delirio e destino

– Ora, ora! Nosso novo irmãozinho é na verdade uma irmãzinha!

Morte estava no enorme Jardim do Destino com seus irmãos. Olhava a nova estátua no reino do mais velho dos Perpétuos:

– Poderia ter nos contado, Destino.

– Peço que perdoe esse lapso.

Desespero, nitidamente deslocada em meio aos outros, perguntou:

– O que faremos agora?

Quem respondeu foi Sonho, taxativo:

– Devemos ir ao Mundo Desperto encontrá-la. E antes de Desejo.

Delírio começou a pular de alegria. Luzes brilhantes de diversas cores piscaram ao redor dela:

– eBa! VaMoS pAsSeAr ToDoS jUnToS! qUe LeGaL!

– Hum… Acho melhor não. – disse Morte, para a tristeza de sua irmã mais nova. – Juntos estaremos nos limitando. Será melhor nos separarmos para cobrir uma área maior.

Destino consultou mais uma vez seu enorme livro e então anunciou:

Concordo plenamente, mas não participarei da busca no Plano Material. – todos se espantaram. Se isto o afetou de alguma maneira, não deixou transparecer. – Devo permanecer aqui e observar o desenrolar dos acontecimentos. Obstante, serei mais útil aqui no meu reino como ponte entre todos nós.

Todos concordaram. Morte então começou a organizar a todos:

– Então está certo. Quem descobrir algo informe aos outros através de Destino. Boa sorte.

Todos os Perpétuos abriram portais e desapareceram. Quase todos, pois Delírio e Destino ainda estavam no jardim. Ele questionou:

– O que faz ainda aqui?

– eU tAvA pEnSaNdO… – ela levou sua pequena mão ao queixo. – cOmO vOu PrOcUrAr MiNhA iRmÃzInHa MaIs NoVa? AgOrA sOu MaIs VeLhA qUe AlGuÉm. E pReCiSo CuIdAr DeLa, E cUiDaR bEm. O qUe VoCê AcHa?

Mais uma vez, Destino consulta seu livro:

– Você deve começar pelo seu reino. Lá encontrará algo que poderá ajudá-la.

Um sorriso enorme explodiu no rosto da menina:

– vAlEu IrMãO! vAlEu MeSmO! vOu PaRa MeU rEiNo AgOrA mEsMo. AdEuS e TcHaU-tChAu!

Assim ela se foi e Destino retornou à sua morada, ainda consultando seu livro.

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Londres. Encontramos um garoto deitado em sua cama, lendo um gibi de super-heróis. Após um longo e desanimado suspiro, deixou a revista ir ao chão. Ajeitou seus enormes óculos redondos e, através da janela, olhou para o céu estrelado.

Ele tinha 13 anos e já havia viajado para o tempo antes do tempo e para o fim de tudo o que existe. Visitara diversos reinos, conquistando amigos e inimigos. Não só enfrentara a Morte mais de uma vez, como chegou a tomar chá com ela. Seu nome era Timothy Hunter e estava destinado a ser o maior mago do mundo. E acabara de perceber que não via mais a menor graça em gibis de caras com cuecas por cima da calça enfrentando vilões que queriam conquistar o mundo.

tim hunter

De repente, notou um estranho brilho vindo da gaveta da cômoda. Ao lembrar-se do que havia guardado nela, correu assustado para abri-la. Ficou então parado, olhando a gaveta aberta e assimilando o que tinha acontecido. Após alguns minutos, conseguiu balbuciar:

– O Ovo dos Mundos… Ele… Ele quebrou!

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Fabiana acordou, coçou a cabeça e deu uma bela espreguiçada:

– Bom dia… hã?

Sua hóspede não estava no quarto. Desesperada, a garota correu para a sala, onde a encontrou sentada no sofá, vendo TV.

– Que susto! Pensei que você tinha sumido!

– Desculpe. – respondeu a mulher, sem jeito.

– Tudo bem, desencana.

Fabiana foi então para a cozinha fazer um café. De lá, falava berrando:

– Sabe… Eu tava pensando… Não sei seu nome e você não se lembra dele. Eu te chamo como afinal?

A mulher pensou um pouco e disse:

– Sinceramente? Não sei…

A garota voltou da cozinha com um ar pensativo. Começou a pensar em voz alta, enquanto andava pela sala:

– Vamos ver… Um nome que combina com você… Tá difícil!

– Deixa pra lá. – cortou a mulher, parecendo incomodada. – Não precisa.

– Como não? – a garota retrucou, indignada. – Já sei! Tenho um livro com um tipo de dicionário de nomes. Aí a gente te sorteia um! Vai ser provisório, só até descobrirmos quem você é realmente. Que tal?

Sua nova companheira de quarto não se animou tanto quanto ela:

– Sei lá… Parece bom.

Fabiana correu para o quarto e voltou com o livro:

– Então, vamos lá! – ela folheou o livro e parou aleatoriamente. – Tcharãm! Seu nome será… Aline! Gostou?

A mulher tentou fingir um sorriso:

– É… Legal… AAAAH! – Aline levou as mãos à cabeça, gritando de dor.

– Ai meu Deus o que é… AAAAH! – Fabiana também sentiu uma dor de cabeça intensa.

As duas foram ao chão, gritando. Tudo ficou escuro por um tempo, então algumas imagens borradas começaram a passar por elas. Eram as mesmas se repetindo infinitas vezes. Após um tempo que não poderia ser definido, foi possível identificar a todos. Um livro enorme e muito antigo. Uma espada de duas mãos que pareceu viver infinitas batalhas. Uma bela e assustadora cruz egípcia. Um estranho elmo, talhado do crânio de algo que não deveria existir. Um coração de um vermelho luxurioso. Um pequeno e sinistro anel com um gancho que parecia rasgar almas. E uma bolha feita de infinitas cores.

Então a dor acabou. Tudo voltou ao normal e a duas se viram ainda caídas no chão. Ofegante, Fabiana tentava entender o que havia acontecido:

– O… o que foi isso?

Aline, também muito atordoada, ensaiou uma resposta:

– Não sei! Acho que são… São minhas memórias…

Fabiana arregalou os olhos, começando a ficar assustada:

– Suas memórias? Mas… Mas eu vi também! Como você fez isso?

– Não sei! – Aline estava assustada também. – Nem sei se fui eu mesma que fiz…

Fabiana, tentando se recompor, começou a refletir:

– Isso não é uma coisa muito normal… Aliás, não é nem um pouco normal! Por acaso você é uma bruxa?

– Como vou saber? Não lembro de nada!

Súbito, a garota tem um estalo e fica em pé, com um pulo:

– É isso! Bruxaria! Já sei quem pode nos ajudar! Deixa eu me arrumar que já vamos pra lá!

(continua…)

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É um cara que já trabalhou (e trabalha) em muitas coisas e nas poucas horas que tem dá uma de escritor/poeta/jornalista/roteirista. Quando tem vontade atualiza seu blog, o “O Protagonista 2.0”. Foi colaborador do blog Cultura Nerd e atualmente escreve para os blogs sites Novelas Teen, Contraversão e Revista Entremundos. Pode ser encontrado a noite cambaleando bêbado pelas ruas de São Paulo ou falando seu nome três vezes em frente a espelhos em botecos suspeitos da Augusta e da Mooca. Uma mistura de Spider Jerusalem e John Constantine, ou não.