivesse acabado. Para que eu pudesse ser simplesmente sugada por aqueles olhos azuis que refletiam o fogo da fogueira. Ele sorriu um sorriso perfeito, estendeu a mão e se apresentou. Marcus.

Não percebi o quanto estava trêmula até apertar sua mão, dizendo meu nome. “Alice”, e sorriu de novo. Nunca gostei tanto do meu próprio nome como naquela primeira vez que o ouvi dizendo. Marcus pareceu não notar minha timidez, ou pelo menos era muito bom em ignorar essa minha característica. E também não se importou em perder uma festa tão linda para conversar comigo.

E eu só queria saber um pouco mais de um homem estrangeiro.

Quando a festa acabou, horas depois, parecia que ele tinha acabado de chegar. Marcus queria saber de mim, da vila, das pessoas tão hospitaleiras que receberam a sua tripulação com tanta naturalidade. E eu também estava encantada com ele, afinal, eu nascera e vivera na ilha, sem nunca ter conhecido o verdadeiro mundo.

Despedimos-nos com certa estranheza. Ele segurou minhas mãos e não queria soltá-las. Eu estava nervosa, e por causa disso acabei indo para casa sem dizer um “boa noite” apropriado. Apenas sorri pela milésima vez, abaixei o rosto e saí andando sem olhar para trás.

E não consegui dormir.

Aos primeiros raios de sol, a vila já acordava. Sobrevivíamos da pesca, da agricultura, e de algumas poucas exportações que chegavam raramente. Sim, era uma ilha tão afastada do resto do mundo que nem tecnologia tínhamos direito. Televisão? Nunca havíamos visto uma de verdade, só em recortes de jornal.

Mas isso não significava que éramos desinformados nem analfabetos. Tínhamos uma escola básica que funcionava o ano inteiro, e qualquer um que estivesse disposto a aprender podia entrar, a qualquer hora e a qualquer dia. Também havia uma biblioteca modesta, de pouco mais de cem exemplares, e recebíamos jornais todas as poucas vezes que um navio de exportação parava em nosso cais.

Isso era algo que encantava Marcus. Ele dizia que nunca havia conhecido pessoas tão felizes, tão de bem com a vida, e sem preconceitos com quem vinha de fora. Contou-me que em seu país (não lembro o nome, era complicado), quem era estrangeiro vivia sobre forte vigilância, como uma ameaça à população. Achei aquilo tão horrível que me esforcei a não pensar sobre isso.

Os dias passavam rápido demais quando Marcus estava comigo. Visitamos algumas praias, ele compartilhava do mesmo amor ao mar que eu. Foi numa tarde quente que ele me beijou pela primeira vez. Na minha vida. Foi incrível sentir meus lábios formigando, formando um sorriso que não consegui controlar – e nada verdade, eu nem queria. Quando abri os olhos e o vi também sorrindo, foi como poder enxergar o mundo com novas cores. Mais fortes, mais vibrantes.

Naquele primeiro beijo, eu entendi finalmente o real significado do amor.

Obviamente, eu sabia que ele teria que ir embora algum dia. Mas eu não estava preparada para dizer adeus. Não estava preparada para a dor que me tomaria, para as lágrimas que insistiam em cair e para a falta de ar em meus pulmões.

Marcus apenas sorriu, triste também. Ele então ajoelhou, retirando um pequeno anel do bolso. Pediu para que eu fosse sua mulher, para todo o sempre. Mas ele precisava voltar para seu país, resolver alguns pequenos assuntos pendentes, falar com sua família e, enfim, voltar para a ilha para viver comigo. Ali, no lugar mais afastado que ele já havia visitado em seus poucos anos de marinheiro.

Eu aceitei, era muito claro para mim que eu o amava. Com toda a minha alma e coração, eu o amava. Um último beijo de adeus, sem nos importar com os olhares em volta, uma última jura de amor e a promessa de que voltaria para mim.

Assim que entrou em um bote, que o levaria ao navio, Marcus disse que o vestido que eu usava era o que me deixava mais bonita. Não consegui respondê-lo, as lágrimas fecharam minha garganta. Só pude continuar ali, no cais, olhando seu navio se afastar de mim. Acenei até não poder mais enxergar o contorno da embarcação no horizonte, para logo depois cair de joelhos, em prantos.

Só me lembro de ser carregada para casa pelo pai. E de ter acordado de madrugada, sem acreditar que não havia sonhado com aquilo.

Os dias continuaram iguais. Normais, sempre o mesmo, e nada daquilo me satisfazia mais. Eu tentava voltar à rotina, fazer as coisas que gostava, conversar com minhas amigas sem parecer triste… Mas depois de alguns dias, eu já não sabia fingir.

Não comparecia mais às festas de sexta-feira, não conseguia estudar, não sorria. A única ação que eu ainda fazia sem preguiça era ir ao cais, todos os dias, sempre usando o mesmo vestido que Marcus tanto gostou. Voltava para casa, lavava-o com cuidado para que não desbotasse, e na manhã seguinte ele estava seco, pronto para ser usado.
Tentaram me tirar dali várias vezes. Nas primeiras vezes eu gritava, brigava com quem chegasse perto demais de mim, e cheguei a agredir um homem que me tocou. Ninguém além de Marcus podia me tocar. Depois de algumas tentativas, pacíficas ou agressivas, todos desistiram.

Depois de alguns meses, eu já não falava com mais ninguém. Acordava apenas para ir ao cais, e por lá ficava até a noite chegar. Às vezes eu cantava, esperando que o vento pudesse levar minha voz até ele. Outros dias, eu levava um pequeno caderno e escrevia poemas de amor, mesmo sem saber escrever como uma verdadeira autora. Apenas deixava as palavras saírem no papel, leves, mas pesadas com meus sentimentos.

Quando chovia, alguém levava um guarda-chuva para mim. Porque eu não tinha forças para levantar da madeira, nem me importava em ficar completamente molhada e fria. Aliás, eu já estava fria há muito tempo. E não pensava em mais nada.

Afinal, ele prometera que iria voltar. E eu acreditava apenas nisso.

O vestido já não me servia, mas eu ainda o levava comigo até o cais, dia após dia. Meus cabelos, antes tão sedosos e negros, já não tinham o mesmo brilho da noite. Tinha agora a cor do inverno. A tecnologia finalmente havia chegado à ilha, e a comemoração por todos termos televisão foi geral. Algumas vezes eu assistia aos programas que ali passavam, naquela tela que nos trazia imagens de tão longe, de lugares que eu nunca imaginei existir.

Falaram muito sobre uma grande guerra, que havia matado milhares de soldados e dizimado territórios, cidades, famílias. Mesmo prestando atenção em cada palavra que a mulher dizia, não ouvi o nome de ninguém. Nem o de Marcus.

Eu já não tinha mais família. Meus irmãos haviam partido para o exterior, dizendo que ali na ilha não era possível ter uma vida de verdade. Meus pais faleceram há tanto tempo que não consigo me lembrar ao certo. Só me recordo de que não chorei. Meu pai uma vez me disse que, depois que Marcus partiu, eu havia ficado sem alma.
Era verdade. Tudo de bom que havia em mim, Marcus levou consigo.

Eu não o culpo. Nunca pensei que ele mentiu para mim, nem que sua promessa tenha sido em vão. Eu sabia, do fundo do meu coração, que ele voltaria.

Tentaram me levar dali. Não do cais, da ilha. Tentaram me convencer de que, se eu fosse para uma cidade eu teria um tratamento para meu distúrbio. Desde quando amar alguém havia se tornado doença?

Disse a eles que iria, mas só depois que me deixassem escrever toda a minha história. Os simpáticos enfermeiros sorriram, aceitaram a proposta, e disseram que me esperariam, mas que devíamos partir em dois dias.

Era tempo suficiente.

Pela primeira vez, em muitos anos, eu chorei de novo. Chorei ao lembrar de seus olhos azuis, do nosso beijo, de como entreguei meu corpo sem medo a alguém que eu realmente amei. Lágrimas de saudade, de dor, de paixão, todas elas caíram nas folhas do caderno, manchando a tinta e fazendo borrões em minha carta.

Eu já estava pronta para partir.

No dia combinado, voltei ao cais pela última vez. Olhei o horizonte despontar, trazendo um forte calor em meu velho e abandonado coração. Ouvi chamarem meu nome, a embarcação estava do outro lado do antigo cais, meu companheiro de tantos dias.

Respirei fundo, fechei os olhos, e me deixei ser tomada por todas as sensações que nunca iriam mudar. O cheiro do mar, a brisa marítima, o calor do sol chegando em meu corpo.

E a água gelada me envolvendo de uma só vez. Não ouvi mais nada. Não vi mais nada.

Eu sabia que ele iria voltar para mim. Só não sabia que o reencontro devia começar por uma atitude minha.

Tinha a certeza de que, onde quer que a maré me levasse, eu iria ao encontro dele.

Porque prometemos que iríamos nos pertencer. Para sempre.

(Texto completamente inspirado na música Muelle de San Blas, do Maná.)

Clique aqui para assistir o vídeo inserido.

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